Imobiliárias batem recordes de faturação com menos casas vendidas no primeiro semestre

Num semestre em que o número de transações de casas caiu 7,7%, as maiores redes imobiliárias transformaram menos vendas num aumento de 9% da faturação e de 5,6% do volume de negócios.

ECO Fast
  • As principais redes imobiliárias em Portugal registaram um aumento da faturação de quase 9% no primeiro semestre de 2026, apesar da queda de 7,7% nas transações de casas.
  • O mercado imobiliário enfrenta uma escassez de oferta, com preços a subir 18,6% em junho, refletindo a pressão de compradores estrangeiros e institucionais.
  • Sem um aumento significativo na oferta de imóveis, as redes que conseguirem atrair procura qualificada continuarão a liderar o setor, mantendo a faturação em alta.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

Menos casas vendidas, preços mais altos e faturação em subida. Foi assim que as maiores redes imobiliárias a operar em Portugal atravessaram os primeiros seis meses de 2026, num semestre em que a escassez de oferta e o maior peso de compradores estrangeiros e institucionais redesenharam o mapa da mediação imobiliária.

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Apesar de o mercado apresentar uma quebra homóloga de 7,7% nas transações de casas entre janeiro e junho, segundo dados do Confidencial Imobiliário, para 75.860 operações, as principais redes imobiliárias em Portugal conseguiram aumentar a faturação em 9% e o volume de negócios em cerca de 5,6%, de acordo com os valores reportados por cada rede ao ECO, com muitas a baterem, inclusive, recordes destes indicadores.

Porém, trata-se de uma dinâmica muito inferior à registada há um ano, no primeiro semestre de 2025, quando tanto a faturação como o volume de negócios dispararam, em termos homólogos, mais de 30%.

Apesar do travão na atividade, os preços mantiveram uma rota de forte subida. De acordo com o Índice de Preços Residenciais da Confidencial Imobiliário, a valorização homóloga das casas atingiu 18,6% em junho, reforçando a ideia de um mercado em que se vendem menos imóveis, mas por valores cada vez mais elevados.

Os dados do primeiro semestre espelham um mercado marcado por uma oferta limitada de casas e preços em máximos, que tornam cada casa vendida valer mais no balanço das mediadoras.

Esta combinação entre menos transações e preços em máximos ajuda a explicar porque a faturação das mediadoras continua a subir, mesmo num contexto de menor dinâmica nas escrituras. E é neste enquadramento que se destacam os resultados das quatro redes que aceitaram responder ao ECO – Remax, Era, Keller Williams e Zome –, todas com crescimento da atividade medida em euros, apesar de um mercado nacional em contração. A Century 21, apesar de contactada, decidiu não participar neste artigo.

  • A Zome foi a única a contrariar a tendência do mercado, ao aumentar em 11% o número de transações, de 5.012 para 5.563, ao mesmo tempo que elevou o volume de negócios em 10%, para 1.193,5 milhões de euros, e a faturação em 7%, para 26,75 milhões de euros. Carlos Santos, CEO da rede, sustenta que “uma descida das transações exige atenção, mas não justifica uma reação imediata de revisão de objetivos”, e acrescenta que “o mercado continua ativo e a procura não desapareceu, tornou-se mais seletiva e enfrenta uma oferta cada vez mais curta e cara”. O gestor insiste que “o modelo da Zome não assenta apenas no crescimento do número de transações” e que a resposta a um mercado mais exigente passa por “uma capacidade mais qualificada, mais produtiva e mais apoiada por tecnologia e dados”.
  • Na Keller Williams (KW), o semestre ficou marcado por um máximo histórico de faturação. A rede liderada por Nuno Ascensão somou 43 milhões de euros, mais 13,3% do que no período homólogo, naquele que é o melhor primeiro semestre de sempre da marca em Portugal, que se traduziu na distribuição de mais de 800 mil euros pelos consultores da rede ao abrigo do programa “Growth Share”, que reparte 2% de toda a faturação pelos seus associados. De acordo com os dados fornecidos pela imobiliária ao ECO, o número total de transações (compra, venda e arrendamento) manteve-se praticamente estável em cerca de 7.300 operações.
  • A Era também fechou o semestre em crescimento, apesar de o número de negócios ter descido 1,6%, de 6.400 para 6.300 operações. A faturação da rede liderada por Rui Torgal avançou para 63,2 milhões de euros e o volume de negócios subiu para 1.240 milhões de euros, enquanto as angariações cresceram 7%, para 19.040 imóveis. “Não confundiria uma eventual redução do número de transações com uma fragilidade do modelo de negócio”, salienta Rui torgal ao ECO, sublinhando ainda que o foco do problema “não é a falta de compradores” mas “a falta de oferta”. Para o gestor, há um indicador particularmente relevante neste comportamento: “As angariações cresceram 7%. É aí que hoje se ganha o mercado”, diz, sublinhando que no primeiro semestre a Era cresceu 6% em faturação e 5,8% em volume de negócios, apesar de ter “realizado um número de transações praticamente idêntico ao do ano passado”.
  • A Remax não divulga o número total de transações, mas reportou um crescimento homólogo de 3,7% do volume de negócios para 4.217 milhões de euros, com um preço médio dos imóveis vendidos a subir para 239.900 euros, face aos 213.500 euros no mesmo período do ano anterior. Manuel Alvarez, presidente da Remax Portugal, afirma que o modelo da rede mantém “uma elevada capacidade de adaptação aos diferentes ciclos do mercado”. O responsável da maior rede imobiliária do país acrescenta que a Remax teve “o melhor primeiro semestre de sempre da rede e o melhor segundo trimestre de sempre”. Sobre a produtividade, refere que “o volume médio de transação aumentou cerca de 10% no primeiro semestre deste ano face ao homólogo, mas isso não significou que a faturação estivesse mais concentrada num menor número de consultores ou de agências”.

