Consumo de eletricidade aumenta, mas calor extremo não deverá causar apagões
Apagão do calor extremo? Só se for dos 'pequenos'. Apagões pelo calor são improváveis. Só se forem dos pequenos
O Governo declarou oficialmente “situação de alerta em todo o território continental” de Portugal, a partir desta sexta-feira e até segunda-feira, devido à onda de calor que está a assolar vários países da Europa.
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O calor extremo já causou danos à rede elétrica no estrangeiro: em França, dezenas de milhares de pessoas ficaram sem luz durante um dia. Em Portugal, os especialistas do setor não esperam que ocorra um apagão generalizado como aquele que deixou a Península Ibérica às escuras no ano passado. Já em relação a eventos localizados, é reconhecido que existe essa possibilidade mas, ainda assim, surgem ressalvas de que Portugal está mais habituado a lidar com temperaturas elevadas que os países mais a norte na Europa, pelo que não se esperam “incidentes relevantes”. A E-Redes indica já ter ativado o estado de alerta.
“Um apagão nacional causado pela procura não é o cenário esperado, ainda que incidentes localizados nunca possam ser totalmente excluídos“, afirma Pedro Amaral Jorge, presidente do OMIE e OMIP, as plataformas de negociação de eletricidade nos mercados à vista e a prazo na Península Ibérica. Historicamente, indica, os episódios de calor têm provocado falhas mais localizadas e não apagões globais da rede nacional, sendo o risco maior quando a pressão sobre a rede aumenta e em zonas com infraestruturas mais antigas. Em França, uma avaria num transformador associada às temperaturas elevadas deixou dezenas de milhares de habitações quase um dia sem eletricidade durante a recente onda de calor.
No mesmo sentido, António Vidigal, ex-CEO da EDP Inovação e agora consultor na área Energia, é perentório: não existe o risco de ocorrer um apagão geral por falta de produção. Neste campo, “Portugal está seguro”, afirma. Ressalva, contudo, que o calor extremo pode provocar a destruição de equipamentos físicos, invocando também o incidente em Finistère, em França. “O risco no verão é o stress térmico dos materiais (cabos e transformadores) e os incêndios florestais perto das linhas, e não a falta de energia no sistema“, indica, para depois concluir: “acredito que não vão acontecer incidentes relevantes”. Portugal está mais preparado para lidar com elevadas temperaturas do que França, avalia.
Na ótica de Nuno Pais Figueiredo, porta-voz da Deco Proteste, “a situação é gerível e não é expectável a ocorrência de apagão”, isto porque o sistema elétrico encontra-se dimensionado para suportar os grandes picos de consumo registados no inverno, pelo que a rede encontra-se preparada para acomodar as necessidades de consumo que se possam verificar durante a onda de calor.
A REN – Redes Energéticas Nacionais, operadora do sistema elétrico, também passa uma mensagem de normalidade, quando questionada sobre o risco de apagão: “Tendo em conta a disponibilidade atual e prevista de produção no Sistema Elétrico Nacional, e as programações em mercado (mercados diários e intradiários), não se vislumbra qualquer cenário de risco de abastecimento de consumos“, afirma.
Não se vislumbra qualquer cenário de risco de abastecimento de consumos.
Questionada, a E-Redes preferiu não comentar diretamente o risco de apagão. Limitou-se a informar que, tendo em conta o agravamento das condições meteorológicas, esta empresa já ativou o estado de alerta do seu Plano de Atuação Operacional em Crise, e tem as suas equipas mobilizadas caso se verifique necessidade de intervir. “A rede de distribuição está a ser monitorizada continuamente, registando-se até ao momento um estado normal de funcionamento”, indicou a gestora das redes de baixa tensão, esta quinta-feira.
Os operadores de rede e gestores dos sistemas elétricos de Portugal e Espanha, REN e Red Elétrica, tomaram medidas preventivas para minimizar o risco de apagões neste verão devido ao potencial incremento de consumo elétrico resultante da utilização do ar condicionado, e sublinharam que as ondas calor estão contempladas nas suas previsões, indica o presidente do OMIP.
