Reembolso do IRS a caminho? Cinco ideias para pôr o dinheiro a trabalhar

Entre liquidar dívidas e iniciar uma estratégia de investimento, há várias formas de aplicar o dinheiro que chegará nos próximos dias do Fisco, caso a sua nota de liquidação de IRS dite um reembolso.

A campanha de entrega da declaração de IRS fechou a porta na semana passada, e agora começa a verdadeira contagem decrescente: a espera pelo dinheiro que o Estado tem para devolver (ou, no pior dos cenários, a fatura para pagar ao Estado).

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Nos últimos cinco anos, cerca de metade das declarações entregues resultou em reembolso, o que significa que centenas de milhares de famílias vão ver cair na conta, nas próximas semanas (caso ainda não tenham recebido), uma quantia que, entre 2022 e 2025, rondou 900 a 1.150 euros, de acordo com dados da Autoridade Tributária.

A pergunta que se segue é quase automática e repete-se todos os anos: e agora, o que fazer a este dinheiro? A resposta mais sensata raramente é a mais óbvia, e vale a pena pensar nela com alguma antecedência, antes que o valor chegue à conta à ordem e se dissolva em despesas do dia-a-dia sem deixar qualquer marca duradoura no orçamento familiar.

O reembolso do IRS pode ser o ponto de partida ideal para uma estratégia de investimento com horizonte de longo prazo.

  • Amortizar os créditos mais caros

A primeira regra de ouro da gestão financeira familiar aplica-se aqui na perfeição: antes de pensar em poupar ou investir, é preciso arrumar a casa. Se a família tem em aberto dívidas em cartão de crédito ou crédito pessoal ao consumo, estas devem ser a prioridade absoluta, porque as taxas de juro associadas a este tipo de financiamento são normalmente as mais elevadas do mercado, podendo ultrapassar os 15% ou até os 20% em termos de taxa anual efetiva global (TAEG).

Amortizar antecipadamente este tipo de crédito equivale, na prática, a obter uma rendibilidade garantida igual à taxa de juro que se deixa de pagar — um retorno que dificilmente qualquer aplicação financeira de baixo risco conseguirá replicar. Antes de decidir, convém confirmar junto do banco ou da financeira se existe alguma penalização por amortização antecipada, embora na maioria dos créditos ao consumo essa comissão seja residual ou mesmo inexistente.

  • Pagar a anuidade do colégio de uma só vez

Esta é talvez a ideia menos óbvia à primeira vista, mas também uma das mais rentáveis em termos relativos. Muitos colégios oferecem descontos que variam entre os 2% e os 5% a quem opta por liquidar a anuidade de uma só vez, em vez de a fracionar em prestações mensais ao longo do ano letivo.

Numa mensalidade de 600 euros, por exemplo, um desconto de 3% sobre o valor anual pode traduzir-se numa poupança de mais de cerca de 200 euros sem qualquer risco, sem burocracia adicional e sem ter de esperar por juros de qualquer aplicação financeira. Vale a pena telefonar à secretaria do colégio antes do início do próximo ano letivo e perguntar diretamente se esta condição está disponível, porque nem sempre é publicitada de forma explícita.

  • Dar o pontapé de saída a uma carteira de longo prazo

O reembolso do IRS pode ser o ponto de partida ideal para uma estratégia de investimento com horizonte de longo prazo. Um fundo cotado (ETF) que replique um índice de ações mundial, ou um fundo de investimento indexado a um índice de referência amplo, continuam a ser das formas mais simples, transparentes e menos dispendiosas de fazer crescer o património ao longo de 20 ou 30 anos, sem exigir conhecimentos avançados de análise financeira nem tempo disponível para gestão ativa da carteira.

A vantagem destes instrumentos está precisamente na diversificação automática que oferecem, distribuindo o investimento por centenas ou milhares de empresas em diferentes setores e geografias, o que reduz o risco associado à exposição a um único título ou mercado.

