BCE procura em Sintra a receita para a Europa crescer mais (com a IA no topo da lista de ingredientes)
Christine Lagarde junta a elite financeira em Portugal durante três dias para traçar o rumo de uma economia estagnada. A inteligência artificial surge no topo da agenda para tentar fechar o fosso.
- O Banco Central Europeu inicia a 13.ª edição do seu Fórum anual em Sintra, reunindo líderes financeiros para discutir inovação e crescimento na Europa.
- A inteligência artificial, a imigração qualificada e a regulação bancária pós-crise estão entre os temas com maior peso científico na agenda da edição deste ano.
- A estreia de Kevin Warsh no fórum do BCE transforma o painel de governadores num momento raro de confronto entre as políticas monetárias dos dois lados do Atlântico.
Há 12 anos que Sintra se transforma, no final de junho, numa espécie de capital informal da política monetária mundial. Esta segunda-feira, o Banco Central Europeu (BCE) abre a 13.ª edição do seu Fórum anual, que decorre até quarta-feira e reúne os principais decisores dos bancos centrais, economistas e académicos em torno de um tema que vai muito além das taxas de juro: moldar o futuro da Europa pela inovação, crescimento e estabilidade.
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O tema não foi escolhido ao acaso. Chega num momento em que o relatório Draghi sobre a competitividade europeia continua a ecoar nos corredores das instituições europeias e em que a inteligência artificial (IA) redefine a fronteira entre o que se sabe e o que ainda não se consegue medir sobre o crescimento económico.
O evento arranca com a habitual sessão de abertura a cargo de Christine Lagarde, que chega a Sintra depois de o BCE ter subido as taxas de juro há poucas semanas, numa decisão que reacendeu o debate sobre o rumo da política monetária na Zona Euro, mas rapidamente entra no campo científico com quatro papers que prometem animar o debate.
- O primeiro trabalho académico em discussão é da autoria de Bart Van Ark, professor na Universidade de Manchester, que se debruça sobre a forma como a Europa pode conectar investimento, inovação e difusão tecnológica. As suas conclusões apontam para que mais de 80% da diferença de crescimento da produtividade entre a Zona Euro e os EUA reflete um desempenho mais fraco dentro das próprias indústrias europeias e não diferenças na estrutura económica, com o setor digital a explicar mais de um terço do diferencial.
- O segundo paper, de Mariassunta Giannetti, Cameron Ellis e Chotibhak Jotikasthira questiona se a complexidade regulatória é um custo necessário ou um peso sem contrapartida para a estabilidade financeira. Segundo os autores, a regulação pós-crise tornou-se mais eficaz precisamente por ser mais complexa, sendo isso visível pelas medidas que combinam rigor e complexidade que reduzem o risco sistémico em cerca de 25 pontos logarítmicos ao longo de dois anos, mas os autores destacam também que a complexidade sem rigor suficiente penaliza os bancos sem qualquer benefício para a estabilidade financeira, com os títulos bancários a apresentarem um desempenho abaixo do mercado em cerca de 17 pontos logarítmicos nesse cenário.
- A migração chega também à agenda de Sintra como tema de política económica. Giovanni Peri, professor na Universidade da Califórnia, apresenta na quarta-feira um estudo que analisa o impacto da imigração nos países da OCDE entre 1990 e 2024 e conclui que os fluxos migratórios de países não membros da OCDE estiveram associados a maior crescimento da produtividade laboral, do investimento e da produtividade total dos fatores, com os imigrantes qualificados a serem os principais motores desse efeito positivo, na medida em que estimulam a inovação e a criação de empresas. No caso de Espanha, por exemplo, onde a imigração cresceu 15 pontos percentuais da população adulta entre 1990 e 2024, os dados do estudo permitem associar esse fluxo a cerca de um terço do crescimento do PIB por trabalhador no período.
Debates sobre IA dominam fórum
A inteligência artificial atravessa toda a edição do fórum deste ano como linha condutora. No primeiro dia, um painel dedicado ao tema conta com Tobias Adrian, do Fundo Monetário Internacional, Sarah Breeden, vice-governadora do Banco de Inglaterra para a estabilidade financeira, e Torsten Slok, economista-chefe da Apollo Global Management, sob a moderação de Isabel Schnabel, do Conselho Executivo do BCE.
A tarde reserva uma conversa direta entre Aaron Chatterji, economista-chefe da OpenAI e professor em Duke, e Philip Lane, também do Conselho Executivo do BCE, num diálogo que ilustra bem a forma como as questões tecnológicas chegaram ao núcleo das preocupações dos bancos centrais.
No ano passado, o Fórum mostrou que Lagarde já elencava a IA como uma das suas principais preocupações, ao alertar para o risco de distorção da informação e da opinião pública que a tecnologia pode comportar.

Na quarta-feira, no último dia do fórum, o tema em destaque volta a ser o papel da Europa no novo mapa do comércio global, tema que ganhou uma dimensão renovada com a fragmentação das cadeias de valor e as tensões tarifárias que marcaram o último ano, bem como uma sessão sobre tokenização, com Hyun Song Shin, governador do Banco da Coreia, a apresentar as lições do Project Hangang sobre ledgers unificados.
Mas o momento mais aguardado do Fórum é o “Policy Panel”, o evento, que junta Lagarde, Andrew Bailey do Banco de Inglaterra e Tiff Macklem do Banco do Canadá a Kevin Warsh, presidente da Reserva Federal norte-americana (Fed).
É a primeira vez que Warsh, que tomou posse em substituição de Jerome Powell, cujo mandato terminou em maio, participa no fórum anual do BCE, numa estreia que os mercados acompanharão com atenção redobrada, tanto pelo que for dito como pelo que for omitido.
A presença de Warsh em Sintra não é apenas simbólica. No ano passado, Powell participou neste mesmo palco numa posição delicada, pressionado pelas críticas da administração Trump e pela incerteza que as tarifas colocavam sobre a trajetória da inflação americana, acabando por receber o apoio público dos seus homólogos europeus.
Agora, com um novo presidente na Fed e com os bancos centrais a navegar entre ciclos de política monetária divergentes, o painel final pode tornar-se o termómetro mais fidedigno do estado das relações entre os grandes blocos financeiros mundiais. Como acontece há mais de uma década, as palavras ditas nestes três dias em Sintra têm a capacidade de mover mercados, e este ano não será diferente.
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