Nigel Farage demite-se de deputado na Câmara dos Comuns após polémica com donativos ao partido
Após a demissão, líder do Reform UK anunciou que vai concorrer à eleição suplementar no círculo de Clacton, que representa há dois anos, deixando nas mãos do povo o “julgamento” das suas ações.
Nigel Farage, líder do Partido Reformista britânico (Reform UK), anunciou esta terça-feira a sua demissão do cargo de deputado na Câmara dos Comuns para se candidatar a uma eleição suplementar antecipada, após semanas de escrutínio sobre as suas finanças.
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“Decidi que o povo de Clacton deve ser quem julga as minhas ações“, afirmou, referindo-se ao círculo eleitoral do sudeste de Inglaterra que representa há dois anos. “Esta será uma eleição suplementar entre o povo e o establishment. É uma oportunidade para mostrar o dedo do meio a todo o establishment, para lhes dizer francamente para onde podem ir”, acrescentou, em declarações transmitidas pelos canais de televisão do Reino Unido.

A decisão de Nigel Farage, anunciada numa conferência de imprensa realizada em Londres, surge depois de semanas de escrutínio sobre as finanças do líder populista de direita, cujo partido continua a liderar as sondagens a nível nacional, com cerca de 26,4% das intenções de voto, de acordo com o site PolitPro.
Farage está a ser investigado pelo Comissário Parlamentar para as Normas, Daniel Greenberg, para apurar se violou as regras da Câmara dos Comuns ao não declarar uma doação de cinco milhões de libras do bilionário britânico-tailandês do setor das criptomoedas Christopher Harborne.
O líder do Reform UK afirmou, repetidamente, que não tinha qualquer obrigação de declarar a doação, uma vez que a recebeu antes de ser eleito deputado pelo círculo de Clacton e que esta lhe foi concedida a título pessoal para financiar a sua segurança.
A publicação de uma fotografia da casa da sua filha no jornal The Times foi, segundo o próprio, a “gota de água” na sua decisão de convocar uma eleição suplementar. Nas eleições gerais de 2024, Farage conquistou o lugar pelo círculo de Clacton com uma maioria considerável de 8.405 votos.
“Precisamos de pessoas bem-sucedidas de todas as esferas da vida — mas, em particular, do mundo dos negócios e da indústria. Precisamos delas não só no Parlamento, precisamos delas no Governo, se quisermos ter sequer uma mínima hipótese de reverter a situação económica desastrosa deste país”, argumentou.
Farage adiantou ainda que também está a ser investigado devido a novas acusações de que não declarou presentes e doações do empresário George Cottrell, do setor das criptomoedas e seu amigo de longa data, que alegadamente terão servido para financiar a segurança privada, o pessoal, o transporte e o alojamento do líder do Reform UK no ano anterior à sua eleição para a Câmara dos Comuns.
Negando qualquer irregularidade e insistindo que cumpriu as regras, reiterou que não fez “nada de errado” e que recebeu “bom aconselhamento jurídico”. Simultaneamente, criticou as regras de conduta da Câmara dos Comuns, considerando que não visam regulamentar o que os deputados fazem nas suas “vidas puramente pessoais”.
O regresso de Farage à política britânica em 2024 abalou tanto os Conservadores, que perderam quota de votos na direita, como mais recentemente o Governo trabalhista de centro-esquerda, com o Reform UK a ganhar centenas de lugares nas eleições locais de maio, inclusive em áreas da classe trabalhadora no norte de Inglaterra, habitualmente um sólido bastião do Labour.
A pesada derrota do Partido Trabalhista nas eleições locais de maio foi, aliás, um dos motivos na base da demissão de Keir Starmer da liderança do Governo britânico e do Labour, devendo ser sucedido pelo presidente da Câmara da Grande Manchester, Andy Burnham.
Contudo, Nigel Farage enfrenta uma nova ameaça vinda da direita. Rupert Lowe, que lidera o partido de extrema-direita Restore — cujas intenções de voto se situam na casa de um dígito, mas que tem acumulado um vasto número de seguidores online —, afirmou que o líder do Reform UK está a “ridicularizar” o processo democrático ao desencadear uma dispendiosa eleição suplementar.
Nigel Farage, de 62 anos, é um antigo membro do Partido Conservador que criou o UKIP (Partido para a Independência do Reino Unido) em 1993 e foi eurodeputado entre 1999 e 2020. Apesar de ter sido educado em escolas privadas e ter feito carreira na área financeira, é apreciado pela classe trabalhadora devido à gargalhada fácil e fotografias frequentes de cerveja ou cigarro na mão.
Esta imagem de proximidade foi reforçada pela participação, em 2023, no programa de televisão “Sou uma Celebridade, Tirem-me daqui”, durante o qual foi sujeito a tarefas pouco dignas. Aquele programa e os comentários no canal televisivo conservador GB News ajudaram a dar um novo impulso na carreira a Farage, que é seguido na rede social TikTok por 1,5 milhões de utilizadores.
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