Imigrantes impulsionam economia e produtividade na OCDE
Os países desenvolvidos debatem-se com a falta de mão de obra e um estudo apresentado no Fórum do BCE mostra que a solução passa por políticas migratórias mais abertas para estimular o investimento.
- Um novo estudo apresentado no Fórum do Banco Central Europeu revela que a imigração é crucial para o crescimento e estabilidade económica na Europa.
- A investigação analisa a chegada de imigrantes a 38 países da OCDE entre 1990 e 2024, destacando que a maioria do crescimento populacional se deve à imigração de fora da OCDE.
- Os autores sugerem que políticas mais abertas à imigração podem aumentar a riqueza e a competitividade, essencial para enfrentar a escassez de mão de obra na Europa.
Numa altura em que o debate sobre a migração domina as agendas políticas europeias, um novo trabalho académico apresentado esta terça-feira no Fórum do Banco Central Europeu (BCE) vem desafiar várias conceções sobre a economia e os imigrantes.
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O estudo dos economistas Giovanni Peri e Mitali R. Mathur, da universidade americana UC Davis, e do economista Gaetano Basso, da Banca d’Italia, analisa o impacto económico da chegada de cidadãos estrangeiros a 38 países da OCDE entre 1990 e 2024 e conclui que a entrada de imigrantes representa um motor vital de crescimento e de estabilidade económica para as nações que enfrentam um grave envelhecimento demográfico.
O ponto de partida da investigação prende-se com uma transformação populacional profunda nas últimas três décadas, que é espelhada por uma quebra expressiva na população nativa em idade ativa nos países da OCDE nos últimos anos, passando de um crescimento positivo de 1,4% no início da década de 1990 para uma contração de 3,6% no período de 2020 a 2024.
A maior parte e, em muitos casos, a totalidade do crescimento populacional impulsionado pela imigração nos países de acolhimento da OCDE ficou a dever-se ao aumento da imigração proveniente de países não pertencentes à OCDE.
Apesar deste declínio orgânico, o número total de habitantes não sofreu uma queda semelhante graças ao fluxo contínuo de imigração, notam os investigadores.
Os dados mostram que este fenómeno de compensação foi impulsionado quase exclusivamente pela migração proveniente de nações fora da OCDE, nomeadamente da Europa de Leste, Ásia, África e América Latina.
Segundo os autores, “a maior parte e, em muitos casos, a totalidade do crescimento populacional impulsionado pela imigração nos países de acolhimento da OCDE ficou a dever-se ao aumento da imigração proveniente de países não pertencentes à OCDE”.
Ao contrário do que frequentemente se discute no espaço público, o perfil destes imigrantes tem um pendor fortemente qualificado. A investigação dos três economistas revela que cerca de metade da entrada líquida de trabalhadores estrangeiros nestas geografias entre 2000 e 2020 era composta por indivíduos com formação universitária, um rácio surpreendente tendo em conta que na maioria dos países da OCDE a proporção de nativos altamente qualificados está bem abaixo dos 50%.

Imigrantes qualificados são o motor da produtividade
O trabalho académico destaca ainda que “coeficientes positivos e muito significativos da imigração altamente qualificada impulsionam os coeficientes positivos, especialmente a longo prazo, ao passo que a imigração pouco qualificada é neutra” no que toca ao impacto nos investimentos e na produtividade.
Os investigadores notam que esta entrada de talento correlaciona-se positivamente com o aumento do PIB per capita a longo prazo, provando que a migração traz dinâmicas essenciais para o mercado de trabalho. O principal motor deste impulso económico gerado pelos imigrantes assenta no estímulo ao investimento de capital e à melhoria da produtividade total dos fatores.
A análise demonstra que taxas de migração mais elevadas preveem um aumento robusto na acumulação de capital e na eficiência económica. Em forte contraste, o declínio da natalidade e o estancamento demográfico das populações nativas não apresentam qualquer benefício semelhante para as contas nacionais, registando até uma correlação negativa com o crescimento do PIB per capita.
Isto traduz a ideia de que a dependência das economias face aos trabalhadores externos vai muito além do simples preenchimento de vagas, sendo uma peça basilar para manter a competitividade internacional.
A adoção de políticas mais abertas à entrada de imigrantes favorece ativamente a acumulação de riqueza, com os autores do paper a estimarem que um enquadramento mais flexível na regulação externa pode desencadear taxas de imigração superiores e sustentáveis.
No campo da estabilidade macroeconómica, o paper de Giovanni Peri, Mitali R. Mathur e Gaetano Basso afasta o receio de que a atual vaga de migração possa desestabilizar o custo de vida. A investigação cruzada ao longo de mais de 30 anos não encontra indícios de que a chegada de imigrantes gere pressões inflacionistas significativas nas economias recetoras.
Esta constatação indica que a integração destes cidadãos no tecido produtivo ocorre de forma equilibrada, impulsionando a oferta e a procura em proporções que não afetam negativamente a estabilidade de preços.
A mensagem do estudo para os responsáveis políticos sugere uma mudança de paradigma na forma como a Europa gere a migração a longo prazo. O documento defende que a adoção de políticas mais abertas à entrada de imigrantes favorece ativamente a acumulação de riqueza, estimando que um enquadramento mais flexível na regulação externa pode desencadear taxas de imigração superiores e sustentáveis, à semelhança do impacto de 1,2% a 2,4% na população observada na legislação de Espanha nos anos da década de 1990.
Face a um continente a braços com a escassez de mão de obra, os dados indicam que encarar a atração de cidadãos estrangeiros como uma vantagem estratégica é o caminho apoiado pela ciência económica para garantir a prosperidade europeia.
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