Quem é Maurício Ribeiro, o principal acionista do Conta Lá?

Rafael Correia,

Com um percurso empresarial nas áreas da fotografia e da produção audiovisual, Maurício Ribeiro ocupa desde fevereiro de 2025 o cargo de COO do Conta Lá.

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A assembleia-geral de acionistas do Conta Lá, marcada para esta quinta-feira, 6 de agosto, ditará o futuro do projeto televisivo com a votação de uma nova Comissão de Gestão, um plano de reestruturação e a eventual entrada de novos acionistas. Na estrutura atual de capital, a maior participação no projeto pertence à sociedade de Maurício Ribeiro, produtor e empresário ligado ao setor audiovisual.

O Conta Lá é atualmente detido em 67,3% pela Baú D’Iniciativas – Unipessoal, cujas quotas se dividem entre Maurício José Valente Ribeiro (95%) — que assume também o cargo de Chief Operating Officer (COO) — e Cristina Maria Bouça Pereira (5%). Os restantes 28,8% pertencem à Plataforma Coerente, sociedade detida em 70% por Sérgio Figueiredo (que abandona o projeto) e em 30% pela ex-jornalista e sua companheira Margarida Pinto Correia.

Se Sérgio Figueiredo é uma figura reconhecida do meio mediático pelo seu percurso na direção de informação da TVI e não só, Maurício Ribeiro desenvolveu a sua atividade profissional nas áreas da fotografia e da produção audiovisual.

Maurício Ribeiro iniciou-se no setor da fotografia institucional e comercial. No seu blogue pessoal, o produtor — que assume o nome artístico Rosiel D’Assumpção — descreve o seu currículo afirmando que “foi fotógrafo da Unicef nos anos 90”, “esteve como fotógrafo das Nações Unidas” no início dos anos 2000 e “foi também fotógrafo oficial de Durão Barroso e do embaixador António Martins da Cruz” e assumiu o cargo de “diretor de fotografia num grupo de media em Angola”.

A 16 de fevereiro de 2001, assumiu a gerência da Formato 6×6 — Fotografia Profissional, Lda., cargo que ocupou até apresentar renúncia a 28 de novembro de 2005. Em novembro de 2007, foi requerida a insolvência da empresa num processo apresentado por Paulo Filipe Alves Carlos, então administrador.

Em 2011, Maurício Ribeiro fundou em Barcelona a Loft Works Editorial Design SL (onde segundo o seu LinkedIn exerceu a direção executiva até 2014), sociedade que teve como sócio Casimir Oriol, empresário catalão casado com Maria do Carmo Marques Pinto, então diretora do Departamento de Empreendedorismo da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

Em agosto de 2015, o jornal Público noticiou a apresentação de uma queixa-crime por parte da SCML no DIAP contra a ex-diretora, relacionada com contratos celebrados para projetos do Banco de Inovação Social e do United At Work, no valor de cerca de 150 mil euros. O marido da ex-diretora, o advogado e empresário Casimir Oriol, era sócio das empresas contratadas, sendo a principal a Loft Works Editorial Design SL.

As três empresas envolvidas, todas com sede em Barcelona, eram representadas por Maurício Ribeiro. Segundo a versão da SCML divulgada na altura, a instituição alegava ter pago 91.300 euros por produtos audiovisuais que não teriam sido entregues.

Em resposta ao Público, a ex-diretora alegou desconhecer que Maurício Ribeiro era sócio das empresas do seu marido e que se limitou a propor à Mesa da Misericórdia a sua contratação, enquanto Maurício Ribeiro contrariou essa versão, afirmando que os contratos tinham sido combinados entre a ex-diretora e o marido.

De acordo com dados consultados pelo +M no Portal Base, foram formalizados, pelo menos, contratos de 18.500 euros e 14.000 euros com a Loft Works, além de 29.000 euros com a Rosiel Photo constituída em 2013 e de 33 mil euros com a Televisión Long Reproductions Productions, S.L — em que renunciou ao cargo de administrador único em 2015.

Maurício Ribeiro desenvolveu também atividade na produção televisiva e cinematográfica. Segundo o IMDb, conta com dez créditos como produtor entre 2015 e 2022, incluindo o telefilme A Voz e os Ouvidos do MFA (2017) e a curta O Coração Revelador (2018).

Na produção televisiva, esteve ligado à Just Up (que operou igualmente sob a marca Just Cine), produtora responsável pelos episódios 17 a 21 da série “Ministério do Tempo”, emitida pela RTP1 em 2017. Durante a produção da segunda temporada de “Ministério do Tempo”, a Just Up enfrentou problemas relacionados com pagamentos em atraso a elementos das equipas técnicas, incluindo atores, situação que levou à interrupção das gravações. A temporada acabou por não ser concluída.

