Big Four conquistam a advocacia, mas por caminhos diferentes

O que passaram a ter as Big Four em comum? A entrada no mercado da advocacia. PwC, Deloitte, EY e KPMG já têm firmas em Portugal, mas cada uma entrou no mercado de forma diferente.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Escolher

A corrida das consultoras Big Four à advocacia já terminou. PwC, Deloitte, EY e KPMG têm hoje sociedades de advogados em Portugal. O que está agora em causa já não é a entrada neste mercado, mas a forma como cada uma escolheu fazê-lo. Enquanto umas ganharam dimensão através de fusões, outras preferiram crescer de forma gradual ou construir equipas do zero. O resultado são modelos diferentes para disputar clientes num setor tradicionalmente dominado pelas grandes sociedades de advogados.

Embora todas tenham chegado ao mesmo destino — ter uma sociedade de advogados em Portugal —, os caminhos escolhidos foram bastante diferentes. Se por um lado, a Deloitte optou por fundir-se com outros escritórios, e a PwC por integrar uma sociedade de advogados associada há vários anos, a EY criou um escritório independente, tal como a KPMG.

Mas vamos por parte. Foi a PwC que deu o pontapé de saída entre as Big Four. Em 2018, nasceu a CCR Legal, criada pela advogada Cristina Cabral Ribeiro, associada à consultora em Portugal. Ou seja, durante vários anos, os serviços jurídicos da PwC Portugal eram prestados pela CCR Legal, que se assumia como uma sociedade autónoma mas integrada na rede internacional da PwC. Este modelo era semelhante ao que existia noutros países, que, por razões regulatórias e de independência, a consultora não podia prestar diretamente serviços de advocacia, recorrendo por isso a uma sociedade de advogados própria.

Em junho de 2024, a PwC decidiu apostar na integração total da CCR Legal, passando a operar sob a designação de PwC Legal. Uma estratégia possível após a entrada em vigor de um novo pacote legislativo que veio permitir o exercício da advocacia em associação com outras profissões e o desenvolvimento de ofertas multidisciplinares.

Francisco Espregueira Mendes, managing partner da Deloitte Legal Telles

A Deloitte seguiu um percurso diferente da PwC. Enquanto esta última já tinha uma sociedade de advogados associada há vários anos e optou por uma integração gradual da marca e da operação, a Deloitte entrou na advocacia através da integração de uma sociedade já estabelecida – primeiro a CTSU e depois a Telles.

Inicialmente, a Deloitte utilizava os serviços jurídicos da CTSU. Mas, em 2024, optou por outra estratégia e integrou o escritório, passando a operar sob a designação de Deloitte Legal. Um mudança que, na altura, afirmaram que permitiria “assegurar a prestação integrada de serviços profissionais em projetos conjuntos agrupando valências de diferentes especialistas em área cruciais em projetos com elevado grau de complexidade, de forma a encontrar soluções mais completas e alinhadas com as necessidades dos clientes”.

Cerca de um ano e meio depois, e numa nova jogada de mercado, fundiram-se com a Telles. Assim, desde de janeiro que operam sob a marca Deloitte Legal Telles, sendo liderada por Francisco Espregueira Mendes, que até então era managing partner da Telles. Ou seja, através da integração da Telles, passou de uma estrutura relativamente pequena para uma sociedade com cerca de 220 advogados, entre Lisboa e o Porto.

O que diferencia a estratégia da PwC da Deloitte? A PwC não fez uma aquisição nem uma fusão de grande dimensão, como aconteceu com a Deloitte. Ao invés, criou uma sociedade integrada na sua rede internacional, desenvolveu-a ao longo do tempo e depois acabou por integrá-la na marca PwC.

