Portugal produz luxo, mas ainda não tem marcas que o provem

ECO Avenida,

Rastreabilidade, auditorias e digitalização já são regra na produção têxtil e cerâmica de luxo em Portugal. Falta ao país, dizem os especialistas, investir em criatividade e em marcas próprias.

Portugal conquistou confiança nas cadeias de produção do luxo internacional, mas continua sem marcas globais que captem o verdadeiro valor daquilo que produz. Foi este o diagnóstico do painel “Produção, Cadeias e Sustentabilidade”, que na 1.ª edição da ECO Luxury Summit reuniu Ricardo Silva, presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal, Nuno Barra, administrador da Vista Alegre, e Hermano Rodrigues, diretor da EY Parthenon, num debate moderado pelo subdiretor do ECO, Tiago Freire. Recorde, aqui, o resumo essencial do evento.

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A discussão arrancou com a rastreabilidade exigida pelas grandes marcas aos fornecedores, uma nova realidade para que, assegura Ricardo Silva, o setor está preparado, apesar do tecido empresarial português ser composto, além de grandes grupos tecnológicos, por pequenas oficinas. O têxtil e vestuário representam cerca de 17% do emprego industrial no país, sendo as empresas maiores as que lideram a relação com as marcas internacionais, subcontratando depois uma rede de fornecedores mais pequenos.

No debate moderado por Tiago Freire, subdiretor do ECO, participaram Hermano Rodrigues (EY-Parthenon), Nuno Barra (Vista Alegre) e Ricardo Silva (Associação Têxtil e Vestuário de Portugal)

Ricardo Silva defende que a força do país nesta área não está apenas na tecnologia das máquinas, mas sobretudo na forma como as empresas se relacionam com os clientes. “É pela forma como fazemos negócios, como temos a criatividade, como somos hospitaleiros, como recebemos os clientes”, sublinhou.

Questionado sobre o equilíbrio entre herança histórica e inovação, Nuno Barra recordou o desafio de revitalizar a Vista Alegre sem que o mercado sentisse uma rutura com o passado. Uma das respostas foi, conta, a criação de uma residência para jovens designers de várias partes do mundo, que ali permanecem entre três e seis meses a desafiar processos instalados. “Eles entram na fábrica e questionam: ‘mas porque é que fazem isto?'”, descreveu, acrescentando que o arrojo tem de ser uma prática constante e não um episódio isolado.

Antigamente, feito em Itália era sinal de confiança, sinal de regulamentação, sinal de qualidade. Hoje em dia, as histórias têm-nos mostrado o contrário

Ricardo Silva

Presidente da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal

A realidade regulatória na Europa tornou a sustentabilidade uma questão central na vida das empresas, uma realidade que, no caso do luxo, é muito mais do que conformidade legal, defendeu Hermano Rodrigues. “A sustentabilidade, ela própria, tem que ser negócio”, apontou. Segundo o Principal da EY-Parthenon, a visão de quem investe em luxo a sério coloca os critérios de sustentabilidade acima dos custos, e muitas marcas já vão além do que a lei exige aos fornecedores, sendo elas próprias a determinar as condições ao longo da cadeia.

Ricardo Silva alertou, porém, que a confiança gerada por etiquetas como “made in Italy” tem sido posta em causa por escândalos recorrentes em fábricas italianas ligadas a marcas de prestígio, com práticas laborais questionáveis. “Antigamente, feito em Itália era sinal de confiança, sinal de regulamentação, sinal de qualidade. Hoje em dia, as histórias têm-nos mostrado o contrário”. Esta realidade, diz, reforçou a exigência de auditorias sociais, ambientais e financeiras antes de qualquer encomenda avançar, prática já generalizada entre as marcas mais exigentes. O dirigente apontou ainda a digitalização como o principal desafio, essencial para garantir rastreabilidade completa, “da quinta do algodão até ao consumidor”.

O luxo faz contas. Não tenhamos ilusões, os compradores internacionais sabem muito bem quanto é que querem pagar por aquela peça. Se for mais 3 cêntimos, não pagam

Nuno Barra

Administrador da Vista Alegre

Sobre o valor da etiqueta “made in Portugal“, Nuno Barra considera que a perceção de qualidade da produção nacional já iguala ou supera a italiana, mas o que continua a atrair encomendas é sobretudo o preço competitivo. “O luxo faz contas”, resumiu, acrescentando que os clientes valorizam também a flexibilidade dos produtores portugueses, capazes de aceitar prejuízo pontual para cumprir prazos, algo que já não acontece em Itália.

Ainda assim, alertou que, apesar do reconhecimento técnico, Portugal não tem marcas globais próprias. Nuno Barra comparou o país à Dinamarca, que com metade da população portuguesa gerou marcas como Lego, Bang & Olufsen, Novo Nordisk ou Carlsberg. Falta, acredita, investimento em criatividade e em marca.

Estou a desenvolver um trabalho que visa ajudar a reposicionar o têxtil e o vestuário português no contexto europeu e mundial, identificando e valorizando os bons exemplos que temos

Hermano Rodrigues

Principal na EY-Parthenon

Para Hermano Rodrigues, os clusters industriais portugueses, concentrados territorialmente e verticalizados, facilitam a rastreabilidade face a cadeias dispersas por várias geografias e destaca que o país já desenvolve internamente produtos sofisticados para grandes marcas mundiais. O elo que falta é a capacidade de dominar o mercado e capturar valor acrescentado, em vez de vender criatividade a preços baixos a quem depois a comercializa com margens elevadas. Defende, por isso, investimento estratégico em marca, o ativo onde considera Portugal mais atrasado, a par da inovação de produto.

“Estou a desenvolver um trabalho que visa ajudar a reposicionar o têxtil e o vestuário português no contexto europeu e mundial, identificando e valorizando os bons exemplos que temos”, revelou. E alertou que o país já tem desenvolvimentos relevantes em novas matérias-primas sustentáveis que a própria indústria ainda não está a aproveitar. “Estes desenvolvimentos estão a passar quase a 99% ao lado dos players industriais portugueses”, rematou.

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