Segundo noticiou o Correio da Manhã em 2018, a produtora ficou com dívidas próximas de dois milhões de euros associadas à série, sobretudo perante bancos e a Veralia, empresa espanhola detentora dos direitos da ficção.

Na sequência destes acontecimentos, o então administrador da produtora, Luís Valente, acusou publicamente Maurício Ribeiro de alegados desvios de verbas destinadas às equipas, acusações que este rejeitou. O produtor afirmou ao mesmo jornal que “nunca” teve acesso às contas e que tinha sido “afastado da Just Up por não concordar com a gestão que estava a ser feita”.

Mais tarde, Luís Valente acusou-o ainda de alegada “falsificação de dezenas de contratos” e de assinaturas de dois dos administradores da RTP na altura — Nuno Artur Silva e Cristina Vaz Tomé –em acordos com a Just Cine, empresa que esteve na origem da Just Up. “Nunca fiz estes contratos. De todo. E nunca tive qualquer benefício destes contratos. Nem eu, nem a Just Cine, nem a Just Up“, contrapôs em resposta ao CM, na altura, tendo-se constituído assistente do processo de investigação, juntamente com a RTP, já que o seu nome estava envolvido nos contratos.

Em 2018, surgiu um novo diferendo relacionado com o documentário “Debaixo do Céu”. Luís Valente afirmou que a obra tinha sido retirada das instalações da Just Up sem autorização e que a empresa tinha suportado cerca de 50 mil euros em custos de produção. Maurício Ribeiro rejeitou essa versão, afirmando que a MVR Produções suportou os custos de conclusão do filme e que “todas as despesas estão documentadas”, sendo que nem ele nem a empresa produtora Ukbar Filmes deviam dinheiro à Just Up.

Em 2020, num direito de resposta, Maurício Ribeiro contestou referências que o associavam a desvios de dinheiro e burla, afirmando que “nunca foi mais que trabalhador da Just Up Produções Audiovisuais S.A”. “Se é falso, assim, que o produtor Maurício Valente Ribeiro tenha sido acusado do desvio de quaisquer montantes de uma empresa da qual era um mero trabalhador, é consequentemente igualmente falso que o mesmo tenha sido acusado de qualquer crime, e muito menos de burla”, pode ler-se.

A Just Up entrou num processo de insolvência em 2018 (Processo 1739/18.0T8STR no Tribunal de Comércio de Santarém). O processo foi encerrado em 2023 por insuficiência da massa insolvente, figurando o próprio Maurício Ribeiro na lista de credores.

Entre janeiro de 2017 e fevereiro de 2025, o produtor concentrou a sua atividade na Mau Mau Mia Produções Unipessoal, Lda. A empresa esteve por trás do regresso do projeto Contra Informação — sob as marcas “Do Contra” e “O Contra”, no SAPO/MEO, com argumentos de João Quadros e José de Pina –, de programas como Ó da Casa para o Casa e Cozinha e de várias obras cinematográficas.

Os registos do Portal Base indicam que a Mau Mau Mia obteve um total de 1,07 milhões de euros em adjudicações públicas ao longo de 45 contratos. Já em 2025, a empresa assinou contratos no valor de 169,9 mil euros com a Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária e com a Comunidade Intermunicipal do Douro.

Em outubro de 2025, a Mau Mau Mia Produções passou a ser uma sociedade unipessoal por quotas, tendo a totalidade do capital social (180 mil euros) ficado titulada pela Conta Lá.

Maurício Ribeiro é atualmente o principal acionista do Conta Lá e exerce as funções de COO da empresa, integrando a Comissão Executiva demissionária. O projeto aguarda as decisões da assembleia-geral marcada para 6 de agosto, numa altura em que enfrenta salários em atraso e procura uma solução de reestruturação.

Sei que o atraso no pagamento de salários e de outros créditos tem um impacto muito real na vida de cada um de vós e das vossas famílias. Não há palavras que eliminem essa preocupação, mas é importante que saibam que ela não me é indiferente”, referia o também membro da Comissão Executiva demissionária, na missiva enviada e que a Lusa teve acesso no final do mês de julho.

O responsável informava ainda que estava “a ser trabalhada uma solução que possa assegurar a viabilidade do projeto, mas o desfecho desse processo dependerá da assembleia-geral de acionistas, agendada para o próximo dia 6 de agosto”.

Portanto, até essa data, “infelizmente, não terei condições para transmitir novidades concretas relativamente ao pagamento dos salários e dos restantes créditos em atraso”. A assembleia-geral desta quinta-feira decidirá os próximos passos do Conta Lá.

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