Google: “Vejo o perfil do jornalista a evoluir, mas de forma alguma a ser substituído pela tecnologia”
O futuro dos media, "nesta fase, é um futuro de readaptação, provavelmente da sua organização, do seu modelo de negócio", considera Riccardo Terzi, head of partnerships da Google para o sul da Europa.
O responsável pelas parcerias da Google para o sul da Europa afirma, em entrevista à Lusa, que a IA pode representar uma oportunidade muito interessante para os media e admite que haverá uma evolução no perfil de jornalista.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
“A IA [inteligência artificial] pode representar uma oportunidade muito interessante para os media, para os media tradicionais e para a indústria” do setor, considera Riccardo Terzi, head of partnerships da Google para o sul da Europa, admitindo que “muitas coisas ainda têm de ser ajustadas ao novo modelo”.
A conversa que a Google tem estado a ter com os líderes de media, acrescenta, “está relacionada, por exemplo, com o controlo da IA e com os direitos de remuneração“, abrindo, assim, “um novo campo de diálogo e de conversa”.
Riccardo Terzi sublinha que é o primeiro a dizer que “ainda há muito a fazer” e que estão todos numa fase “completamente experimental”. Paradoxalmente, “mesmo que agora estejamos todos a discutir sobre a flutuação do tráfego, o paradigma que está a mudar, especificamente no jornalismo, penso que a IA é uma ótima ferramenta para permitir aos jornalistas dedicar mais tempo, na minha opinião, ao que será ainda mais relevante no futuro”, sublinha.
Ou seja, “a capacidade de analisar criticamente os factos, a capacidade de ser humano e atual e a capacidade de criar um vínculo ético com os seus leitores, algo que um algoritmo e uma máquina nunca serão capazes de fazer”, enfatiza o responsável da Google.
Nesse sentido, considera que “a oportunidade está em utilizar esta tecnologia com o propósito certo na produção de informação” e “posicionar o jornalismo da forma correta face aos muitos fenómenos, especialmente no público jovem da Geração Z, que dizem estar interessado em aprofundar a informação”, argumenta Riccardo Terzi. “Acho que, se juntar tudo isto, sim, tenho uma opinião positiva sobre como isto vai evoluir” no setor dos media.
Riccardo Terzi manifesta-se completamente contra a teoria especulativa de que a IA vai substituir o jornalismo. “Discordo completamente. Sou a favor da participação humana (human-in-the-loop), como costumamos dizer no mundo da tecnologia, e sou a favor do facto de as ferramentas e a tecnologia de IA conferirem aos humanos, e neste caso aos jornalistas, superpoderes para serem ainda mais fiscalizadores [‘watchdog’) do que antes”, prossegue.
A geração mais jovem “sente menos pertença às marcas de media tradicionais, mas talvez se sinta demasiado ligada aos jornalistas individualmente”, refere, apontando que “é como se os jornalistas se estivessem a tornar marcas em si mesmos”.
Por exemplo, “falo do fenómeno dos criadores” de conteúdos, “que estão muito próximos dos diferentes formatos, formatos multimodais, áudio e vídeo”. Nesse sentido, admite que os jornalistas devem provavelmente evoluir “do texto para formatos profundamente novos, começando pelo vídeo”.
E, provavelmente, “podem começar a considerar como construir a sua própria comunidade com as pessoas, como usar o tom de voz, como fazer investigações, como julgar a vida e os factos”, acrescenta.
No geral, “vejo o perfil do jornalista a evoluir como qualquer outro perfil profissional, mas de forma alguma a ser substituído pela tecnologia“, remata Riccardo Terzi.
Media estão em fase de readaptação e literacia é necessária
O futuro dos media, “nesta fase, é um futuro de readaptação, provavelmente da sua organização, do seu modelo de negócio, e espero que encontrem muito rapidamente a melhor forma de adotar esta nova tecnologia na sua operação e na criação da sua oferta”, afirma ainda o head of partnerships da Google para o sul da Europa.
Sobre o papel da tecnológica, diz que vê a Google “como 100% deste cenário”. A Google tem sido, “na minha opinião, claro, trabalho na Google há 13 anos, mas penso que é uma protagonista como OTT, uma plataforma tecnológica que implementou um forte sentido de ecossistema, na minha visão”, diz.
Por isso, “tudo o que fazemos, não só com os editores [publishers] e os media, mas também com os anunciantes e os utilizadores, dá muito sentido à forma como todo o ecossistema funciona em torno dos nossos produtos e serviços”, acrescenta Riccardo Terzi.
“Estamos em plena fase de transição porque estamos a assistir, provavelmente, à adoção de uma tecnologia que está a mudar a forma como os utilizadores procuram informação e, como deve imaginar, com o Google Search, procurar informação é a nossa missão”, refere o responsável.
Em primeiro lugar, “estamos a adaptar-nos à nova trajetória do utilizador, mas tenho 100% de certeza de que queremos continuar a ser ecossistémicos na nossa abordagem e os media fazem parte disso”.
Riccardo Terzi vê “um futuro onde a IA será um suporte para a nova proposta de valor e para a criação de conteúdos”.
A Google “precisa de encontrar, na minha opinião, três camadas de próximos passos” para a tecnológica e para a indústria da comunicação social.
A primeira delas “é um caminho de controlo e transparência“. Se, por exemplo, “considerarmos também a desinformação como um tópico, então, como acontece com todas as tecnologias poderosas, quanto mais impacto a tecnologia tiver, mais importante será que seja utilizada nas mãos certas“, aponta.
Caso contrário, “os danos que pode causar são maiores”, refere, enfatizando a constatação de que “existe um lado obscuro da IA na geração de conteúdos ou IA generativa que está a criar desinformação”, diz.
“Acredito que o nosso contributo para isto é pressionar por um padrão na indústria, pressionar por rotulagem, pressionar por marca de água“, salienta, referindo que não vê a Google ou a tecnologia a decidir o que é verdade ou não.
“Mas pelo menos dar ao utilizador a possibilidade de detetar o que foi gerado por IA ou não e deixar o utilizador escolher”, remata.
Fazê-lo sozinho “é impossível, por isso tem de ser feito de forma ecossistémica, precisa de ser feito com os media, provavelmente também com os anunciantes, e com os reguladores e instituições”, o que é “extremamente importante”, defende Riccardo Terzi.
Por outro lado, “vejo a Google a redesenhar provavelmente a experiência do produto, o que trará um reequilíbrio na transferência de valor para a indústria dos media e criará uma experiência virtual como o Search tem sido há 20 anos”.
Nesta transição, “penso que ainda precisamos de melhorar a forma como a nova versão do Search, a nova versão do modo IA, encontrará mais formas virtuais de criar valor para o conteúdo que alojamos e gerar valor para o fornecedor do conteúdo”.
Por último, “mas não menos importante, vejo um forte esforço conjunto novamente na literacia mediática que será necessário“, educando o utilizador e também os jornalistas para usarem a IA para verificar factos.
Portanto, “a literacia é ainda mais necessária, na minha opinião, para detetar facilmente a fonte do que estou a ler e como me estou a informar”, conclui.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Google: “Vejo o perfil do jornalista a evoluir, mas de forma alguma a ser substituído pela tecnologia”
{{ noCommentsLabel }}