BRANDS' ECO Luís Marçal: “O futuro que desejo para Portugal já está a acontecer”
Luís Marçal, da Siemens Portugal, defende que a transição energética exige talento, dados e ecossistemas mais integrados para acelerar a eletrificação e a digitalização do país.
A falta de mão de obra qualificada, a integração entre tecnologia operacional e digital, a utilização de dados e o papel da indústria portuguesa na mobilidade elétrica são alguns dos temas que marcam a conversa com Luís Marçal, responsável pela área de Smart Infrastructure da Siemens Portugal. A partir das conclusões do Siemens Infrastructure Transition Monitor 2025, o gestor defende que Portugal tem condições para assumir uma posição mais ativa na transição energética, desde que consiga aproximar empresas, conhecimento, Governo e academia.
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É apontada a falta de mão de obra qualificada como o principal estrangulamento da transição energética em Portugal. Que papel pode uma tecnológica como a Siemens desempenhar na formação destes profissionais, além de fornecer a tecnologia que eles depois instalam?
A falta de mão de obra qualificada e a escassez de talento são desafios transversais às economias europeias. Neste contexto, o papel da Siemens vai muito além da tecnologia que desenvolve e disponibiliza ao mercado.

Ao longo dos mais de 120 anos de presença em Portugal, a promoção e o desenvolvimento do conhecimento têm sido uma dimensão central do nosso compromisso com o país. Desenvolvemos iniciativas, como academias e programas de formação, entre outras, que visam capacitar talento e responder não apenas às necessidades da Siemens, mas também às do mercado de trabalho.
Fomos, aliás, uma das entidades fundadoras da ATEC, uma academia dedicada à formação profissional financiada para jovens e adultos, bem como à atualização contínua de competências de profissionais no ativo. No âmbito da transição energética, lançámos em janeiro o Accelerate NextGen, uma competição académica que desafia estudantes a desenvolver soluções tecnológicas capazes de acelerar a transição energética e a transformação digital.
Ao longo do programa, que este ano foi ganho por uma equipa de alunos do ISEL, os participantes trabalharam com as mesmas ferramentas e software utilizados pela Siemens no dia a dia e tiveram acesso direto a especialistas da Siemens e de entidades parceiras.
A aprendizagem já não pode estar exclusivamente associada aos modelos tradicionais de ensino. Hoje, é um processo contínuo e permanente
Para além de refletir o nosso compromisso com a inovação, a formação prática e a capacitação das novas gerações de engenheiros, iniciativas como esta contribuem para aproximar os jovens do mercado de trabalho e da realidade industrial.
E como se garante que os profissionais que já estão no mercado acompanham esta transformação?
Tão importante como formar as novas gerações é garantir a atualização contínua de quem já está no terreno. A transição energética e a digitalização exigem competências que não existiam há cinco ou dez anos, e muitos dos profissionais que vão liderar esta transformação já estão no ativo. Por isso, investimos também em programas de requalificação e atualização de competências, em parceria com clientes, parceiros e instituições de ensino.
A rapidez da transformação que vivemos tornou evidente que a aprendizagem já não pode estar exclusivamente associada aos modelos tradicionais de ensino. Hoje, é um processo contínuo e permanente e, em muitos casos, são as próprias empresas a assumir esse papel.
Na equipa que eu próprio lidero, e de forma a responder às necessidades do mercado, estamos a recrutar novos colaboradores que ainda passam por um processo de formação adicional. É um investimento que demora cerca de 12 meses até que estejam prontos para responder às exigências dos setores da energia e das infraestruturas.
Falou, na conferência sobre “A transição das infraestruturas”, em ecossistema “forte”, mas com “ligações que precisam de ser bem trabalhadas”. Concretamente, quais são essas ligações mais fracas e o que falta fazer, na prática, para que o ecossistema funcione melhor?
