Dívida portuguesa ganha vida própria à medida que BCE recua

Obrigações e Bilhetes do Tesouro estão a ser comprados e vendidos como nunca, com o volume diário a triplicar para 2.100 milhões de euros, num sinal de que Portugal está a conquistar os investidores.

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  • O Banco Central Europeu está a reduzir a sua presença na dívida pública portuguesa, permitindo que o mercado privado assuma um papel mais ativo.
  • A procura por obrigações e Bilhetes do Tesouro aumentou significativamente no último ano, com o volume médio diário de negociação a triplicar, refletindo com isso maior liquidez dos títulos no mercado secundário.
  • A dívida nacional, agora mais diversificada entre investidores privados, apresenta melhores condições de financiamento face há um ano, com spreads de crédito a comprimirem-se apesar da retirada do BCE.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

O Banco Central Europeu (BCE) começa a sair discretamente da dívida pública nacional, mas o mercado está a ocupar o espaço deixado livre com uma intensidade inédita.

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De acordo com dados do IGCP – Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública, tanto as obrigações do Tesouro (OT) como os Bilhetes do Tesouro (BT) registaram uma forte procura no ano passado no mercado secundário, encontrando mais compradores privados, nacionais e internacionais, numa combinação que está a tornar a dívida portuguesa mais líquida e menos dependente do apoio extraordinário da política monetária.

“Em 2025, as condições de liquidez no mercado de BT e OT continuaram a melhorar, evidenciadas pelo estreitamento dos bid‑offer spreads ao longo da curva e pelo aumento do volume transacionado”, refere o IGCP no relatório anual de 2025, publicado na terça-feira, dando nota de um forte aumento da negociação em mercado secundário e de uma descida do peso do Eurosistema no total da dívida do Estado.

De acordo com dados do IGCP, o montante médio diário negociado em dívida pública portuguesa mais do que triplicou no ano passado, passando de cerca de 700 milhões de euros em 2024 para 2.100 milhões de euros em 2025.

  • Nas obrigações do Tesouro, o volume médio diário foi multiplicado por 1,8 vezes, subindo de 426 milhões para 749 milhões de euros
  • Nos Bilhetes do Tesouro, o aumento da negociação diária foi ainda mais expressivo, passando de 282 milhões para 1.334 milhões de euros, traduzindo-se num incremento de 4,7 vezes.

O IGCP, liderado por Pedro Cabeços, nota que este movimento foi transversal aos diferentes canais de negociação, com destaque para o salto nas plataformas eletrónicas MTS, BrokerTec e BGC, cujo volume médio diário em obrigações do Tesouro mais do que triplicou, de 71 milhões para 224 milhões de euros.

A inclusão de Portugal no FTSE Russell World Government Bond Index no final de 2024 […] promoveu a diversificação da base de investidores e reforçou a procura por dívida pública portuguesa.

IGCP - Agência de Gestão da Tesouraria e da Dívida Pública

Relatório anual 2025

Em paralelo, o BCE foi reduzindo a sua presença nos títulos portugueses. Ao longo de 2025, “o BCE prosseguiu com a redução da carteira de títulos adquiridos no âmbito dos programas de compras de ativos […] não reinvestindo os montantes correspondentes aos títulos vencidos”, o que se traduziu numa diminuição de 51,5 mil milhões de euros na carteira de títulos detidos para fins de política monetária, destaca o IGCP.

Em termos de detentores da dívida pública, o relatório regista “uma redução do montante detido pelo Eurosistema que, em termos relativos, passou de 47% para 41%” do total de títulos emitidos pelo Estado. Significa que uma parte importante da dívida que antes estava nas contas do banco central está agora nas mãos de investidores privados, que compram e vendem esses títulos em mercado secundário.

A retirada gradual do BCE não travou a melhoria relativa das condições de financiamento de Portugal. Embora a taxa a dez anos tenha terminado o ano acima do nível inicial, o prémio exigido pelos investidores face à Alemanha diminuiu, refletindo uma compressão do risco de crédito português.

“A melhoria observada nas condições de financiamento da República, refletida na compressão dos spreads de crédito, no reforço da liquidez e no bom desempenho da curva de obrigações do Tesouro, resultou de vários fatores”, destaca o IGCP.

Entre estes fatores estão uma execução orçamental mais favorável do que a prevista, que reduziu as necessidades líquidas de financiamento, o reforço da qualidade creditícia da República — com o rating a alcançar o nível A em várias agências — e a presença regular e previsível do IGCP no mercado através de leilões e emissões sindicadas.

A dívida nacional está hoje mais exposta ao escrutínio dos mercados, mas também mais preparada para viver sem o apoio excecional do Banco Central Europeu.

Também ajudou uma maior visibilidade internacional dos títulos nos mercados internacionais. O IGCP lembra que “a inclusão de Portugal no FTSE Russell World Government Bond Index no final de 2024 […] promoveu a diversificação da base de investidores e reforçou a procura por dívida pública portuguesa”.

Essa maior procura por parte dos investidores tem permitido estreitar os diferenciais de juros face à Alemanha e mesmo face ao grupo de países semi‑core (Áustria, Bélgica e França), com o IGCP a sublinhar que, no final de 2025, a yield das obrigações portuguesas a 10 anos situava-se 19 pontos base abaixo da média desse agregado. Significa que os investidores exigem hoje um prémio de risco menor para financiar Portugal do que exigiam há poucos anos, apesar da retirada gradual da “rede de segurança” do BCE.

O IGCP nota ainda que a concentração do fluxo de obrigações do Tesouro entre os principais primary dealers diminuiu, com os cinco maiores operadores especializados a verem a sua quota de mercado cair de 59% para 53%, o que aponta para um mercado mais concorrencial e um sinal de menor concentração.

Ao mesmo tempo, as normas orientadoras para a gestão da dívida pública continuam a impor limites apertados ao risco de crédito das contrapartes e à exposição cambial, com o relatório a salientar que, no final de 2025, “a exposição a risco de crédito da carteira de derivados correspondia a 0,002% do valor da carteira ajustada”, muito abaixo do limite de 3%.

Os dados divulgados pelo IGCP apontam assim para que a dívida nacional esteja hoje mais exposta ao escrutínio dos mercados, mas também mais preparada para viver sem o apoio excecional do BCE.

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