Calçado português lança nova ofensiva comercial para reforçar presença nos EUA
Ação em Nova Iorque, agendada para dezembro, estará focada em “aproximar diretamente" as empresas nacionais de compradores, distribuidores e retalhistas norte-americanos.
O calçado português vai lançar uma nova ofensiva comercial nos Estados Unidos, mercado para onde Portugal exportou 84 milhões de euros em 2025, mas cuja importância a associação setorial considera justificar “uma presença muito mais forte”.
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“Os Estados Unidos são demasiado importantes para que a indústria portuguesa de calçado não tenha uma presença muito mais forte neste mercado”, defendeu o diretor executivo da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS), Paulo Gonçalves, em declarações à agência Lusa.
Neste sentido, avançou, a indústria portuguesa de calçado, que no ano passado superou Espanha no fabrico, com o preço médio na exportação a subir 2,5%, como o ECO noticiou em primeira mão, vai promover uma ação em Nova Iorque focada em “aproximar diretamente as empresas nacionais de compradores, distribuidores e retalhistas norte-americanos”.
Denominada “Portuguese Shoes Showcase New York”, a iniciativa irá decorrer a 1 e 2 de dezembro, coincidindo com a FFANY Market Week, e apresenta-se como “um programa de entrada no mercado norte-americano e não apenas como uma exposição de produto”.
Segundo os dados da World Footwear citados pela APICCAPS, em 2025 Portugal exportou para os Estados Unidos 1,8 milhões de pares de calçado, no valor de 84 milhões de euros, mas a associação considera existir “margem para elevar significativamente estes números”.
“Temos produto, qualidade, ‘design’, capacidade industrial e uma produção responsável. Temos todos os argumentos para vender mais nos Estados Unidos. O desafio agora é aproximar as nossas empresas dos compradores certos e transformar essa capacidade em negócio”, sustenta Paulo Gonçalves.
Temos produto, qualidade, ‘design’, capacidade industrial e uma produção responsável. Temos todos os argumentos para vender mais nos Estados Unidos.
A APICCAPS destaca que o mercado norte-americano atravessa “um momento particularmente interessante” para marcas diferenciadas, sendo o elevado poder de compra dos consumidores e o interesse por marcas europeias associadas à qualidade e sustentabilidade “fatores favoráveis às empresas portuguesas”.
“Não queremos simplesmente levar sapatos portugueses para Nova Iorque. Queremos levar empresas preparadas para fazer negócios nos Estados Unidos”, salienta o diretor executivo da associação.
Assim, a iniciativa agendada para dezembro foi desenhada em torno de um ‘showcase’ coletivo das marcas portuguesas, complementado por relações públicas, comunicação na imprensa especializada, reuniões B2B [‘business to business’], mentoria personalizada e desenvolvimento comercial.
Conforme explica a associação, este modelo distingue-se da participação tradicional numa feira já que, “em vez de esperar que sejam os compradores a descobrir as empresas, pretende identificar previamente potenciais clientes e criar condições para a realização de contactos comerciais”.
“O modelo tradicional de chegar a um evento, montar um expositor e esperar que o comprador apareça já não chega. Temos de identificar quem queremos encontrar, preparar as empresas e criar as condições para que as reuniões aconteçam”, explica Paulo Gonçalves.
Desta forma, cada empresa terá um acompanhamento individual para definir o posicionamento nos Estados Unidos, escolher os canais de distribuição mais adequados, preparar o discurso comercial e selecionar os compradores a contactar. O programa prevê ainda acompanhamento após o evento.

A escolha de Nova Iorque coincide com a realização da FFANY Market Week, período em que estão na cidade compradores de ‘department stores’, ‘boutiques premium’, retalhistas e distribuidores à procura de novas coleções e fornecedores, acreditando a APICCAPS que Portugal tem ali uma oportunidade para se posicionar nos segmentos de maior valor acrescentado.
“Portugal não vai conquistar os Estados Unidos pelo preço e não é esse o nosso caminho. Temos de competir pela qualidade, pelo design, pela flexibilidade, pela sustentabilidade e pela capacidade de produzir na Europa. É aí que reside o valor do calçado português”, enfatiza o diretor executivo.
No que toca ao mercado interno, os portugueses compram mais de seis pares de calçado por ano e ‘preferem’ baixo preço. O consumo de calçado no mercado português aumentou 1,4% para um total de 73 milhões de pares em 2025, com o preço médio dos artigos importados a ser metade daquele que segue para exportação.
Mercado dos EUA que vale mais de 100 mil milhões
Os consumidores dos EUA, onde o calçado português vai lançar esta nova ofensiva comercial, gastaram 121.000 milhões de dólares (103.000 milhões de euros) em calçado em 2025, destacando-se o país como o maior importador mundial.
Segundo dados da Footwear Distributors & Retailers of America (FDRA), divulgados pela associação para evidenciar o potencial do mercado de calçado dos Estados Unidos, apenas cerca de 25 milhões dos pares de sapatos consumidos em 2025 foram produzidos no país, enquanto as importações ascenderam a aproximadamente 2.015 milhões de pares.
“Por cada par de calçado produzido no país foram, assim, importados cerca de 81 pares”, salienta a associação que representa a indústria portuguesa, que viu as exportações caírem 2,1% na primeira metade deste ano.
De acordo com os dados da World Footwear, os Estados Unidos importam anualmente perto de 2.000 milhões de pares de calçado, no valor de cerca de 26.900 milhões de dólares (cerca de 23.234 milhões de euros).
Com as importações a representarem uma média de seis pares por habitante em 2025, a APICCAPS destaca “a importância do abastecimento externo naquele que é um dos maiores mercados mundiais para as marcas e fabricantes de calçado”, já que a produção doméstica representa apenas uma pequena parcela das necessidades.
“A dimensão da despesa, que ultrapassou os 120.000 milhões de dólares num único ano, torna o mercado norte-americano particularmente relevante para os países produtores e exportadores, apesar das alterações na política comercial dos Estados Unidos e do impacto das tarifas sobre os produtos importados”, enfatiza.
De acordo com dados da FDRA, a indústria e o comércio de calçado asseguram aproximadamente 237.000 postos de trabalho nos Estados Unidos, existindo em 2024 apenas 197 fábricas de calçado no país, empregando diretamente 9.240 trabalhadores, sendo que 55,8% destas unidades tinham menos de 10 funcionários.
A FDRA, liderada por Matt Priest, representa fabricantes, marcas, distribuidores, importadores e retalhistas e estima que as empresas suas associadas sejam responsáveis por 98% das vendas de calçado nos Estados Unidos.
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