Espaço contribuiu com 1,2 mil milhões para o PIB nacional em seis anos
Há mais de 150 empresas em Portugal que atuam no setor do Espaço, gerando mais de 4 mil postos de trabalho entre 2019 e 2024, aponta estudo da Novaspace para a Agência Espacial Portuguesa.
O setor espacial gerou 2,4 mil milhões de euros para a economia nacional, tendo tido um contributo de 1,2 mil milhões de euros para o Produto Interno Bruto (PIB), registado uma média de 4.500 postos de trabalho por ano e entregue uma média de 290 milhões de euros em receita fiscal para o Estado entre 2019 e 2024, aponta o “Estudo Socioeconómico do setor do Espaço em Portugal”, produzido pela Novaspace, para a Agência Espacial Portuguesa.
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“As receitas e atividades de mais de 156 empresas e instituições produziram mais de 1,1 mil milhões de euros em produção económica direta. Por sua vez, esta produção direta gerou 559 milhões de euros em VAB direto (ou seja, excluindo o consumo intermédio) e apoiou cerca de 2.162 empregos diretos por ano (incluindo a tempo inteiro, a tempo parcial e sazonal)”, pode ler-se no estudo que analisou o impacto económico do setor espacial em Portugal entre 2019 e 2024, divulgado esta semana. Em seis anos, o setor representou cerca de 0,1% do PIB nacional.

O estudo que analisa o impacto do setor desde a adoção da Estratégia Portugal Space 2030 (em 2018) e a criação da Agência Espacial Portuguesa (2019) e o ano de 2024, aponta ainda que a produção de produtos e serviços espaciais gerou 729 milhões de euros em produção indireta através da cadeia de abastecimento, valor a que soma 350 milhões de euros em VAB indireto e criando mais cerca de 1350 empregos por ano.
“Os salários auferidos pelos trabalhadores diretos e indiretos voltaram a circular na economia nacional, gerando mais 548 milhões de euros em produção induzida, 305 milhões de euros em VAB induzido e apoiando aproximadamente 935 postos de trabalho por ano”, destaca ainda a análise.
Feitas as contas, o estudo aponta que por cada euro diretamente acrescentado ao PIB pelas atividades espaciais, são gerados mais 1,17 euros através das cadeias de abastecimento e das despesas das famílias.
Empresas e criação de emprego
O investimento público no setor tem vindo a aumentar desde o lançamento da Estratégia Espacial Portuguesa em 2018 e a criação da Agência Espacial Portuguesa no ano seguinte. “Anteriormente relativamente estável, o financiamento aumentou de 55 milhões de euros em 2018 para 135 milhões de euros em 2024 (sem considerar o financiamento relacionado com a defesa), refletindo os esforços da Agência para implementar a estratégia nacional e apoiar iniciativas fundamentais”, refere o estudo. Uma subida que representa uma taxa de crescimento anual composta de 12,2 % entre 2014-2024.

A Agência Espacial Europeia (ESA) representa a maior parte das contribuições de Portugal — cerca de 70% —, com os contributos do Estado português para a organização a aumentar ao longo dos anos, o que se tem traduzido num maior geo-retorno do investimento para o país.
“No início de 2025, Portugal alcançou um geo-retorno industrial de 102%, confirmando não só a eficácia das suas subscrições à ESA, mas também a maturidade e competitividade da sua indústria espacial”, refere o estudo. Entre 2019 e 2025, as empresas portuguesas garantiram mais de 110 milhões de euros em contratos industriais, “refletindo a crescente capacidade do setor para captar trabalho avançado em todos os programas da ESA”.
A criação de empresas com foco no espaço ganhou impulso com a adesão de Portugal à ESA, em 2000, quando grupos internacionais, como a Deimos Engenheria, e nacionais, como a Critical Software, Tekever, Spin.Works, Lusospace, Omnidea e Active Space Technologies, entraram no mercado espacial português, destaca o estudo.

