Consórcio do PRR pôs carros a falar com semáforos, a carregarem em postes da luz e a preverem a vida das baterias

Os resultados das agendas mobilizadoras são apresentados esta quinta-feira. A agenda de mobilidade pôs carros a falar com semáforos, a carregarem em postes da luz e a preverem a vida das baterias.

ECO Fast
  • Os fundos europeus do Plano de Recuperação de Resiliência têm impulsionado inovações na mobilidade em Portugal, com a apresentação de resultados significativos esta quinta-feira.
  • O consórcio Route 25, liderado pela Capgemini, recebeu 35 milhões de euros e desenvolveu 58 projetos, superando as expectativas iniciais e garantindo a conclusão dentro dos prazos.
  • As soluções implementadas visam acelerar a adoção de tecnologias de mobilidade inteligente, mas dependem da evolução do quadro regulatório e da aceitação dos utilizadores.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Nos últimos três anos, os fundos europeus do Plano de Recuperação de Resiliência foram utilizados para desenvolver projetos em áreas muito distintas, entre elas, a mobilidade. Esta quinta-feira, são apresentados os resultados desse trabalho, que incluem tecnologias para prever a vida útil das baterias, para que os postes de iluminação pública sirvam para carregar o carro elétrico e para que os carros ‘falem’ com os semáforos, de forma a que, por exemplo, abram caminho para passar uma ambulância. A Capgemini, empresa que liderou o consórcio responsável pelos projetos na área da mobilidade, garante que estarão todos concluídos no prazo, e apresenta estas inovações mais em detalhe.

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Leonor Gonçalves/ECO

Quando a Comissão Europeia decidiu entregar alguns “cheques” a Portugal no âmbito do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR), com o objetivo de dar um impulso às economias europeias depois do choque da pandemia, foi necessário reparti-los. Uma parte relevante, 3,2 mil milhões de euros, chegaram à economia portuguesa através das chamadas agendas mobilizadoras – um total de 51 iniciativas. Estas são, no fundo, consórcios que juntam empresas, academia e entidades públicas para desenvolverem projetos, produtos e serviços em diferentes áreas.

Foi então através da Agenda Route 25, para a mobilidade autónoma, inteligente, interoperável e inclusiva, que chegaram alguns destes fundos à área da mobilidade. Mais concretamente, foram atribuídos 35 milhões a este consórcio, já depois de o conjunto das agendas sofrer uma reprogramação.

A execução técnica [da Route 25] está praticamente concluída e prevemos entregar integralmente o projeto dentro dos prazos estipulados”, garante Elisa Bacelo, gestora do Consórcio, Engagement Manager na Capgemini, acrescentando que os projetos estão a ser todos “concluídos com sucesso” e que ultrapassam o âmbito inicialmente previsto – os 47 PPS iniciais passaram a 58. Apesar de reconhecer algum desfasamento temporal entre a execução efetiva dos projetos e a execução financeira formalmente reportada, conta que estes dois indicadores se encontrem em breve, e atribui o desencontro a questões burocráticas que estarão em breve ultrapassadas.

O IAPMEI organiza esta quinta-feira o 3.º Encontro das Agendas Mobilizadoras do PRR no Europarque, em Santa Maria da Feira, reunindo empresas, entidades do sistema científico e tecnológico, e responsáveis institucionais.

“A execução técnica [da Route 25] está praticamente concluída e prevemos entregar integralmente o projeto dentro dos prazos estipulados.

Elisa Bacelo

Gestora do consórcio Route 25, Engagement Manager na Capgemini

Com a componente técnica praticamente concluída, a segunda metade deste ano será sobretudo dedicada à demonstração, promoção e divulgação pública dos resultados alcançados, assegurando que as soluções desenvolvidas no âmbito do Route 25 são amplamente conhecidas e criam as condições para acelerar a sua adoção pelo mercado e pelos diferentes territórios”, remata, ainda, a líder do consórcio.

Projetos chegam à vida real no curto prazo

A Capgemini indica que o ritmo de adoção dependerá de diversos fatores, nomeadamente da evolução do quadro regulatório, da disponibilidade de infraestruturas adequadas, da interoperabilidade entre sistemas e da aceitação por parte dos utilizadores, e até da maturidade dos municípios no que toca a adoção de cidades inteligentes.

