Delta ‘resgata’ produtora de cápsulas de café com dívidas de 23 milhões
Mocoffee tenta salvar negócio que produz 350 milhões de cápsulas de café por ano na Azambuja através de uma reestruturação que prevê injeção de três milhões de euros de novo investidor. Delta avança.
Com dívidas superiores a 23 milhões de euros, a Mocoffee prepara-se para ser alvo de um resgate da Delta Cafés, do Grupo Nabeiro. Não se sabe o valor do negócio que acabou de ser comunicado à Autoridade da Concorrência. Mas o plano de recuperação desta produtora de cápsulas de café da Azambuja prevê uma injeção de pelo menos três milhões de euros de um novo investidor.
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Como o ECO avançou em abril, com uma fábrica na Zona Industrial da Azambuja dimensionada para produzir 350 milhões de cápsulas de café por ano, a Mocoffee avançou com um Processo Especial de Revitalização (PER), um mecanismo jurídico que permite a empresas em dificuldade financeira ou insolvência iminente negociar com os credores para evitar a falência.
A banca representa metade do valor da dívida de 23,4 milhões de euros da empresa liderada por Ricardo Flores, que é o maior acionista (27% a título individual) e que tem a família brasileira Opitz como principal sócia. À cabeça surgem BCP e Caixa Geral de Depósitos – ambos com créditos de 2,7 milhões de euros –, seguidos do Montepio (2 milhões), Crédito Agrícola (1,5 milhões) e Bankinter (461 mil euros), segundo a lista de credores apresentada pelo administrador judicial nomeado pelo tribunal, Jorge Calvete, em março. Também deve ao Estado: 185 mil euros ao Fisco e outros 200 mil à Segurança Social.
Com sede em Portugal, a Mocoffee tem subsidiárias no Reino Unido e no Brasil, onde estava a construir uma unidade industrial. Empregando mais de 30 trabalhadores, a empresa compra, torra, mói e coloca o café dentro de cápsulas – exporta 90% para clientes que distribuam com a sua própria marca.
No plano de recuperação, a empresa já tinha dado conta de “manifestações de vontade de negociações para revitalização” por parte do BCP e da sociedade Iniciativas Comerciales Navarra, uma trading de matérias-primas que tinha requerido a insolvência em junho de 2025. Estava então projetada “a entrada de um novo investidor, que conceda um novo financiamento, através da entrada de dinheiro novo até ao montante estimado de, pelo menos, três milhões de euros”, destinado a “cobrir necessidade de fundo de maneio imediatas e a estabilizar a operação diária da empresa”.
“A Mocoffee encontra-se a negociar soluções de financiamento que lhe permitam fazer face às suas necessidades de tesouraria de curto e médio prazo”, adianta ainda, reiterando que “a obtenção de um novo financiamento é essencial, no imediato, para permitir estabilizar a empresa, mantendo a sua atividade, e criar condições que lhe permitam executar o plano de reestruturação proposto”.
Contactada pelo ECO, a Delta Café não quis fazer qualquer comentário relativamente à aquisição do controlo exclusivo da Mocoffee Europe SA., segundo o aviso da Autoridade da Concorrência publicado esta terça-feira nos jornais.

Da Delta brasileira à fábrica montada na pandemia
As origens da sociedade Mocoffee Europe SA, que em 2024 faturou 13,23 milhões de euros e registou lucros de 1,3 milhões, segundo a documentação consultada pelo ECO, remontam ao negócio fundado há 35 anos pelo inventor da cápsula monodose de café e primeiro CEO da Nespresso.
Como veio parar às mãos de um português esta empresa com ADN suíço, criada com o nome de Monodor por Eric Favre, que revolucionou a maneira como hoje se bebe café em todo o mundo? Tudo começou no Brasil, para onde Ricardo Flores se mudou em 2008 para, nessa altura, abrir o primeiro escritório direto da Delta Q do outro lado do Atlântico.
Em 2011 foi recrutado como diretor de marketing e vendas pela Wine, então uma startup brasileira de e-commerce de vinhos, que, volvidos três anos, já com 400 funcionários e “alguma dimensão”, decidiu adquirir outros negócios. Começou por comprar duas empresas de cerveja artesanal e foi à procura de uma empresa de café. Nessa altura, a pensar na reforma, Eric Favre tinha colocado a Mocoffee à venda e em dezembro de 2014 completou-se a transação. Inicialmente, a maioria do capital foi comprada pela Wine e Ricardo Flores ficou com uma participação de 10%.
“A empresa tinha um gestor suíço, a sede estava em Zurique e era basicamente uma empresa de desenvolvimento de patentes e de compra e venda de produto. Tinha uma fábrica parceira em Itália, onde produzia, e depois distribuía no mercado suíço e francês. Até que em 2015 houve a crise com a saída da Dilma e a Wine decidiu vender todos os negócios que não eram vinho porque tudo era importado, o dólar descolou do real e era preciso realizar capital para aumentar fluxo de caixa”, recordou o gestor, numa entrevista ao ECO em maio de 2024.
Foi então que decidiu comprar a maioria do capital da Mocoffee através de um Management Buy Out (MBO) e, com o apoio de outro investidor, finalizou o programa de compra em setembro de 2018. Dois anos antes já tinha aberto um escritório de backoffice em Lisboa, onde colocou as funções de apoio logístico, informática e financeiras que estavam na Suíça. Já com a posição de controlo, decidiu trazer a empresa toda para Portugal, à exceção da parte comercial, que continuou em território helvético, e montar também uma fábrica em Portugal.
Ocupando uma área total de 4.050 metros quadrados que, além da produção, inclui os departamentos de investigação, logística e comercial, a unidade industrial localizada na Azambuja (distrito de Lisboa) entrou em funcionamento em agosto de 2022 e a partir de outubro de 2023 passou a concentrar a totalidade da produção da empresa.
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