Peso externo sobe com oferta curta

Além da subida do preço dos imóveis, o comportamento dos compradores estrangeiros e dos investidores institucionais ajuda a explicar parte da divergência entre menos transações e mais negócio gerado pelas redes.

Segundo o INE, no primeiro trimestre de 2026 os compradores com domicílio fiscal no estrangeiro pagaram, em termos medianos, mais 29,7% por metro quadrado do que os compradores nacionais, diferença que sobe para 34,5% na Grande Lisboa e para 24,5% no Algarve.

O mesmo retrato mostra um ganho de peso das empresas no mercado da habitação, com as entidades financeiras e não financeiras a pagarem 2.142 euros por metro quadrado em valores medianos, mais 33,8% do que um ano antes.

Estes dados ajudam a perceber por que razão a retração das transações não travou a subida do volume de negócios mediado nem a evolução das comissões. Ainda assim, as redes descrevem realidades distintas.

  • Na Era, cerca de 85% dos registos de compra de casa realizados através da rede no primeiro semestre corresponderam a compradores portugueses, um aumento de 5% face ao período homólogo, levando Rui Torgal a afirmar que “há uma tendência para sobrevalorizar o peso dos compradores estrangeiros no mercado da habitação”. O CEO da Era acrescenta que “a procura internacional mantém um peso relevante, representando cerca de 15% dos nossos clientes” e insiste que “o verdadeiro fator que continua a determinar a evolução dos preços é a escassez de oferta”.
  • Na KW, a leitura é menos expansiva quanto ao investimento internacional. Nuno Ascensão sustenta que tem observado “uma redução do investimento estrangeiro em Portugal” e que a rede da KW “não é imune a esse movimento”. Ainda assim, nota que “a nacionalidade que mais continua a comprar em Portugal é o Brasil” e assinala que, no segmento de luxo, “não sentimos, nem antecipamos, qualquer quebra”.
  • A Zome enquadra esta evolução com uma leitura centrada na acessibilidade e na segmentação geográfica. Carlos Santos sublinha que a procura externa “mantém-se relevante” no Algarve, em Lisboa, no Porto e em mercados costeiros, com maior expressão nos segmentos médio-alto e premium. O gestor acrescenta que “o preço mediano por metro quadrado pago por compradores com domicílio fiscal no estrangeiro superou o dos compradores com domicílio fiscal em Portugal em 34,5% na Grande Lisboa e em 16,9% na Área Metropolitana do Porto” e conclui que “Portugal continua competitivo para determinados perfis de comprador internacional, enquanto as famílias portuguesas enfrentam limitações crescentes de acessibilidade à habitação”.
  • Na Remax, os clientes estrangeiros representaram cerca de 20% dos resultados da rede no primeiro semestre. Estiveram presentes em 22,1% das transações e em 18,32% da faturação, percentagens próximas das verificadas no mesmo período do ano passado. Manuel Alvarez detalha que “o destaque vai, naturalmente, para os clientes brasileiros (7,63%), angolanos (1,79%), norte-americanos (1,39%), franceses (0,79%) e ucranianos (0,78%)”. Nos segmentos médio-alto e de luxo, acrescenta, sobressaem clientes norte-americanos, ingleses, franceses e chineses, “mas também brasileiros que ocuparam a segunda posição neste segmento em termos de transações”.

Os dados do primeiro semestre espelham mais uma vez um mercado com uma dinâmica marcada por uma oferta limitada de casas e preços em máximos, que fazem cada casa vendida valer mais no balanço das mediadoras.

Sem um reforço duradouro do número de imóveis disponíveis, serão as redes que conseguem angariar mais produto e atrair procura qualificada, portuguesa e estrangeira, a impor o ritmo a um setor que mantém a faturação em alta apesar do abrandamento do número de transações.

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