Lagarde e Warsh unidos, em Sintra, no combate à inflação e às orientações para o futuro

Fórum anual do BCE em Sintra foi palco de estreia internacional de novo presidente da Fed. Com Lagarde, defendeu o combate à inflação e as decisões reunião a reunião.

A Presidente do BCE, Christine Lagarde e Kevin Warsh, presidente da Reserva Federal, no Fórum do BCE sobre bancos centrais, a 29 de junho de 2026, em Sintra.European Central Bank 2026

Ao longo dos últimos três dias, banqueiros centrais, economistas, analistas e jornalistas rumaram até Sintra para debater os principais desafios da política monetária, inovação e crescimento económico. Mas se o tradicional fórum anual do Banco Central Europeu (BCE) tem como rosto principal Christine Lagarde, acabou por ser o seu homólogo americano, Kevin Warsh, a roubar as atenções, ou não fosse esta a primeira aparição do sucessor de Jerome Powell num evento internacional.

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Porém, para que não restassem dúvidas, houve declarações de simpatia e pontos de união. “Se já gostava dela desde que a conheci quando era ministra das Finanças há 20 anos, depois desta afirmação adoro-a“, atirou o presidente da Reserva Federal (Fed) norte-americana sobre a presidente do BCE.

Em causa estava uma declaração proferida por Christine Lagarde minutos antes, na qual confessava que o maior” arrependimento foi ter-se sentido “vinculada” ao forward guidance, utilizado para orientações aos mercados sobre decisões futuras do banco central. O mote de discussão lançado pela moderadora do painel de governadores, na última sessão do Fórum, onde participaram também Andrew Bailey, governador do Banco de Inglaterra, e Tiff Macklem, governador do Banco do Canadá, permitiu a união em torno da rejeição do instrumento de comunicação até recentemente utilizado pelos bancos centrais.

A minha opinião é que os mercados financeiros e a economia real funcionam melhor quando as pessoas observam o que está a acontecer na economia e tiram as suas próprias conclusões.

Kevin Warsh

Presidente da Fed

A primeira aparição pública de Kevin Warsh, aquando da última reunião da Fed, ficou marcada pelo anúncio de que a comunicação do banco central iria reduzir-se, deixando cair o forward guidance — à semelhança do BCE, que utiliza agora o que Lagarde denomina de “orientação de enquadramento”. E no Fórum, o sucessor de Powell não quebrou a promessa.

Não vou fazer forward guidance”, garantiu, defendendo a aplicação da regra também às perspetivas para a economia, tema tradicionalmente abordado pela Fed. “A minha opinião é que os mercados financeiros e a economia real funcionam melhor quando as pessoas observam o que está a acontecer na economia e tiram as suas próprias conclusões“, acrescentou.

Os restantes banqueiros centrais presentes no painel partilharam a ideia do responsável americano de que demasiadas declarações sobre a evolução futura das taxas de juro pode não ser o caminho apropriado. Para, Warsh esta poderá mesmo ser uma nova tendência global de regresso aos “princípios fundamentais” da política monetária, expressão semelhante usada à da presidente do BCE no jantar de boas-vindas do Fórum na segunda-feira: “Criou-se espaço para que a política monetária regresse ao essencial”.

Tiff Macklem, governador do Banco do Canadá, Christine Lagarde, presidente do BCE, e Kevin Warsh, presidente da Fed, no Fórum BCE em SintraEuropean Central Bank 2026 1 de julho, 2027

Os quatro responsáveis fecharam-se quase em copas sobre as futuras decisões (estando apenas garantido que não haverá cortes das taxas), sublinhando a importância das decisões reunião a reunião. No entanto, há garantias que estão dadas e o combate à inflação é uma delas. “Se alguém pensava que este banco central [Fed] se sentiria confortável com um objetivo de inflação acima de 2%, ficará desiludido”, disse Kevin Warsh.

Também Christine Lagarde assegurou que o banco central tomará as medidas necessárias para garantir o controlo da inflação. “Não vamos permitir que a inflação saia do controlo ou que o génio saia da lâmpada, fazendo a inflação disparar”, acrescentou.

Numa altura em que governadores em que o otimismo de governadores dos bancos centrais da Zona Euro continua contido, a presidente do BCE considerou que “os riscos em torno da inflação, em alta, e do crescimento, em baixa, estão hoje mais equilibrados do que estavam há apenas algumas semanas, em resultado da rapidez com que os acontecimentos evoluem”. Como exemplo apontou a velocidade com que o preço do petróleo caiu para cerca de 72 dólares por barril, depois de ter atingido 120 dólares em março.

Os riscos em torno da inflação, em alta, e do crescimento, em baixa, estão hoje mais equilibrados do que estavam há apenas algumas semanas, em resultado da rapidez com que os acontecimentos evoluem.

Christine Lagarde

Presidente do BCE

A inflação na Zona Euro desacelerou no mês passado mais do que o esperado, reduzindo a pressão sobre o BCE para subir novamente os juros na reunião deste mês, apesar de continuar a situar-se acima da meta dos 2%. De acordo com dados do Eurostat, divulgados esta quarta-feira, o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor (IHPC) abrandou para 2,8% em junho, face aos 3,2% registados em maio, refletindo uma desaceleração da inflação dos alimentos, da energia e dos serviços.

Já a inflação core, que exclui os preços mais voláteis dos alimentos e da energia, também desacelerou para 2,4%, face aos 2,6% de maio, uma vez que a inflação dos serviços recuou de 3,5% para 3,2%.

Ao longo dos três dias de fórum, à margem do evento, governadores dos bancos centrais da Alemanha, Áustria, Bélgica, Malta, bem como o economista-chefe do BCE destacaram a queda dos preços da energia, mas avisaram que os custos deverão continuar elevados.

Lá dentro, o debate centrou-se em larga medida no impacto da Inteligência Artificial (IA) na produtividade, bem como nos desafios associados ao seu crescimento, e nas estratégicas para potenciar a inovação e competitividade europeia.

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