Universidade de Aveiro lança CubeSat em cortiça e novo laboratório para testar satélites e drones

  • Tiago Martins d'Oliveira
  • 3 Julho 2026

A Universidade de Aveiro lançou um novo laboratório aeroespacial para testar satélites e drones e a instituição de ensino admite colocá-lo ao serviço das empresas do setor aeroespacial português.

A Universidade de Aveiro (UA) acaba de lançar um novo laboratório de experimentação aeroespacial e um satélite CubeSat feito em cortiça, numa aposta que cruza investigação, ensino e desenvolvimento de tecnologias com potencial de aplicação na indústria espacial e dos drones. O projeto foi financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

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O investimento foi financiado pelo Plano de Recuperação e Resiliência, em diversos projetos, portanto não há um único projeto, houve diversas componentes e diversos projetos, desde a reconstrução do laboratório próprio. Foram vários projetos do plano de recuperação e resiliência na vertente educacional e na vertente de investigação científica“, salientou o professor Nuno Borges de Carvalho, diretor do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática (DETI) da Universidade de Aveiro, sem adiantar o montante total, ao ECO/eRadar.

O nosso objetivo é ter uma utilização de laboratório periódica pelos alunos. Mas sempre que seja necessário utilizar, ou sempre que alguma empresa ache que há ali alguns destes sistemas que eles precisam, nós estamos disponíveis obviamente para os receber sem problemas nenhum.

Nuno Borges de Carvalho

Diretor do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática (DETI) da Universidade de Aveiro

O novo laboratório está destinado principalmente ao ensino dos alunos universitários, com “um fim muito pedagógico”, agregando “soluções lá dentro que podem ser utilizadas para fazer teste de CubeSats e também de drones”.

“Temos uma gaiola de Helmholtz, que permite variar as condições. Temos um air bearing que permite-me pôr um objeto, não muito grande, quase a voar, porque na prática cria uma camada de ar que faz com que seja possível fazer alguns testes”, vincou Nuno Borges de Carvalho ao ECO/eRadar. “Também temos várias câmaras à volta do laboratório que vão permitir fazer testes de controlo, quer de CubeSats, portanto satélites pequeninos, quer de drones“, continuou.

Embora o novo laboratório, instalado no DETI, da Universidade de Aveiro, ter sido pensado para apoiar o trabalho dos alunos e a investigação académica, também estará ao dispor da indústria aeroespacial portuguesa, à semelhança do que já acontece com outras infraestruturas da casa, como a câmara anecoica.

“Temos aqui outras infraestruturas. As empresas utilizam-nas significativamente sempre que têm alguma solução que desenvolveram na área de tecnologias de radiofrequência, e usam a nossa câmara anecoica também para caracterizar esses sistemas. O nosso objetivo aqui é o mesmo: ter uma utilização de laboratório periódica pelos alunos. Mas sempre que seja necessário utilizar, ou sempre que alguma empresa ache que há ali alguns destes sistemas que precisam, estamos disponíveis obviamente para os receber“, vincou o professor e diretor do DETI.

Entre as empresas nacionais que já usaram as câmaras da Universidade de Aveiro estão a Thales em Portugal, a Wavecom, a Altice Labs ou a Sinuta, elencou Nuno Borges de Carvalho.

O docente da Universidade de Aveiro confirmou que algumas empresas portuguesas do setor demonstraram interesse em aproveitar as potencialidades do novo laboratório do instituto de ensino superior. “Já mostraram interesse e curiosidade em saber o que é que vai ser possível medir e caracterizar para eles trazerem as suas soluções”, disse ao ECO/eRadar.

Deverá haver um forte interesse por parte da indústria nacional, uma vez que a instituição tem “várias colaborações com empresas de drones portuguesas nomeadamente a UAVision, a Tekever, a Beyond Vision”.

