Margem financeira e rentabilidade dos bancos encolhe no primeiro trimestre
A banca nacional entrou em 2026 a ganhar menos por cada empréstimo que concede, a gastar mais com salários e tecnologia, e a render menos 0,29 pontos percentuais aos acionistas do que há um ano.
- A rentabilidade da banca nacional recuou no primeiro trimestre, pressionada por uma margem financeira mais estreita e custos operacionais em alta.
- O lucro que os bancos deram por cada ativo que gerem (ROA) desceu para 1,27% e a rendibilidade dos capitais próprios (ROE) também recuou para 13,65%.
- Apesar da travagem, os bancos portugueses mantêm-se entre os mais rentáveis da Zona Euro.
Os bancos em Portugal continuaram a apresentar operações sólidas no início do ano, mas os números mais recentes do Banco de Portugal apontam para que o ciclo dourado de rentabilidade que marcou os últimos anos está a dar sinais de esgotamento.
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Pela primeira vez em vários trimestres, as instituições financeiras viram a sua capacidade de gerar retorno recuar em várias frentes ao mesmo tempo, e as razões não estão nos créditos malparados nem na deterioração da qualidade das carteiras de empréstimos, mas porque os bancos estão a receber menos pelos empréstimos que concedem e, ao mesmo tempo, continuam a pagar mais pelos depósitos que captam.
Segundo o relatório “Sistema Bancário Português: Desenvolvimentos Recentes”, publicado esta quinta-feira pelo banco central, a margem financeira da banca (diferença entre o que os bancos recebem em juros de empréstimos e o que pagam em juros de depósitos, e que é a principal fonte de receita do setor) encolheu nos primeiros três meses do ano.
“A redução da margem financeira resultou da diminuição dos juros recebidos de empréstimos a famílias e empresas, que mais do que compensou a diminuição dos juros pagos em depósitos de clientes”, destaca o Banco de Portugal. O resultado desta equação é uma compressão das margens que se reflete diretamente na rentabilidade dos bancos.
A rentabilidade do capital dos bancos desceu quase 1,5 pontos percentuais, com o ROE a fixar-se nos nos 13,65% no primeiro trimestre, ainda assim números muito positivos no contexto europeu.
A travagem da margem financeira não foi, contudo, o único fator a pesar na conta final. Os custos operacionais dos bancos aceleraram, com o rácio cost-to-income (que mede quanto os bancos gastam por cada euro que ganham) subiu para 44% no primeiro trimestre, um agravamento de 0,9 pontos percentuais face ao mesmo período do ano anterior.
Os salários foram os principais responsáveis pelo aumento, contribuindo com mais um ponto percentual para a subida deste rácio, seguidos de perto pelos gastos em tecnologia de informação, que pesaram mais 0,4 pontos percentuais, apontam os dados do Banco de Portugal.
Ainda assim, há uma leitura possível que não é puramente negativa: parte deste investimento em tecnologia reflete uma aposta dos bancos na modernização das suas operações, com impacto na eficiência a prazo, embora os resultados desse esforço ainda não sejam visíveis nos números.
O efeito combinado de menos receitas e mais custos traduziu-se numa quebra nos dois indicadores que os analistas e investidores mais acompanham para avaliar a saúde financeira de um banco:
- O ROA (return on assets) que mede quanto lucro os bancos geram por cada euro de ativos que gerem, desceu para 1,27%, menos 0,02 pontos percentuais do que no mesmo trimestre de 2025.
- O ROE (return on equity), que indica quanto os bancos estão a conseguir rentabilizar o capital dos seus acionistas, também recuou, para 13,65%, menos 0,29 pontos percentuais.
Em 2024, o ROE da banca nacional chegou a atingir 15,1%, o que significa que, em pouco mais de um ano, a rentabilidade do capital dos bancos desceu quase 1,5 pontos percentuais. Ainda assim, os números registados atualmente são muito positivos no contexto europeu.

Os bancos portugueses continuam entre os mais rentáveis da Zona Euro, a qualidade do crédito mantém-se sólida – com o malparado estável nos 2,1% – e o rácio de capital de nível 1 mantém-se nos 18%, bem acima dos mínimos regulatórios.
O que muda é a narrativa: durante anos, os bancos beneficiaram de um contexto excecional de taxas de juro elevadas que engordou as margens de forma quase automática. Esse vento está agora a perder força e gerir a rentabilidade vai exigir, daqui para a frente, muito mais do que esperar que o BCE faça o trabalho.
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