Portugal tem dinheiro para investir mas falta “capital inteligente”, defende CEO da Bright Pixel
João Günther Amaral considera que Portugal não tem falta de capital para investir em startups, mas sim de "capital inteligente" capaz de ajudar as empresas a crescer e a ganhar escala internacional.
Portugal tem capital disponível para investir em ‘startups’, mas falta capital suficientemente inteligente para apoiar o crescimento das empresas, defendeu o presidente executivo (CEO) da Bright Pixel, João Günther Amaral, em entrevista à Lusa. “Eu não diria que há falta de capital para investir em Portugal, há capital para investir em Portugal”, afirmou Amaral, referindo-se aos fundos SIFIDE (Sistema de Incentivos Fiscais à I&D Empresarial) e ao dinheiro injetado pelo Estado.
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O presidente executivo disse duvidar de que esse capital seja “o capital mais inteligente que possa haver”. “É que o capital que existe tem que ser um capital suficientemente inteligente para ajudar as empresas a crescer e a ganhar a tração necessária“, acrescentou.
De acordo com o CEO, é preciso “encontrar tração em mercados internacionais”, considerando que “o mercado português é um mercado pequeníssimo”. “Eu se montar uma empresa para ser bem sucedida em Portugal, essa empresa vai necessariamente ser sempre uma empresa pequena”, disse o responsável.
“Se eu apenas puser dinheiro e não puser mais nada na empresa em que investi, estou a competir com outros apenas por colocar dinheiro”, acrescentou. Para o CEO, o capital inteligente vai mais além que capital tradicional, não se foca apenas em dinheiro, mas traz uma série de outras mais-valias adicionais que ajudam o negócio a crescer.
“O capital inteligente é eu ter acesso a ‘advisors’ (conselheiros), ter dentro da minha própria equipa gente que pode ajudar as empresas a crescer, a desenvolver-se de forma diferente (…) que me possam validar o conceito, ajudar a co-desenhar a solução, que possam inclusivamente ser parceiros comerciais das soluções que as empresas desenvolvem e por aí fora”, afirmou.
“Portanto, é tudo aquilo que eu puder acrescentar ao simples ato de pôr capital numa empresa”, acrescentou. Sobre o conceito de parceiro de’ design’ (design partner, em inglês), Amaral crê “que não cativa muito o ter um cliente, mas ter aquilo a que se chama um ‘design partner'”.
“O parceiro com quem eu vou desenhar a solução para a primeira implementação, ou para a segunda, ou para a terceira, ou para melhorar a minha solução, isso é algo muito interessante”, disse. “O aumento do valor do capital vem por aí”, resumiu.
João Günther Amaral reforçou o facto de não existir uma escassez de capital no mercado, afirmando ainda que o fundo compete para poder investir nas empresas. Não é chegar a qualquer empresa que se identifica como sendo boa e dizer: eu tenho aqui capital, portanto vou poder entrar no vosso capital”, disse o presidente executivo.
Segundo o CEO, “há muitas empresas muito boas que conseguem muito mais capital do que aquilo que necessitam”, pelo que a Bright Pixel tem de se destacar pelo capital inteligente.
“Isto parece contranatura, isto parece estranho termos que convencer alguém a querer o nosso dinheiro, mas em muitos mercados, neste momento, o termo não é existir capital”, disse o responsável.
“Eu acho que o potencial deste país é enorme”
Portugal precisa de criar uma comunidade semelhante à existente na Bay Area de São Francisco onde os empreendedores se cruzam diariamente, disse o CEO da Bright Pixel. “Eu acho que o potencial deste país é enorme e tem tido uma capacidade de atração de talento ímpar”, afirmou Amaral.
O CEO, descreveu o ambiente na Bay Area como uma comunidade onde os empreendedores se cruzam diariamente e tomam cafés ou partilham refeições. “Uma pessoa vai a São Francisco e vai à Bay Area e há uma comunidade enorme de gente que se conhece e de gente que se cruza quando vai à natação, quando vai ao ginásio, quando vai ao café, quando toma o pequeno-almoço, quando deixa os filhos na escola”, disse João Günther Amaral, acrescentando que ali “encontra-se gente de todas as empresas, de todas as áreas e convivem no dia-a-dia uns com os outros”.
Portugal, para o responsável da Bright Pixel, ainda se encontra na fase de criar espaços para forçar estes encontros com pessoas de diferentes áreas de negócio, com o intuito de estimular o empreendedorismo.
“Nós ainda estamos na fase onde temos de criar as ‘startups’ de Portugal, as fábricas de unicórnios, os UPTEC’s (Parque de Ciência e Tecnologia da Universidade do Porto), todas essas comunidades para que esta gente se encontre”, disse. O CEO referiu, todavia, que Portugal agrega uma grande quantidade de empreendedores de todo o mundo, cujas suas empresas são controladas a partir de Portugal.
“Portugal neste momento tem cá dentro uma quantidade de ‘founders’ (fundadores), de fundadores de ‘startups’ a nível mundial, sejam americanos, sejam da América do Sul, sejam europeus, gente que se mudou para cá e que vive em Portugal e opera as suas equipas e as suas empresas a partir daqui”, disse. “É impressionante a quantidade de gente que cá está”, acrescentou.
O presidente executivo afirmou ainda crer que a comunidade de investidores e fundadores de empresas de criptoativos em Portugal é uma das maiores do mundo. “A comunidade de cripto em Lisboa (…) é a maior a nível mundial, ou das maiores a nível mundial”, revelou o CEO apesar de admitir não conhecer de perto esta realidade. “Acho que há talento, as nossas universidades são excelentes e na minha perspetiva existe uma oportunidade muito grande em Portugal”, afirmou João Amaral.
“Há uma disrupção que está em curso neste momento”, disse o CEO, referindo-se ao impacto da inteligência artificial nos jovens recém-licenciados “à procura de primeiro emprego”, que considerou serem “o alvo mais afetado inicialmente pelas capacidades que hoje a inteligência artificial entrega”.
“São jovens altamente qualificados a ficarem em Portugal, a tornarem-se empreendedores e a criarem as suas empresas e tornando também Portugal num sítio que possa ser muito mais ativo na disrupção tecnológica que está a acontecer a nível mundial”, acrescentou.
A Bright Pixel investe a partir da conta de exploração da Sonae e recorre à estrutura da empresa para apoiar as empresas do seu portefólio.
A Bright Pixel é a sociedade de capital de risco (venture capital, em inglês) da Sonae, criada há dez anos e financiada exclusivamente pela mesma, que é o único parceiro limitado (‘limited partner’, em inglês) do fundo. Recentemente a Bright Pixel vendeu uma das empresas do seu portfólio, a Ona, à OpenAI, dona do ChatGPT, o valor da operação não foi revelado. A Ona é uma empresa norte-americana que permite que os agentes de inteligência artificial funcionem através de um ambiente integrado de desenvolvimento.
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