João Nóbrega e Pedro Fugas, partners da EY LawHugo Amaral/ECO

Apesar de ter um percurso inicial parecido com a PwC, a EY acabou por tomar outro rumo. Desde 2016 que a RRP Advogados, uma sociedade de advogados independente, fazia parte da rede de escritórios jurídicos da EY e prestava os serviços jurídicos associados à consultora. Ou seja, tal como acontecia com a CCR Legal na PwC, respeitando as regras da Ordem dos Advogados em vigor na altura.

Mas em julho de 2024, a RRP anunciou a sua integração na PLMJ, um dos maiores escritórios de advogados em Portugal, o que levou a EY a recalcular a sua rota e a apostar numa sociedade independente. Assim, em novembro de 2024, nasceu a EY Law, integrada na rede internacional EY Global Law que está presente em mais de 90 países e com cerca de 3.400 advogados. A liderança está cargo de João Ricardo Nóbrega.

Segundo a EY, o objetivo é oferecer uma abordagem multidisciplinar, combinando serviços jurídicos com as restantes valências da consultora, mas mantendo a independência. “A criação da EY Law em Portugal foi uma decisão estratégica inserida numa visão global de expansão dos serviços da EY e é fruto de um processo de amadurecimento, espoletado por vários circunstancialismos e assente na determinação de criar uma estratégia para o universo jurídico da EY em Portugal”, explicou na altura o managing partner à Advocatus.

Talk Advocatus "O futuro das sociedades multidisciplinares" - 23JUN23
Luís Magalhães, partner KPMGHugo Amaral/ECO

Por fim, e a mais recente Big Four a apostar nos serviços jurídicos foi a KPMG, que preferiu seguir um percurso mais discreto. Após a fusão da Deloitte Legal com a Telles, a Advocatus já tinha avançado que a KPMG andava a fazer diversos contactos junto de alguns dos sócios dos maiores escritórios nacionais do mercado como a Morais Leitão, a PLMJ e a Vieira de Almeida. A estratégia passava por contratar sócios hot shot de vários escritórios – não só de Lisboa, mas também do Porto – e não assinar uma integração total com um escritório de advogados, como a concorrência.

E este mês passou a ser oficial: chegou ao mercado a KPMG Law, uma sociedade de advogados que tem sete sócios (quatro partners e três associate partners), cerca de 40 advogados e é liderada por Luís Magalhães, atual líder da divisão de fiscalidade e que passa a ser o head of tax & legal. “Hoje vamos concretizar uma das grandes ambições da nossa partnership com a apresentação pública da KPMG Law, uma nova sociedade de advogados, integrada na Rede KPMG, e que estou certo não só marcará a diferença face à concorrência”, escreveu o presidente da KPMG Vítor Ribeirinho num email enviado aos colaboradores.

Assim, a KPMG foi a última das Big Four a entrar formalmente na advocacia em Portugal. Ao contrário da Deloitte, a KPMG não se fundiu com uma sociedade já existente, nem evoluiu, como a PwC, de uma sociedade já associada. Preferiu criar uma sociedade nova, recrutar sócios experientes e construir uma equipa de raiz.

A reforma das ordens profissionais, aprovada em 2023, abriu caminho à constituição de sociedades multidisciplinares de profissionais, permitindo que profissões organizadas em associações públicas profissionais possam ser exercidas em conjunto com outras profissões, desde que sejam respeitados os regimes de incompatibilidades, impedimentos, conflitos de interesses, independência técnica, deveres deontológicos, proteção de informação dos clientes e sigilo profissional.

No caso da advocacia, a alteração ao Estatuto da Ordem dos Advogados aprovada em 2024 passou a prever expressamente que os advogados podem constituir ou ingressar como sócios ou associados em sociedades profissionais de advogados ou em sociedades multidisciplinares. É este enquadramento que permite às grandes consultoras reorganizarem a sua oferta em Portugal em torno de modelos integrados de auditoria, fiscalidade, consultoria, tecnologia, risco, sustentabilidade e serviços jurídicos.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

Big Four conquistam a advocacia, mas por caminhos diferentes

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião