Portugal ganhou 6 mil novos milionários no último ano. Betão continua a ser o ativo preferido
Portugal soma 181 mil milionários graças a um salto de 3,4% em 2025, que supera a média global de 1,5%. Porém, o UBS alerta para uma quebra preocupante da riqueza mediana da maioria dos portugueses.
- O número de milionários em Portugal atingiu a marca de 181 mil com um salto anual de 3,4%, mas a riqueza mediana da população sofreu uma forte queda real nos últimos cinco anos.
- Os grandes patrimónios nacionais destacam-se pela fraca aposta em ativos financeiros, que representam apenas 37% do total, com o betão a manter a preferência dos investidores.
- A riqueza mundial registou o maior avanço desde 2017 ao crescer 10,8%, contudo o banco UBS alerta para um agravamento da assimetria entre as fortunas de topo e a classe média.
O número de milionários continua a crescer a grande velocidade. Em Portugal, segundo dados do UBS, nunca houve tantas fortunas acima de 1 milhão de dólares como agora. Em 2025, o número de milionários chegou a 181 mil, mais 6 mil do que no ano anterior, quase o dobro dos 3,2 mil novos milionários ganhos em 2024. Trata-se de um crescimento de 3,4% destas fortunas que superou a média global de 1,5%, segundo dados do relatório Global Wealth Report do UBS de 2026, que analisa 56 mercados.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
Contudo, no mesmo período, a riqueza mediana por adulto em Portugal caiu 5,4% em termos reais, passando de 81.353 dólares em 2024 para 76.978 dólares em 2025. O relatório do banco suíço, publicado esta terça-feira, coloca Portugal na 26.ª posição no ranking da riqueza mediana por adulto nos 56 mercados analisados, salientando que essa riqueza caiu 4,4% nos últimos cinco anos em Portugal, quando ajustado à inflação e expresso em moeda local.
Em paralelo, a riqueza média por adulto ficou nos 195.761 dólares. A distância entre os dois indicadores — média e mediana — traduz a assimetria da distribuição da riqueza: os patrimónios mais elevados puxam a média para cima, enquanto a mediana reflete o que a maioria da população efetivamente detém.
Apenas 37% dos ativos brutos dos milionários em Portugal correspondem a ativos financeiros. O imobiliário e outros ativos não financeiros continuam a ser a base da riqueza dos milionários portugueses.
“As pessoas tendem a pensar na sua riqueza em termos relativos face à riqueza dos outros, e não em termos absolutos”, nota Paul Donovan, economista-chefe da UBS Global Wealth Management, sublinhando por que razão o crescimento agregado não corresponde necessariamente à perceção que as famílias têm da sua própria situação financeira.
Nota: Se está a aceder através das apps, carregue aqui para abrir o gráfico.
Com 2,1% dos adultos classificados como milionários em dólares, Portugal situa-se abaixo de França (4,9%), Espanha (2,7%) e de Itália (2,5%), mas acima da Grécia (1%), num grupo de países mediterrânicos onde a concentração de milionários fica ainda distante da média dos países de maior riqueza per capita da Europa Ocidental.
França lidera este grupo com quase 2,4 milhões de milionários, seguida de Espanha com mais de 1 milhão. Portugal segue a uma distância assinalável, com cerca de 181 mil milionários, assim como a Grécia (82 mil).
O UBS sublinha ainda que, ao contrário de Espanha, onde quase metade dos adultos tem ativos entre 100 mil e 1 milhão de dólares, em Portugal e na Grécia a maior fatia da população adulta concentra-se na faixa entre 10 mil e 100 mil dólares, o que aponta para uma pirâmide de riqueza menos desenvolvida nos escalões intermédios.
Betão continua a ser o ativo preferido dos portugueses
Um dos traços que distingue os milionários portugueses dos seus congéneres em outras geografias é a forma como alocam a sua riqueza. Segundo dados do UBS, apenas 37% dos ativos brutos dos milionários em Portugal correspondem a ativos financeiros, uma das proporções mais baixas entre os países analisados — em 2021 pesavam 35,4% nos portefólios.
Nos EUA, que concentra o maior número de milionários (23,6 milhões), os ativos financeiros representam 78,9% da riqueza bruta dos seus patrimónios. Na China e no Japão (os dois países que completam o pódio de países com mais milionários), o peso dos ativos financeiros no portefólio dos milionários ascende a 51,9% no caso da China e de 68,9% no Japão.
O UBS revela que a riqueza pessoal mundial cresceu 10,8% em 2025, o ritmo mais elevado desde 2017 e o terceiro ano consecutivo de expansão. Europa, Médio Oriente e África registaram o crescimento mais expressivo (17,5%).
Na Europa, a realidade não é muito distinta, com os milionários britânicos a concentrarem 55,9% do seu património em ativos financeiros, em Itália e França essa percentagem a ascender a 50,9% e 46,9%, respetivamente, e na Alemanha a fixar-se em 43,6%. Apenas os milionários gregos (36,1%) e espanhóis (31,4%) apresentam uma alocação em ativos financeiros mais baixa que Portugal.
O imobiliário e outros ativos não financeiros continuam a ser a base da riqueza dos milionários portugueses, o que, segundo o relatório, “pode limitar a participação nos ganhos impulsionados pelos mercados” financeiros.
O contexto global em que estes dados se inserem é de expansão sem precedentes recentes. O UBS revela que a riqueza pessoal mundial cresceu 10,8% em 2025, o ritmo mais elevado desde 2017 e o terceiro ano consecutivo de expansão, graças ao desempenho dos mercados financeiros e pela valorização dos ativos não financeiros.
Em Portugal, como na maioria dos 56 mercados analisados, a riqueza mediana contraiu-se enquanto a média subiu, revelando que os ganhos se concentraram no topo da distribuição.
A Europa, o Médio Oriente e África registaram o crescimento mais expressivo, com 17,5%, enquanto as Américas avançaram 8,5% e a Ásia-Pacífico 5,9%. “A riqueza global cresceu pelo terceiro ano consecutivo e a um ritmo notavelmente mais forte, com a riqueza média individual a aumentar a uma taxa muito superior ao crescimento económico global”, afirma Robert Karofsky, co-presidente da UBS Global Wealth Management, acrescentando que “a disciplina na gestão do património é mais importante do que nunca”.
Ainda assim, o relatório nota que o crescimento foi geograficamente desigual e não chegou de forma equitativa às diferentes camadas da população. Em Portugal, como na maioria dos 56 mercados analisados, a riqueza mediana contraiu-se enquanto a média subiu, revelando que os ganhos se concentraram no topo da distribuição.
“A riqueza global está a evoluir a um ritmo acelerado, cada vez mais moldada por condições económicas em mutação, pela mudança tecnológica e por novas fontes de oportunidade”, refere Iqbal Khan, co-presidente da UBS Global Wealth Management, alertando que “neste ambiente, ter os insights certos e um parceiro de confiança é essencial”.
O banco suíço nota ainda que parte do crescimento registado na Europa resulta da depreciação do dólar americano em 2025, que fez apreciar o euro em quase 9%, amplificando os valores quando expressos em dólares.
O relatório aponta que, no futuro, os resultados em termos de riqueza dependerão cada vez mais do acesso a ativos investíveis e da capacidade de diversificar. Para Portugal, onde o imobiliário continua a ser o principal repositório da riqueza das famílias, este aviso tem uma leitura direta: num contexto em que os mercados financeiros têm sido o principal motor da criação de riqueza, quem não tem exposição a esses mercados tende a ficar para trás, independentemente de o número de milionários continuar a crescer.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.