SCOR condenada a pagar 450 milhões à Covéa em guerra de resseguros
Chegou ao fim mais uma batalha entre gigantes francesas, a resseguradora SCOR terá de pagar 488 milhões de dólares à mutualista Covéa para resolver disputa sobre contratos de resseguros.
Um Tribunal Arbitral, administrado pelo Centro de Mediação e Arbitragem de Paris (CMAP), acaba de decidir na disputa sobre resseguros que envolveu a resseguradora SCOR e a mutualista Covéa relativa a dois tratados de retrocessão. O Tribunal manteve a validade dos tratados e ordenou que a SCOR pagasse 488,3 milhões de dólares à Covéa por violações, pelo ressegurador francês, das suas obrigações pré-contratuais e de divulgação contratual.
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Em junho de 2021, os dois grupos firmaram dois tratados de retrocessão pelos quais a resseguradora francesa cedeu à Covéa 30% do portfólio de vida e saúde detido pelas entidades irlandesas da SCOR. Esse negócio, que reforçou a exposição da seguradora mutualista ao resseguro de vida e significou uma trégua entre as duas empresas através deste acordo mediado pela autoridade francesa de supervisão (ACPR). Ainda colocou um fim aos processos judiciais existentes e estabeleceu um compromisso de não-agressão.
No entanto, as divergências sobre a valorização da carteira, o cumprimento de determinadas obrigações contratuais e os montantes financeiros devidos levaram a Covéa a instaurar um processo arbitral em 2022.
O tribunal arbitral decidiu agora que os contratos de retrocessão permanecem válidos, mas concluiu que a SCOR incumpriu determinadas obrigações contratuais. A decisão condenou a resseguradora ao pagamento de 488,3 milhões de dólares à Covéa. A SCOR afirmou que, devido a provisões previamente constituídas, o impacto líquido da decisão será de cerca de 50 milhões de euros, sem consequências relevantes para a sua solvência.
A Covéa é um dos maiores grupos seguradores da Europa e o maior operador francês nos ramos Não Vida, liderando os segmentos automóvel, habitação e responsabilidade civil. É também um dos poucos grandes grupos europeus com estrutura mutualista, sendo gerido em função dos interesses dos seus mutualistas e segurados.
Com sede em Paris, a Covéa resultou da união de três seguradoras mutualistas francesas – MAAF, MMA (Mutuelles du Mans Assurances) e GMF (Garantie Mutuelle des Fonctionnaires) – e emprega cerca de 25 mil pessoas. O grupo conta com mais de 11 milhões de clientes e mutualistas e desenvolve atividade nas áreas dos seguros, resseguros, gestão de ativos e assistência.
A dimensão financeira do grupo faz dele um dos potenciais consolidadores do mercado segurador europeu, beneficiando da capacidade de investir com uma perspetiva de longo prazo, sem a pressão dos mercados de capitais.
A Covéa registou, em 2025, 27,4 mil milhões de euros de prémios brutos adquiridos, depois de em 2024 ter alcançado 27,7 mil milhões de euros, o equivalente a um crescimento de 3,6% face a 2023.
Do total de prémios registados em 2025, 18,2 mil milhões de euros tiveram origem na atividade seguradora — dos quais 17,4 mil milhões em França e 700 milhões nos mercados internacionais — enquanto o resseguro representou 9,2 mil milhões de euros.
SCOR vs. Covéa: Uma disputa antiga
O maior passo estratégico da Covéa nos últimos anos foi a aquisição da resseguradora PartnerRe, com sede na Bermuda, concluída em 2022 por cerca de nove mil milhões de dólares, valor igual ao volume de prémios desta em 2025. A operação reforçou a presença internacional do grupo e transformou a Covéa num dos principais operadores mundiais no mercado do resseguro, uma atividade que passou a representar cerca de um terço do volume total de prémios.
Antes da aquisição da PartnerRe, a Covéa tentou crescer através da compra da SCOR. Em 2018, apresentou uma proposta de cerca de 8,2 mil milhões de euros para adquirir a resseguradora francesa, mas a oferta foi rejeitada. A administração da SCOR defendeu a independência do grupo, considerou que a proposta subavaliava a empresa e acusou Thierry Derez, CEO da Covéa, de utilizar informação confidencial obtida enquanto administrador da própria SCOR.
O conflito prolongou-se em vários processos judiciais em França e no Reino Unido. Em 2020, um tribunal francês concluiu que Thierry Derez tinha violado os deveres de confidencialidade e lealdade durante a preparação da oferta.
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