E mais importante do que o valor inicial investido é, no entanto, o que se faz a seguir: usar o reembolso do IRS como o primeiro reforço de uma posição, e não como um investimento isolado e pontual.

A partir desse momento, faz sentido configurar um plano de investimento automático, com reforços mensais ou trimestrais de valores mais modestos, transferidos diretamente da conta à ordem para a conta de investimento.

Esta disciplina, conhecida por alguns como dollar-cost averaging ou custo médio ponderado, permite comprar unidades de participação a preços diferentes ao longo do tempo, suavizando o impacto da volatilidade dos mercados e retirando da equação a tentação de tentar acertar no momento ideal para investir. O reembolso do IRS transforma-se, assim, não num fim em si mesmo, mas no gatilho que falta a muitas famílias para começar, finalmente, a poupar e investir de forma metódica e continuada.

  • Criar ou reforçar o fundo de emergência

Um erro comum é avançar diretamente para o investimento sem primeiro garantir uma almofada financeira capaz de absorver imprevistos, como uma avaria no carro, uma emergência médica ou uma quebra de rendimento inesperada.

Este fundo deve cobrir entre seis a 12 meses de despesas fixas da família, guardado num produto de poupança com liquidez imediata, como Certificados de Aforro. Se o reembolso do IRS ainda não chega para preencher esta almofada na totalidade, pode ser um excelente ponto de partida, evitando que a família tenha de recorrer a crédito ao consumo, precisamente o tipo de dívida cara que se pretende evitar, na próxima vez que surgir um imprevisto.

  • Investir na eficiência energética da casa

É uma ideia pouco evidente, mas com um retorno que muitas vezes ultrapassa qualquer produto financeiro tradicional: usar o reembolso do IRS para pequenas intervenções que reduzam a fatura de eletricidade e de gás de forma permanente.

A substituição de janelas antigas, a instalação de painéis solares fotovoltaicos de pequena escala ou até a troca de eletrodomésticos antigos por equipamentos de classe energética A ou superior podem gerar poupanças mensais recorrentes que, ao fim de poucos anos, superam largamente o investimento inicial. Ao contrário de uma aplicação financeira sujeita às oscilações dos mercados, a poupança energética é praticamente garantida e imediata, começando a refletir-se já na fatura seguinte.

O bem-estar familiar e os momentos de qualidade em conjunto também têm valor, e nenhuma estratégia de poupança faz sentido se sacrificar por completo a qualidade de vida no presente.

Nem tudo tem de obedecer à lógica fria da rentabilidade financeira, e há quem prefira, com toda a legitimidade, usar parte ou a totalidade do reembolso do IRS para proporcionar à família um destino de férias que, de outra forma, ficaria fora do orçamento anual.

Esta opção não tem de ser vista como um desperdício: o bem-estar familiar e os momentos de qualidade em conjunto também têm valor, e nenhuma estratégia de poupança faz sentido se sacrificar por completo a qualidade de vida no presente. O segredo está na forma como esta despesa é planeada.

Reservar o destino com antecedência, comparar preços entre diferentes plataformas e, sempre que possível, optar por viajar fora da época alta são pequenos gestos que podem reduzir significativamente o custo total da viagem, libertando margem no orçamento familiar sem abdicar do momento em família.

Esta atenção aos detalhes é, também ela, um exercício de literacia financeira, ainda que aplicado ao consumo e não à poupança ou ao investimento. Ainda assim, o importante é que a decisão seja tomada de forma consciente, e não por impulso.

Antes de dedicar o reembolso ao lazer, vale a pena confirmar se as prioridades financeiras mais urgentes já estão asseguradas, nomeadamente a amortização de dívidas com juros elevados e a existência de um fundo de emergência minimamente robusto. Só depois de garantidas essas bases é que gastar parte do dinheiro em férias deixa de ser um risco e passa a ser, verdadeiramente, uma escolha equilibrada entre poupança e qualidade de vida.

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