Quando se fala num ecossistema forte, mas com ligações que precisam de ser trabalhadas, estamos a referir-nos a desafios muito concretos. O primeiro é a integração entre o mundo da tecnologia da informação e o mundo da tecnologia operacional. As infraestruturas energéticas e industriais continuam, em muitos casos, assentes em sistemas isolados e proprietários, justificados pela sua criticidade. A evolução passa por integrar esses sistemas com plataformas cloud, inteligência artificial e ferramentas de análise em tempo real.
A transição energética e a modernização das infraestruturas são desafios sistémicos que nenhuma empresa resolve sozinha
Esta ponte tecnológica é essencial para preservar a resiliência e a segurança exigidas por estas soluções e, ao mesmo tempo, viabilizar infraestruturas verdadeiramente inteligentes, integrar energias renováveis e aumentar a eficiência de infraestruturas como edifícios, processos industriais ou instalações elétricas.
O segundo desafio é a fragmentação entre os atores da cadeia de valor. Produtores, operadores de rede, construtores, reguladores e fornecedores de tecnologia ainda trabalham demasiado em silos, sem partilha eficaz de dados nem planeamento integrado. A tudo isto somam-se quadros regulatórios que não acompanham a velocidade tecnológica, falta de pessoal qualificado em áreas críticas e modelos de financiamento que precisam de evoluir.
E que papel pode a Siemens desempenhar para ajudar a ligar melhor esses vários atores e acelerar a transição?
A posição da Siemens sobre este tema é clara: a transição energética e a modernização das infraestruturas são desafios sistémicos que nenhuma empresa resolve sozinha. A estratégia assenta na combinação do mundo real com o mundo digital, ligando ativos físicos como redes elétricas, edifícios, fábricas e sistemas de mobilidade a software, dados e inteligência artificial, para que os clientes acelerem as suas transformações de digitalização e sustentabilidade, tornando-se mais competitivos, resilientes e sustentáveis.
A eletrificação e a digitalização são dois lados da mesma moeda, e é na interseção entre ambas que o ecossistema precisa de ser mais forte, mais integrado e mais aberto
O veículo central dessa estratégia é a Siemens Xcelerator, uma plataforma digital aberta que reúne tecnologia, parceiros certificados e um marketplace para cocriar soluções. O ecossistema não é um complemento à oferta, é a própria condição para que a transição aconteça à escala e à velocidade necessárias. A eletrificação e a digitalização são dois lados da mesma moeda, e é na interseção entre ambas que o ecossistema precisa de ser mais forte, mais integrado e mais aberto.
A Siemens tem fábrica e atividade de desenvolvimento de carregadores de veículos elétricos em Portugal. Que peso tem esta operação no contexto global da empresa? Que papel pode ter esta operação nacional no caminho da transição?
Na verdade, a unidade da Siemens em Corroios é muito mais do que uma fábrica. É um ecossistema que reúne capacidade produtiva, investigação e desenvolvimento, e um centro de competências nas áreas de vendas, engenharia, gestão de projeto e service.
Uma parte significativa da equipa mundial de investigação e desenvolvimento da Siemens dedicada à mobilidade elétrica trabalha precisamente em Corroios, o que confere a esta operação uma relevância particular no contexto do grupo. A fábrica serve as regiões da Europa, Médio Oriente, América do Sul, África e Oceânia, posicionando Portugal como uma referência global dentro e fora do universo Siemens. Desde 2020, a fábrica de Corroios já produziu mais de 9.000 carregadores, exportados para dezenas de mercados em todo o mundo.
No contexto da transição energética, o papel desta unidade é estratégico. A eletrificação dos transportes é uma das principais alavancas para alcançar os objetivos de descarbonização, e a Siemens está a apoiar os seus clientes nesse processo.
Um excelente exemplo é o corredor de carregamento ultrarrápido que liga o Porto ao Algarve, um projeto da Galp recentemente concluído com a inauguração do hub de Pombal. Dos oito hubs que compõem o corredor, sete são alimentados por tecnologia Siemens, num total de 42 carregadores e 84 pontos de carregamento com potências até 400 kW.