De 2000 a 2018, o setor expandiu-se a um ritmo constante de cerca de 1,9 novas empresas por ano, “refletindo um crescimento incremental mas consistente”, mas com a criação da Agência Espacial Portuguesa e a adesão à ESA o número de empresa registou um maior impulso.
“Entre 2018 e 2025, a taxa média de criação de novas empresas mais do que duplicou para 4,8 empresas por ano, sublinhando como a orientação estratégica e o apoio institucional aceleraram a diversificação e o dinamismo da indústria espacial portuguesa”, aponta a análise da Novaspace.
Em 2024, o setor já reunia mais de 150 entidades, das quais mais de 80 eram empresas ativas, com Lisboa, Coimbra e a região do Porto como principais polos de atividade. O tecido da indústria espacial portuguesa é composto maioritariamente por PME e nenhuma ultrapassa os 200 trabalhadores, refere o estudo. Uma larga maioria das empresas (79%) está listada como tendo entre um e, no máximo, 20 empregados.

As receitas globais das empresas do setor no período em análise também registaram um aumento constante. Mas os números revelam um padrão: uma pequena minoria de empresas é responsável pelo maior bolo de receitas. “Neste caso, 76% das receitas são produzidas apenas pelos 14 principais stakeholders. No outro extremo da escala, 14 das empresas listadas não registaram receitas relacionadas com o espaço em 2024″, aponta o estudo.

Portugal: vantagens e desafios
O estudo também analisou vários países — República Checa, Espanha, Suécia, Grécia e Nova Zelândia — sendo que da análise comparativa emergiram vários pontos favoráveis para Portugal.
O país “tem uma capacidade de lançamento crescente, uma vez que o Consórcio Espacial dos Açores (ASC) obteve uma licença para operar o porto espacial de Santa Maria, colocando o país entre os poucos na Europa capazes de oferecer serviços de lançamento orbital”, refere o estudo. Portugal é o “único país europeu posicionado para apoiar missões de regresso à Terra, tendo a ESA selecionado Santa Maria como local de aterragem para o voo inaugural do Space Rider, afirmando o papel dos Açores como centro europeu de acesso e regresso do espaço”.
Tem ainda uma “lei espacial estabelecida, que está bem preparada para lidar com o aumento esperado de pedidos de licenciamento e provavelmente exigirá relativamente poucos ajustes, se é que algum, para se alinhar com o futuro Ato Espacial da UE”, destaca o estudo, que refere ainda o tema do talento.
Portugal dispõe de uma “forte oferta de engenheiros aeroespaciais altamente qualificados, continuando a tendência para o crescimento futuro deste setor à medida que mais universidades abrem cursos e programas relacionados com o espaço”.

Mas o tema do talento e, em particular, o da sua fixação é também um dos pontos fracos do país. “Os profissionais com formação deixam muitas vezes o país devido a perspetivas de emprego insuficientes, à falta de conhecimento das opções disponíveis e às diferenças salariais entre este e outros atores espaciais”, alerta.
Faltam operadores industriais âncora; há dificuldades em aceder a financiamento privado de fontes nacionais ou internacionais — “embora exista atualmente financiamento de capital de risco suficiente no mercado português, estes não estão a identificar suficientes candidatos viáveis para os seus investimentos” —; há um orçamento nacional limitado, o que “dificulta a sua capacidade de participar significativamente em projetos internacionais no âmbito da ESA ou de fornecer grandes contratos à sua indústria para ajudar a estimular o seu crescimento e evolução”.
“Num contexto, em constante evolução, há ainda trabalho a fazer, nomeadamente para estimular um maior investimento privado e o interesse pelo setor. Países como a Nova Zelândia e a Suécia podem ser vistos como exemplos fundamentais, tendo ambos tirado o máximo partido das suas localizações geográficas únicas e das suas capacidades de lançamento para se colocarem no mapa espacial, enquanto a Espanha mostra o poder de fazer do espaço uma prioridade governamental transversal”, conclui o estudo.
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