Carris vai lançar concurso público internacional para reconstrução do Ascensor da Glória em 2027
"O futuro ascensor será novo, mas o lugar continuará histórico", garantiu esta segunda-feira o presidente do conselho de administração da Carris, Rui Lopo, em conferência de imprensa.

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A Carris vai lançar no primeiro trimestre de 2027 um concurso público internacional para a reconstrução do Ascensor da Glória, anunciou o CEO da empresa, Rui Lopo, esta segunda-feira, quase um ano depois do acidente que vitimou 16 pessoas. A inauguração está pensada para 2029.
Segurança foi uma das palavras mais repetidas ao longo da conferência de imprensa no auditório da Ordem dos Engenheiros. “É uma solução que procura respeitar a identidade e a história, mas procura dotá-la de soluções de segurança”, referiu Rui Lopo. “Será uma nova instalação, não é uma reconstrução. Já não podemos ter um equipamento histórico, estamos perante uma solução nova, que tem de ser absolutamente segura. Mantemos a Calçada da Glória – o futuro ascensor será novo, mas o lugar continuará histórico”. E, acrescenta, “deverá proporcionar uma experiência adequada aos passageiros, respeitando critério contemporâneos”.

A equipa de trabalho vai começar a trabalhar no caderno de encargos para a construção do novo Ascensor da Glória e para a requalificação da Calçada da Glória, projeto para o qual foi convidado o arquiteto Ricardo Bak Gordon, autor. entre outros, do projeto do Museu dos Coches com o brasileiro Paulo Mendes da Rocha.
Gonçalo Reis, vice-presidente da câmara municipal de Lisboa, acionista único da Carris, diz que a empresa “tem de encontrar uma solução robusta ao nível das melhores práticas do mundo de segurança”. “Queremos uma solução forte em termos de transportes, mas que revitalize o espaço público e uma solução moderna e tecnológica que, em paralelo, respeite a personalidade do Elevador da Glória”, salientou. O responsável acrescentou ainda que querem “um processo exemplar”, através do “concurso público internacional que assegure participação”.
Nem vice-presidente da câmara de Lisboa nem CEO da Carris avançaram com valores para este projeto.
Luís Gonçalves, arquiteto da Carris, avançou com a data de 2029 para a inauguração do novo Ascensor da Glória, sublinhando que “estas datas estão sempre sujeitas a situações de conflitualidade e a outra questão tem que ver com a arqueologia”.

A área de intervenção na Calçada da Glória vai da rua de São Pedro de Alcântara, na zona alta da cidade, e termina junto aos Restauradores, na zona baixa. “Gostava de lembrar a importância da Calçada da Glória enquanto espaço público. Se recuarmos 400 anos, já havia uma vereda que era objeto de atravessamento”, afirmou. “É ele, juntamente com o equipamento, que faz o lugar público. O grande assunto é a identidade do lugar, temos de assegurar que ela lá está e não depende exclusivamente daquele transporte mecânico”, referiu. O Ascensor da Glória e a zona envolvente são monumento nacional. Munidos de fotos históricas, Bak Gordon mostrou como a carruagem do ascensor foi mudando ao longo do tempo. O arquiteto pretende reabilitar o Chafariz da Glória, de 1754, e a iluminação, já tão histórica quanto o elevador. Bak Gordon acrescentou que os grandes acidentes “são oportunidades para olhar para o futuro”. “Sem isto não teríamos oportunidade de renovar e valorizar o espaço público”, disse.
“Não sabemos como é a carruagem do futuro, mas se encontrássemos a mesma seria um pastiche. Ainda não sabemos como vai ser, mas sabemos que não vai ser a mesma coisa”, sublinhou o arquiteto. Remata Rui Lopo: “Não podia ser regressar ao passado, mas construir uma solução mais robusta. É mais do que um simples meio de transporte, faz parte da memória de muitas pessoas e da cidade. É o que queremos preservar, sem ficar parado no tempo”.
Um ano depois da tragédia

O acidente com o Elevador da Glória, do qual resultaram 16 vítimas mortais, aconteceu a 3 de setembro de 2025. Uma semana após a tragédia, o município de Lisboa nomeou uma equipa para o desenvolvimento de um “novo sistema tecnológico” do elevador, constituída por técnicos da Ordem dos Engenheiros, do Laboratório Nacional de Engenharia Civil (LNEC) e do Instituto Superior Técnico (IST).
Entre esses técnicos, estão João Godinho Viegas, diretor do Centro de Instrumentação Científica e Tecnologias de Informação do LNEC, e Jorge Ambrósio, professor de Biomecânica do Movimento no IST. A equipa ficou completa com Luís Oliveira Santos, diretor do Departamento de Estruturas do LNEC, Manuel Tender, coordenador do grupo de Segurança no Trabalho da Ordem dos Engenheiros, e Ricardo da Cunha Reis, presidente do Colégio de Engenharia e Qualidade da Ordem dos Engenheiros.
No final de junho, numa reunião entre os vereadores da oposição e a administração da Carris, a empresa responsável pelo elevador da Glória revelou que pretende alterar integralmente aquele equipamento, bem como o do Lavra, para um sistema atual e certificado, abandonando os funiculares históricos centenários de Lisboa, conforme noticiou a Lusa na ocasião.
Naquele mesmo encontro, o presidente da Carris, Rui Lopo, que assumiu o cargo em janeiro, falou também com os vereadores sobre o “futuro sem elevadores classificados e informou que a cidade vai ficar muitos anos sem os seus elevadores a funcionar”, sem avançar prazo para a sua reabertura.
O Gabinete de Prevenção e Investigação de Acidentes com Aeronaves e de Acidentes Ferroviários (GPIAAF) informou, entretanto, que o relatório final sobre o acidente não ficará concluído em setembro, como previsto, devido à complexidade das peritagens técnicas, prevendo-se agora a publicação até “final do primeiro trimestre de 2027”.
Já esta quinta-feira, a Fidelidade avançou que “assumiu a responsabilidade pelo reembolso, de aproximadamente 2,3 milhões de euros em despesas relacionadas com o acidente, incluindo além dos acordos indemnizatórios já alcançados, serviços funerários, repatriamentos, consultas, tratamentos, internamentos, intervenções cirúrgicas, reabilitação, transportes, salários perdidos, entre outros”.
A seguradora informou igualmente que, até à data, concluiu acordos de indemnização com quatro famílias e estão atualmente em negociação sete processos.
Esta sexta-feira soube-se que a Carris terminou todos os contratos com a MNTC, a empresa responsável pela manutenção do Elevador da Glória quando ocorreu o acidente de 3 de setembro de 2025. Esta empresa prestava serviços à transportadora desde 2017.
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