Contudo, algumas das soluções desenvolvidas no âmbito do Route 25 já estão a ser integradas, sobretudo aquelas relacionadas com a conectividade, gestão inteligente da mobilidade, monitorização de infraestruturas e apoio à decisão. Em vários casos, estas tecnologias encontram-se já em fase utilização em contexto real. Outras, ainda se encontram em fases de desenvolvimento, validação ou otimização.

Sistemas de gestão inteligente de tráfego, introdução de plataformas digitais de mobilidade integrada e de ferramentas de manutenção preventiva das vias deverão ser os primeiros a surgir de forma invisível, mas eficaz nas nossas cidades já no curto prazo”, afirma Elisa Bacelo. Já a introdução de veículos de passageiros ou mercadorias com elevados graus de autonomia seguirá um ritmo progressivo, ditado pela validação de segurança e regulamentação nacional. Em 2025 já existiram várias demonstrações de larga escala nos municípios envolvidos, Aveiro/Ílhavo, Porto e Fundão.

“O contributo do Route 25 é precisamente acelerar esta transição, demonstrando a viabilidade tecnológica das soluções, reduzindo o risco associado à sua adoção e criando as bases para que a mobilidade autónoma, conectada e inteligente se torne, gradualmente, uma realidade no quotidiano em Portugal”, conclui a gestora.

Já em relação ao potencial como modelo de negócio, Bacelo não faz distinções, afirmando que há um potencial de negócio “relevante” associado a todos os PPS. Ainda assim, deixa o reparo: há necessidade de evolução do quadro regulatório, particularmente no domínio da mobilidade autónoma e conectada.

O Route 25 evoluiu a partir de três elementos chave: a eletrificação dos veículos, a Mobilidade Cooperativa, Conectada e Automatizada (CCAM) e os modelos de Mobilidade como Serviço (MaaS). Estes eixos foram trabalhados por um total de 29 parceiros, sob a coordenação da Capgemini. Abaixo, pode conhecer alguns dos 58 projetos desenvolvidos, que ilustram o trabalho desenvolvido nestes eixos.

 

Postes de iluminação que carregam veículos elétricos (PPS 7)

O quê?

A CEMUS – Compact Electrical Mobility Urban Solution é uma solução desenvolvida pela SmartLampPost, que consiste em converter postes de iluminação pública para que estes possam alojar vários serviços: vão permitir o carregamento de veículos elétricos, conectividade, segurança, monitorização ambiental, iluminação inteligente e serviços digitais. Pode haver uma conversão interior, exterior, ou mesmo substituição do poste.

Esta abordagem promove uma utilização mais eficiente do espaço público, reduz custos de instalação de novas infraestruturas e contribui para acelerar a transição para cidades mais inteligentes e sustentáveis.

Destinatários

O modelo de exploração desenvolvido dirige-se sobretudo a municípios e operadores de infraestruturas urbanas, permitindo rentabilizar ativos existentes através da instalação de múltiplos serviços tecnológicos.

Resultados

A tecnologia foi validada em ambiente operacional real. Existe um piloto instalado e demonstrado no Fundão, na Praça Amália Rodrigues, encontrando-se em fase final de ligação à rede elétrica de distribuição.

Perspetivas

Os resultados obtidos confirmaram o interesse do mercado, encontrando-se já em curso diferentes iniciativas piloto e processos de implementação com entidades interessadas na adoção”, indica o IAPMEI. A Capgemini adianta que o interesse de mercado confirma-se junto de quatro tipos de entidades: municípios portugueses (Câmaras Municipais), Operadores de Postos de Carregamento (OPC), Operadores de Redes de Telecomunicações, incluindo operadores de torres (TowerCo) e, finalmente, fundos de investimento especializados em infraestruturas. foram ainda identificados Os mercados europeus identificados como mais maduros e prioritários para internacionalização são a Bélgica, a França e o Reino Unido.

Inteligência artificial ao serviço do trânsito (PPS 28)

O quê?

Uma plataforma de gestão de tráfego assistida por Inteligência Artificial, capaz de apoiar autoridades públicas e gestores de infraestruturas rodoviárias na monitorização, previsão e otimização da circulação rodoviária em tempo real. A solução integra dados de sistemas como Waze, bem como de sensores inteligentes ou radares contadores e classificadores de veículos. Outro dos elementos diferenciadores do projeto reside na utilização de modelos preditivos que permitem antecipar a evolução do tráfego a curto prazo, incluindo previsões de volume e velocidade de circulação. Recorre ainda à análise de vídeo baseada em Inteligência Artificial para identificar situações como veículos imobilizados ou circulação em sentido contrário. O sistema incorpora igualmente funcionalidades de criação de rotas, capazes de sugerir percursos alternativos em situações de congestionamento. Distingue-se de tecnologias como Waze e Google Maps pela capacidade de comunicar com a infraestrutura, como os painéis de mensagem variável.

