O luxo barato em Portugal tem os dias contados

ECO Avenida,

Investidores e arquitetos debateram no ECO Luxury Summit se o país já deixou de ser o produtor barato da Europa. O consenso é que o salto está a acontecer, mas falta profissionalizar serviços e marcas

Portugal vai ficar mais caro. A frase, dita sem rodeios por António Ribeiro da Cunha, CEO da Mello RDC, resume o tom de um dos painéis mais discutidos do ECO Luxury Summit, dedicado ao imobiliário prime e ao turismo de luxo. Ao lado da arquiteta Diana Noronha Feio, managing partner da Openbook Studio, e João Freitas Fernandes, CEO da Villas, empresa do grupo MAP, o responsável da Mello RDC defendeu que o país precisa de deixar de ver essa subida de preços como ameaça e comparou Portugal à Califórnia: “Temos mais segurança que a Califórnia, come-se melhor do que lá”.

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Para Ribeiro da Cunha, a chave está na autenticidade e não na importação de marcas descontextualizadas, e critica os modelos de branded residences que associam nomes de marcas automóveis a empreendimentos sem ligação ao território. “Odeio este conceito. Vou buscar uma marca automóvel de segunda linha, espeto aquilo num prédio e tento vender isto a três desgraçados de uma fortuna recente. Acho isso tenebroso. O que temos de vender é Portugal, é a nossa arquitetura, a nossa história, a nossa qualidade construtiva”, defende.

Não se constrói verdadeiramente luxo em Portugal, ainda. Vendemos marcas, mas a qualidade da construção não reflete o valor da marca por trás dela

Diana Noronha Feio

Managing Partner da Openbook Studio

Diana Noronha Feio concorda que o salto de perceção já aconteceu, mas alerta para um risco que a arquitetura ainda não resolveu e que se prende com a qualidade da construção, que nem sempre acompanha o valor das marcas importadas. “Não se constrói verdadeiramente luxo em Portugal, ainda. Vendemos marcas, mas a qualidade da construção não reflete o valor da marca por trás dela”, considera, reconhecendo que a frase é polémica.

A especialista descreve ainda o dilema de contratar designers internacionais mesmo quando as equipas portuguesas têm competência para o fazer sozinhas. “Somos muito bons, somos supercompetentes, mas eu preciso de lá meter um nome, de lá pôr uma assinatura”. Como arquiteta, disse sentir esse peso apenas no fim da linha, quando o negócio já está fechado. “Depois temos de fazer milagres com poucos ovos”.

O painel moderado por André Veríssimo, subdiretor do ECO, contou com António Ribeiro da Cunha, CEO da Mello RDC, Diana Noronha Feio, Managing Partner da Openbook Studio, e João Freitas Fernandes, CEO da Villas

João Freitas Fernandes contraria parte do diagnóstico e acredita que Portugal constrói bem, mesmo em super luxo. Na Villas, a estratégia foge à lógica das construtoras orientadas para investidores, garante. “Ao contrário de todas as outras construtoras, que têm uma abordagem B2B, a Vilas posiciona-se no mercado para construir para o cliente final”.

Luxo não é só a qualidade dos chãos e do betão e do design. É tudo o resto. Viver não é só uma casa

António Ribeiro da Cunha

CEO da Mello RDC

Segundo o gestor, o comprador típico vem sobretudo dos Estados Unidos, do Brasil e da Rússia e faz contas rigorosas ao investimento total. “Eles sabem que vou gastar sete milhões só na construção e o lote já custou cinco. Se os orçamentos vierem oito ou nove, alguma coisa tem de mudar”. A proximidade, sublinha, é um dos elementos mais valorizados. “Perguntam sempre: se tiver um problema, falo contigo? E a resposta é sim”.

Tirar partido da tradição nacional

Ribeiro da Cunha defende ainda que a valorização do imobiliário prime tem margem acima da média europeia, se o país investir em saúde, bem-estar e desporto, e simplificar a burocracia. Como exemplo, aponta a perceção sobre um ginásio em Lisboa. “É impressionante a noção de valor que um cliente estrangeiro tem em pagar 120 euros por mês para estar no Parque Eduardo VII. Para um português, era um insulto”, aponta.

Imagino que, se houvesse dez pessoas perante uma situação de atrasos no licenciamento por burocracia, sete ou oito desistiriam

João Freitas Fernandes

CEO da Villas

Diana Noronha Feio distingue o residencial particular, como vilas isoladas, dos desenvolvimentos turísticos de grande escala, que considera fases distintas de maturação. No turismo, defende experiências ligadas a valores intangíveis e à autenticidade cultural do país: “O que Portugal tem é tradição, legado, herança, relações com significado. Isso posiciona-nos num mercado de luxo distinto”.

Sobre as alterações à lei da nacionalidade, João Freitas Fernandes diz que, para os clientes de maior património, o efeito do alargamento de cinco para dez anos no prazo para obter nacionalidade é reduzido, uma vez que se trata, sobretudo, de conveniência bancária. Admite, porém, maior risco na burocracia dos licenciamentos e cita um cliente que demorou três anos a comprar um terreno, por uma disputa de herança no Brasil, e mais três a licenciar o projeto. “Imagino que, se houvesse dez pessoas nesta situação, sete ou oito desistiriam”. Destaca, por isso, os loteamentos de luxo em Cascais, Algarve e Comporta como uma “via verde” para quem procura simplicidade.

Veja aqui o painel na íntegra:

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