Cortiça no espaço é a nova aposta da Universidade de Aveiro

O DETI, em parceria com a Escola Superior Aveiro Norte (ESAN) e o Instituto de Telecomunicações de Aveiro (IT-Aveiro), também desenvolveu um CubeSat. O pequeno satélite distingue-se por recorrer à cortiça como material estrutural, componente que “a NASA já integra no shield do vaivém para fazer o isolamento térmico”, com origem portuguesa, de corticeiras nacionais como a Corticeira Amorim.

A escolha da cortiça como material responde à crescente preocupação com o impacto ambiental da proliferação de satélites em órbita baixa, muitos dos quais acabam por reentrar na atmosfera poucos anos após o lançamento.

“Em grande parte dos satélites, até agora, a estrutura tipicamente é metálica. Qual é o problema? Por exemplo, a Starlink está a mandar milhares de satélites para o espaço. Estes satélites todos são de baixa órbita, ou seja, estão à volta da Terra e ao fim de algum tempo, passado dois, três, quatro, cinco anos, vão fazer a reentrada e tipicamente queimam, ardem na atmosfera“, assinalou o professor ao ECO/eRadar.

“Se eu tiver um ou dois não é grande coisa. Se eu passar a ter milhares de satélites a arder, apesar de alguns players dizerem que isso não vai ter impacto nenhum [na atmosfera], eu acho, e outros grupos de pessoas acham, que vai aumentar a poluição. Estão a queimar uma quantidade de material metálico no espaço“, frisou.

O professor da Universidade de Aveiro adicionou que não espera que o CubeSat seja apenas “amigo do ambiente”, mas que seja simultaneamente “mais leve para lançar”, uma vez que o custo de lançamento satélites em metal é mais elevado devido ao peso.

Temos projetos com empresas nacionais para a construção de satélites. Já temos um projeto aprovado que vai arrancar agora em julho. É um projeto com empresas da indústria em que a Universidade de Aveiro e o Instituto de Telecomunicações são parceiros.

Nuno Borges de Carvalho

Diretor do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática (DETI) da Universidade de Aveiro

Além de ser mais leve, a cortiça poderá também permitir estudar o comportamento de materiais alternativos em ambiente espacial. “Gostaríamos de testar, e essa é a parte que levamos a bordo, dois payloads, por assim dizer, duas experiências”, assinalou Nuno de Carvalho.

Uma das experiências que queremos levar a bordo é exatamente um sensor para monitorizar a degradação da cortiça, quer enquanto o satélite estiver a andar à volta da Terra, quer quando o satélite fizer reentrada na atmosfera, porque provavelmente também vai ter um efeito de combustão e gostaríamos de medir alguns parâmetros dessa mesma degradação. O outro é um sensor que vai monitorizar a frequência e a emissão de frequências no espaço da constelação Starlink. E é preciso monitorizar e gerir este espetro no espaço”, esclareceu o diretor do Departamento de Eletrónica, Telecomunicações e Informática da UA ao ECO/eRadar.

A Universidade de Aveiro admite que este tipo de projetos poderá, no futuro, evoluir para aplicações de uso dual, embora sublinhe que o satélite agora apresentado é um projeto universitário e experimental.

“Talvez. Há muitas outras coisas que se podem fazer, definitivamente, mas temos de ver também que isto é um satélite universitário construído por alunos e, portanto, isto é daqueles CubeSats muito pequeninos”, afirmou Nuno Borges de Carvalho.

Ao mesmo tempo, a instituição confirma que já tem novos projetos aprovados com empresas nacionais para o desenvolvimento de satélites, reforçando a aposta num setor em crescimento e cada vez mais ligado à indústria portuguesa.

Temos projetos com empresas nacionais para a construção de satélites. Já temos um projeto aprovado que vai arrancar agora em julho. É um projeto com empresas da indústria em que a Universidade de Aveiro e o Instituto de Telecomunicações são parceiros. E estivemos num projeto que terminou, que é o New Space Portugal, em que se construíram satélites”, destacou, sem adiantar quais as empresas em questão.

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