Amaral Jorge frisa ainda que o risco de apagão que decorre do aumento do consumo causado por calor e temperaturas elevadas, enquadra-se numa “categoria distinta” dos motivos que provocaram o apagão ibérico. O apagão de abril de 2025 não esteve relacionado com um excesso de consumo, tendo ocorrido num dia de primavera com procura bem abaixo dos máximos históricos e tendo tido origem em problemas de estabilidade e operação do sistema.
Desde então, também foram tomadas algumas medidas que pretendem prevenir e melhor gerir um apagão como o de abril de 2025, das quais Pedro Amaral Jorge destaca a duplicação das centrais de arranque autónomo (blackstart), um compensador síncrono para regulação de tensão e inércia, e um leilão de 750 megavolt-ampere (MVA) de armazenamento em baterias.
Numa lógica de prevenção, Amaral Jorge defende uma aposta na modernização e reforço da rede, na monitorização térmica e, por fim, através da gestão da procura, com a moderação do consumo dos grandes consumidores nas horas de ponta, o armazenamento e a estreita coordenação entre os operadores de sistema de ambos os lados da fronteira, a REN e a REE.
Consumo sobe na ordem dos 5%
Com base em valores provisórios, a REN indica que o consumo na quinta-feira, e de julho, sofreu uma subida de cerca de 5% face ao consumo da terça-feira, 30 de junho. Já o aumento do consumo previsto para sexta-feira, 3 de julho, é de cerca de 7%, novamente face a terça-feira, e de acordo com dados não definitivos.
Em Portugal, a janela crítica para o consumo é o início da noite. Em cidades especialmente afetadas pelo calor, como Madrid, Sevilha ou Valência, o consumo médio de um agregado familiar pode passar de cerca de 9 quilowatts-hora (kWh) por dia para 15 a 18 kWh por dia, nos dias mais quentes, indica o presidente do OMIP e OMIE.
“A temperatura é uma das principais variáveis que determinam o consumo”, explica Pedro Amaral Jorge. Num episódio de onda calor prolongada, continua, a procura nas horas de maior solicitação pode situar-se na ordem dos 10% a 15% acima do valor sazonal de referência, sobretudo por via da climatização de refrigeração.
A Deco Proteste, contudo, sublinha que “a grande maioria das casas não dispõe de instalação de aparelhos de ar condicionado”. Por esse motivo, conta que o consumo doméstico “suba apenas ligeiramente” durante a onda de calor, comparativamente com períodos semelhantes. Nuno Pais Figueiredo indica que, em Portugal, os consumos de energia doméstica são, em regra, mais elevados na estação de aquecimento do que na de arrefecimento. Nos períodos de maior frio, maiores consumos devem-se à “utilização massiva” de aparelhos de aquecimento com custo de compra acessível, como os aquecedores portáteis, “que a longo prazo se revelam ineficientes e com consumos de energia bastante elevados”.
Ainda assim, a subida do consumo nos meses de verão está a tornar-se uma mudança estrutural, na ótica do OMIP. Apesar de haver diferenças, os picos de verão associados ao ar condicionado começam “a rivalizar com os picos de inverno”, afirma o líder da entidade responsável pelo mercado ibérico.
Eficiência dos equipamentos cai
“Quanto ao risco físico para as infraestruturas, este provém da meteorologia (e de fatores associados, como o risco de incêndio) e não de uma sobrecarga de consumos“, sublinha Nuno Pais Figueiredo.
De acordo com o OMIP, o calor extremo reduz a eficiência e as margens dos equipamentos, uma vez que as linhas aéreas e os transformadores têm limites térmicos e as centrais térmicas e nucleares podem sofrer restrições de arrefecimento.
A Deco Proteste atesta que as temperaturas extremas podem afetar a eficiência dos painéis solares, fazendo com que a produção efetiva possa ser mais reduzida face ao seu potencial de produção. Quanto à energia eólica, as ondas de calor coincidem frequentemente com massas de ar estagnadas, o que, caso se verifique, se traduzirá em menos vento disponível para a geração de eletricidade.
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