Destinatários

Agências governamentais, concessionárias de estradas, municípios e departamentos de mobilidade, companhias de logística e operadores de transporte.

Resultados

Desenvolvimento de uma plataforma de gestão inteligente de tráfego, concebida para processar dados em tempo real e gerar recomendações operacionais capazes de melhorar a fluidez da circulação rodoviária.

Perspetivas

Reforço contínuo dos modelos de Inteligência Artificial, expansão da integração com ecossistemas de mobilidade e evolução das capacidades preditivas da plataforma.

Os semáforos também falam (PPS 32)

O quê?

A Traffic Light Infrastructure and Vehicle Interaction é uma solução de comunicação entre infraestruturas rodoviárias e veículos, que contribui para uma gestão do tráfego mais eficiente. A solução integra tecnologia V2X (Vehicle-to-Everything) em infraestruturas semafóricas já existentes, permitindo a comunicação em tempo real entre veículos e sistemas de controlo de tráfego. Para isso, o veículo tem de estar equipado com um dispositivo próprio, e o “acesso” ao sistema é controlado: não é possível que um qualquer veículo possa comunicar livremente com os semáforos.

No entanto, passada a mensagem, o sistema pode interpretar a informação recebida e, quando aplicável, adaptar o funcionamento do semáforo. A título de exemplo, no caso de uma viatura de emergência, pode ser enviado um pedido de prioridade (luz verde nos semáforos) para facilitar a sua passagem de forma rápida e em segurança.

Destinatários

A solução apresenta um elevado potencial de aplicação em cidades inteligentes e sistemas avançados de mobilidade.

Resultados

Desenvolvimento de uma plataforma capaz de permitir a comunicação direta entre veículos e infraestruturas de tráfego, possibilitando a implementação de funcionalidades avançadas de mobilidade inteligente. A solução foi implementada e testada em cenário urbano real, envolvendo a colaboração da Porto Digital, da Soltráfego e do Regimento de Sapadores Bombeiros do Porto. “Os testes permitiram comprovar o correto funcionamento da comunicação V2X, a transmissão de pedidos de prioridade e a adaptação dos sistemas semafóricos em tempo real, demonstrando a viabilidade operacional da tecnologia em condições reais de circulação”

Perspetivas

Industrialização da tecnologia, expansão da solução a novos contextos urbanos e internacionalização . A mesma infraestrutura pode, no futuro, apoiar outros cenários relevantes para a segurança rodoviária, como a comunicação de trabalhos na via, incidentes, obstáculos, zonas de perigo ou outras situações que exijam maior atenção por parte dos condutores e dos sistemas de apoio à condução, acrescenta a Capgemini.

Até quando ‘vive’ uma bateria? (PPS40)

O quê?

O Predictive Maintenance Model: EV Battery Pack Degradation and Fault Prediction, baseado em Inteligência Artificial, é capaz de monitorizar o estado das baterias de veículos elétricos, prever a sua degradação e antecipar potenciais falhas antes de estas afetarem a operação dos veículos. A solução foi desenvolvida pela Stratio.

Resultados

Estimativa da degradação das baterias para frotas monitorizadas, a previsão da vida útil remanescente dos sistemas de armazenamento de energia e a criação de indicadores específicos para diagnóstico de falhas.

“Já tivemos casos de deteção de problemas resolvidos no âmbito das garantias, que de outra forma seriam milhares de euros em substituição de packs de baterias”, indica Elisa Bacelo. Em situações normais, a informação prestada ajuda os operadores a perceber melhor, com dados objetivos, a utilização que estão dar aos seus veículos elétricos, estendendo a vida útil dos mesmos. podemos indicar que será normal as baterias de um autocarro elétrico degradarem-se 2,5% a 3,0% ao ano, afirma a líder do consórcio.

Destinatários

Elevado potencial de aplicação no setor da mobilidade elétrica, particularmente junto de operadores de transporte público e entidades responsáveis pela gestão de grandes frotas de veículos elétricos.

