Seguradoras nacionais só suportam 9% dos 1,3 mil milhões de indemnizações das tempestades
Setor passou mais de 90% do custo associado aos danos provocados pelo comboio de tempestades que atingiu o país para as resseguradoras, adiantou o regulador do setor.
As seguradoras portuguesas apenas tiveram de suportar 9%, ou 117 milhões de euros, dos 1.300 milhões de euros em indemnizações devidas pelo setor segurador para cobrir os danos causados pelo comboio de tempestades que atingiu o país, este ano. Segundo adiantou o presidente da ASF (Autoridade de Supervisão de Seguros e Fundos de Pensões), o setor revelou capacidade para responder a esta situação de catástrofe, conseguindo passar o grosso dos custos para as resseguradoras.
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“O comboio de tempestades é claramente o evento de maior número de sinistros, com 210 mil sinistros e 1,3 mil milhões de euros de indemnizações“, lembrou Gabriel Bernardino, no Fórum Nacional de Seguros 2026, a decorrer esta terça e quarta-feira na Alfândega do Porto. O líder do regulador dos seguros destacou que é importante olhar para estes eventos e para a resposta do setor, reforçando que o setor “está capacitado para dar resposta” e “há uma boa gestão do resseguro”. “Apesar de termos um custo de 1,3 mil milhões de euros de indemnizações, só perto de 9% [do custo] vai ser assumido pelas empresas portuguesas, a grande maioria é assumido pelos resseguradores”, detalhou.
Só perto de 9% [do custo das indemnizações] vai ser assumido pelas empresas portuguesas, a grande maioria é assumido pelos resseguradores.
Apesar de admitir que “vai haver resultados técnicos negativos” e, no final do ano, poderá haver “algumas seguradoras com resultados perto de zero ou negativos”, assegura que “o mercado mostra-se robusto”.
O presidente da ASF adiantou ainda que o regulador está “no bom caminho, para [daqui a] mais umas semanas, publicar um relatório de lições e algumas recomendações do comboio de tempestades”. “Em Portugal ainda não temos muito a prática de ter a capacidade de olhar para situações e ver o que correu bem e menos bem para nos preparamos para situações futuras, que vão ocorrer. Não sabemos quando mas que vão voltar a ocorrer”, explicou ainda.
Sobre a existência de muitos casos sem cobertura de seguro nas regiões atingidas pelo temporal, Gabriel Bernardino lamentou que, no caso das “habitações, cerca de metade não estavam seguras para este evento e um número muito semelhante para pequeno comércio e indústria”. “O que é que se pode fazer contra isso? Nós precisamos é da ação. Andamos há duas décadas a falar sobre isto” e “não vale de nada criticar a classe política em relação a isto. Todos nós temos culpa“.

O líder do regulador dos seguros reforçou ainda que esta resposta da sociedade civil como um todo “tem de ser agora”, lembrando que a ASF apresentou, no seu plano estratégico, uma “proposta de sistema integrado, que inclua risco sísmico”. Segundo Bernardino, apenas 19% de risco sísmico está coberto, apesar de Portugal ter esse risco específico. Lembrando o que aconteceu na Venezuela, Bernardino avisa que “um terramoto na zona de Lisboa é uma catástrofe brutal”.
“O risco sísmico é importantíssimo, mas também riscos climáticos são importantíssimos. É preciso juntar isto tudo e tomar a decisão de se avançar”, pede. Dito isto, Bernardino diz que “não podemos deixar ninguém para trás” e a cobertura “não pode ser só para quem tem dinheiro”, defende, acrescentando que têm de existir soluções para que os “concidadãos que têm rendimentos mais baixos terem isto também”.
Por outro lado, Bernardino refere que “os seguros não devem ser vistos como mecanismos de pagamento. Devem ser vistos como prevenção“.
Apesar deste grande evento, o presidente da ASF reconhece que, “tirando o comboio de tempestades, o ano até tem estado a correr bem” para o setor, que “continua a crescer nas diferentes vertentes”, com o ramo vida com crescimento superior aos anos anteriores.
Oportunidade para seguros cibernéticos
Num momento em que a cibersegurança se assume como um risco cada vez mais significativo para as empresas, o presidente da ASF lamentou que ainda se oiçam “poucos a falar de riscos cibernéticos”, destacando que transposição da diretiva Solvência II vai obrigar setores críticos a implementar estratégias de riscos cibernéticos. “Foi assim que os seguros cibernéticos nos EUA dispararam, ainda não oiço falar disto em Portugal. É uma lacuna“, afiançou.
Em termos de nova legislação, e após uma década muito ativa, Bernardino refere que “há aqui uma pausa do que vem de Bruxelas. Em Portugal, estamos numa fase muito importante de implementação de diretivas europeias com impacto em 2027”, esclarece.
Desde logo, realça que passa a ser obrigatório considerarem nas suas análises de risco os riscos climáticos; há uma maior proporcionalidade que está a ser integrada no regime; e há uma alteração de calibragem de bastantes áreas, com redução de requisitos de capital de longo prazo. “É uma oportunidade para desenhar novos tipos de produto, muito importante para estratégia”, destaca, acrescentando que a EIOPA vai estar a “olhar para o que empresas vão fazer ao capital que será libertado. A expectativa é que este capital não saia do setor segurador, seja usado para novos produtos”.

Sobre a ausência de investimento tecnológico de grandes seguradoras, o presidente do regulador destaca que “há uma coisa que é inequívoca, se o setor quer continuar nesta rota de inovação e utilização de forma responsável das novas tecnologias, a base de tudo isto é ter um bom sistema, dados fiáveis e limpos. Ter IA em cima de dados maus não vai resultar”.
A preparar o primeiro relatório de mediação para sair em setembro, Gabriel Bernardino explica esta iniciativa com o objetivo de dar maior destaque ao setor e juntar toda a informação, que até aqui estava dispersa por vários documentos, num único relatório.
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