Outro marco relevante é a primeira rota de transporte pesado 100% elétrica em Portugal, que funciona entre Oliveira de Azeméis e Mangualde. Trata-se de uma operação logística contínua da transportadora TJA, com dois camiões MAN de última geração totalmente elétricos e carregadores ultrarrápidos da Siemens, integrados pelas soluções de gestão de energia da Galp. A Siemens tem investido de forma consistente no país, e Corroios é um exemplo claro dessa aposta.
Defendeu que os dados gerados pelo setor estão longe de ser plenamente utilizados. Pode dar um exemplo concreto de como a Siemens está a ajudar clientes portugueses a transformar esses dados em decisões reais, sobretudo com recurso a inteligência artificial?
Há um desfasamento significativo entre o volume de dados gerados e a capacidade real de os aproveitar para tomar decisões mais informadas. Na engenharia, onde se produzem volumes massivos de dados, o potencial de transformação é enorme.
A Siemens atua precisamente neste cruzamento entre o mundo real e o digital, combinando tecnologias potenciadas por inteligência artificial, conhecimento especializado profundo e o ecossistema de parceiros certos. Integramos a IA industrial no software, na automação e na eletrificação, tudo interligado por uma base de dados unificada. Isto permite-nos ajudar os clientes a transformar dados em inteligência e inteligência em impacto concreto e vantagens competitivas.
Um exemplo é o sistema de armazenamento de energia e gestão de microrredes implementado pela Siemens na ilha Terceira, nos Açores, que permitiu aumentar a incorporação de energias renováveis para valores superiores a 60%, reduzindo significativamente o consumo de combustíveis fósseis e as respetivas emissões de gases com efeito de estufa.
Este projeto é uma referência dentro do universo Siemens e demonstra, na prática, como a tecnologia pode acelerar a transição energética em contextos reais e desafiantes. No setor das águas, outro caso de destaque é o projeto desenvolvido para a Empresa Portuguesa das Águas Livres (EPAL) e a Águas do Vale do Tejo (AdVT), que inclui a instalação de um centro de controlo de água, energia e monitorização de emissões de gases com efeito de estufa, único no país, e que permitirá medir, em tempo real e de forma mais rigorosa, os consumos de água e energia.
Olhando para os próximos dez anos e para as conclusões do Siemens Infrastructure Transition Monitor 2025, que mudança gostaria de ver acontecer em Portugal?
Nos próximos dez anos, gostaria de ver um país que soube aproveitar e potenciar as suas condições únicas, através da digitalização, da eletrificação e da inteligência artificial, para criar oportunidades reais e tornar-se mais competitivo, eficiente, resiliente e sustentável.
Gostaria de ver Portugal a assumir um papel mais ativo, e menos reativo, na transição energética, com capacidade de articular empresas, conhecimento, Governo e academia numa lógica de ecossistema, porque ninguém fará esta transformação sozinho. E gostaria que a Siemens continuasse a ser parte dessa história, como parceiro tecnológico de confiança, a desenvolver e a disponibilizar a tecnologia de que o país e o mundo precisam.
Redes elétricas, edifícios e fábricas estão a deixar de ser sistemas reativos para se tornarem sistemas inteligentes, capazes de se ‘auto-otimizar’
A inteligência artificial industrial está já a mostrar o caminho. Redes elétricas, edifícios e fábricas estão a deixar de ser sistemas reativos para se tornarem sistemas inteligentes, capazes de se “auto-otimizar”, reduzindo custos e emissões de forma concreta.
Na Siemens, estamos a combinar dados industriais, conhecimento especializado profundo e parcerias sólidas em IA para desenvolver soluções como o Gridscale X, plataforma que junta o planeamento, a operação e a manutenção de redes elétricas através de um gémeo digital, abrindo caminho para as redes autónomas, ou ainda o Building X, plataforma que centraliza a gestão operacional dos edifícios, permitindo decisões baseadas em dados para otimizar o consumo energético, o conforto dos ocupantes, a manutenção e a segurança.
Ambas fazem parte do universo Siemens Xcelerator e já demonstram resultados tangíveis, incluindo poupanças energéticas adicionais até 6,5% para os nossos clientes. O futuro que desejo para Portugal já está a acontecer.
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