Perspetivas

Expansão da solução a novos operadores de transporte, pela sua integração em projetos de eletrificação de frotas e pela internacionalização para mercados com forte investimento em mobilidade elétrica.

Rede privada 5G desenvolvida em Portugal reforça a mobilidade conectada (PPS47)

O quê?

Infraestrutura avançada de rede privada 5G orientada para cenários de mobilidade conectada. Cria as bases tecnológicas necessárias para suportar veículos conectados, infraestruturas inteligentes e novos serviços digitais associados à mobilidade do futuro, assegurando elevados níveis de desempenho e fiabilidade. “As redes 5G privadas desempenham um papel fundamental no desenvolvimento de soluções avançadas de mobilidade autónoma e inteligente, oferecendo um conjunto de características que dificilmente podem ser asseguradas, de forma consistente, pelas redes públicas generalistas”, explica Elisa Bacelo. É como ter uma “estrada exclusiva” para um conjunto específico de utilizadores ou aplicações.

Um carro pode receber avisos de perigo antes de o condutor ver o problema, o trânsito pode ser ajustado automaticamente para evitar congestionamentos e a infraestrutura pode ajudar a tornar a condução mais eficiente e segura. Este tipo de comunicação constante ajuda a que existam menos acidentes, a um melhor fluxo de trânsito e menos consumo de combustíveis e emissões poluentes. “Para que tudo isto funcione bem, é essencial ter uma ligação muito rápida, estável e segura. É por isso que soluções como as redes 5G privadas são tão importante”, remata a líder.

Resultados

Criação da denominada “5G Box”, permite disponibilizar capacidades avançadas de comunicação, processamento local suportado por inteligência artificial e gestão dinâmica dos recursos da rede. Foram feitas demonstrações práticas de comunicações em tempo real com base nesta rede, incluindo chamadas e transmissão de vídeo entre dispositivos móveis, comprovando a robustez e estabilidade da infraestrutura desenvolvida. A Capgemini Portugal, Instituto de Telecomunicações, a Vodafone Portugal e o VORTEX-CoLab estiveram ao leme desta iniciativa.

Destinatários

As aplicações são muito diversas. Na área da proteção civil, por exemplo, estas tecnologias podem suportar operações de emergência através da partilha de informação crítica em tempo real, coordenação entre equipas no terreno, utilização de veículos autónomos ou drones para reconhecimento de áreas afetadas e monitorização contínua de situações de risco. No domínio das infraestruturas críticas, como redes de energia, água, transportes ou telecomunicações, podem ser utilizadas para monitorização remota de ativos. No contexto da indústria avançada, estas soluções podem suportar ambientes altamente automatizados, potenciando a comunicação entre máquinas, exemplifica Elisa Bacelo.

Perspetivas

Evolução da “5G Box” para uma solução pré-comercial replicável, pelo reforço da interoperabilidade entre redes privadas e públicas e pela sua validação em ambientes operacionais de maior escala. Está igualmente prevista a participação em ecossistemas europeus de experimentação 5G e 6G, potenciando a internacionalização da tecnologia e a sua adoção em diferentes mercados.

Segurança em relação ao desempenho das redes 5G (PPS 48)

O quê?

Solução inovadora baseada em Inteligência Artificial capaz de prever, em tempo real, o comportamento de redes 5G utilizadas em ambientes de mobilidade conectada. A tecnologia foi desenvolvida para antecipar variações de desempenho da rede, contribuindo para comunicações mais fiáveis, eficientes e seguras entre veículos, infraestruturas e serviços digitais.

Resultados

Capacidade de prever variações de desempenho da rede antes de estas afetarem os utilizadores. Os resultados obtidos foram ainda divulgados e validados em conferências internacionais de referência, uma validação externa que, de acordo com o IAPMEI, reforça a credibilidade tecnológica da solução e demonstra a relevância internacional do trabalho desenvolvido, mas a aplicação atual da solução enquadra-se sobretudo em contexto de prototipagem, testes e demonstração.

Destinatários

Operadores de mobilidade, entidades gestoras de infraestruturas de transporte, municípios com iniciativas de cidades inteligentes e empresas tecnológicas envolvidas no desenvolvimento de ecossistemas de mobilidade conectada.

Perspetivas

Integração da solução em plataformas de mobilidade inteligente, pela sua utilização em novos ambientes de demonstração e pela expansão para diferentes contextos geográficos

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