‘Match point’ em Roland-Garros: quem vai a jogo no primeiro debate da corrida ao Eliseu?
Roland-Garros recebe o primeiro debate das presidenciais francesas. Sete candidatos debatem perante 20 mil empresários que França, e economia, querem no pós-Macron.

A corrida à sucessão de Emmanuel Macron está a mexer com a vida política francesa e promete ter repercussões na Europa. É perante este cenário que todas as atenções estarão centradas, esta quinta-feira, no “coração” de Roland-Garros, em Paris, onde terá lugar o primeiro debate das eleições francesas de 2027. E com uma particularidade: antes de se confrontarem diretamente numa troca de ideias políticas clássica, os candidatos ao Palácio do Eliseu vão ser chamados a responder às inquietações dos empresários franceses.
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Quando faltam menos de oito meses para as presidenciais do próximo ano, o primeiro grande teste (não oficial) da campanha está marcado para a tarde desta quinta-feira, dia 27 de agosto, no court Philippe-Chatrier, o principal campo do histórico recinto de ténis Roland-Garros. Será transmitido pela LCI, nove anos depois de 11 candidatos terem debatido, em horário nobre, nos estúdios da CNews e da BFMTV.
O calendário eleitoral para as presidenciais — cuja primeira e segunda voltas estão agendadas para 18 de abril e 2 de maio de 2027, respetivamente — começa, assim, a ganhar ritmo. Desta vez, porém, com o ponto de partida a ser dado perante empresários, num momento em que as contas públicas da segunda maior economia da Zona Euro continuam a pesar sobre qualquer discussão acerca do futuro económico do país.
Organizado no âmbito da Universidade de Verão do Mouvement des Entreprises de France (MEDEF), a maior federação patronal francesa, o debate não será um confronto tradicional entre programas eleitorais. Os sete candidatos com presença confirmada vão ter de reagir aos resultados de um estudo realizado pelo MEDEF, em colaboração com a empresa de sondagens OpinionWay, que reuniu 66 mil respostas de dirigentes empresariais. São esperados cerca de 20 mil empresários na plateia, o que significa que serão, simultaneamente, público e interlocutor dos candidatos.
Os sete candidatos com presença confirmada vão ter de reagir aos resultados de um estudo realizado pelo MEDEF, em colaboração com a empresa de sondagens OpinionWay, que reuniu 66 mil respostas de dirigentes empresariais.
Entre os principais temas que deverão estar em discussão constam a competitividade das empresas, o emprego, a fiscalidade e a transição ecológica, questões que assumem particular destaque em França, onde a carga fiscal e a necessidade de controlar as despesas prometem estar entre os assuntos mais delicados da campanha presidencial.
Depois de eleito em 2017 e reeleito em 2022, Emmanuel Macron está de fora da corrida às presidenciais do próximo ano, uma vez que atingiu o limite de renovações do mandato. As eleições presidenciais do próximo ano serão, assim, as primeiras desde 2012 em que o atual inquilino do Eliseu não se apresenta a jogo.
Sete candidatos num país à procura de rumo na economia
A lista de participantes está longe de representar todos os nomes que já se colocaram na corrida. Segundo o jornal Le Nouvel Obs, já há 29 candidatos autodeclarados às eleições do próximo ano, mas, no court Philippe-Chatrier, estarão apenas sete:
- Jean-Luc Mélenchon, do partido de esquerda radical França Insubmissa;
- Bruno Retailleau, senador e presidente d’Os Republicanos (direita republicana);
- Gabriel Attal, do partido Renascimento, fundado por Macron e que se apresenta como o centro progressista;
- Marine Le Pen, do Reagrupamento Nacional (direita radical populista);
- Marine Tondelier, líder do partido Os Ecologistas;
- O ex-primeiro-ministro Édouard Philippe, do Horizons (centro-direita);
- Raphaël Glucksmann, eurodeputado do Place Publique (centro-esquerda).
Face à diversidade ideológica dos participantes, o debate promete ser uma fotografia das “fraturas” que vão marcar esta eleição. Porém, não obstante as diferenças políticas entre si, há uma realidade que todos terão de enfrentar: a situação delicada das finanças públicas francesas.
Os dados mais recentes do INSEE, o órgão oficial de estatísticas em França, mostram que o défice orçamental ascendeu a 152,5 mil milhões de euros em 2025, o equivalente a 5,1% do Produto Interno Bruto (PIB). Embora represente uma melhoria face aos 5,8% registados em 2024 e aos 5,4% de 2023, mantém-se como o segundo país da Zona Euro com o défice mais elevado, apenas superado pela Bélgica, além de permanecer significativamente acima do limite de 3% estipulado pelas regras orçamentais europeias — o que levou Bruxelas, em 2024, a colocar França sob Procedimento de Défice Excessivo (PDE).
A melhoria do saldo no último ano resultou, em parte, do crescimento das receitas públicas. Estas aumentaram 3,9%, contra 3,2% em 2024. Ao mesmo tempo, a despesa pública cresceu 2,5% em termos nominais, abaixo dos 4% registados no ano anterior. Ainda assim, o peso da despesa sobre a economia gaulesa manteve-se elevado: representou 57,2% do PIB, contra 57% em 2024.
Também a pressão fiscal aumentou. A taxa de impostos e contribuições obrigatórias subiu de 42,8% do PIB em 2024 para 43,6% do PIB em 2025. Um dado que dificilmente é excluído da análise dos patrões franceses, para os quais a competitividade e a fiscalidade são centrais.
Outro número que dificilmente ficará fora da campanha eleitoral é a dívida pública, que atingiu 115,6% do PIB no final de 2025, contra 112,6% um ano antes, um nível bastante acima do limite de 60% do PIB recomendado por Bruxelas. Relatórios independentes encomendados pelo Governo francês e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) estimam que, se não houver cortes drásticos na despesa pública, a dívida francesa irá atingir os 130% do PIB até 2030, arriscando ultrapassar a Itália e a Grécia em termos de rácio de endividamento na próxima década.
Para uns candidatos, este quadro financeiro poderá servir de argumento para defender uma redução da despesa e da carga fiscal; para outros, será sobretudo o ponto de partida para discutir o nível de investimento e o estado dos serviços públicos. Certo é que, para todos, representa uma das questões mais difíceis para quem suceder a Macron: como financiar as prioridades do país sem deteriorar ainda mais as contas públicas, ao mesmo tempo que o investimento em defesa exige esforços adicionais.
À frente das sondagens está Marine Le Pen, líder do Rassemblement National, que oficializou a candidatura depois da condenação por utilização indevida de fundos da União Europeia, da qual vai recorrer da sentença. No centro, concorrem os ex-primeiros-ministros Édouard Philippe e Gabriel Attal, enquanto na direita tradicional o ex-ministro do Interior Bruno Retailleau foi designado candidato pelo seu partido.
À esquerda, além de Mélenchon, o ex-presidente socialista François Hollande — que liderou os destinos franceses entre 2012 e 2017 — não é oficialmente candidato, mas é apontado pelos meios de comunicação locais como uma eventual alternativa caso Glucksmann perca margem nas sondagens.
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