EUA abrandam e França recua. Capacidade aérea e preços pressionam turismo em Lisboa

Estados Unidos abrandam após anos de forte crescimento e França mantém trajetória de queda. Capacidade aérea, preços mais altos e menor poder de compra das famílias pressionam sobretudo a capital.

ECO Fast
  • A quebra nas dormidas de turistas norte-americanos e franceses em julho revela um abrandamento no mercado dos EUA e uma queda persistente na França, refletindo diferentes realidades económicas.
  • Enquanto o mercado norte-americano ainda apresenta um crescimento acumulado de 3,4% até julho, o francês enfrenta uma descida de 8% no mesmo período, evidenciando a pressão sobre a Grande Lisboa.
  • A combinação de menor capacidade aérea, preços elevados e uma situação económica desfavorável para os franceses dificulta a recuperação deste mercado, com implicações para o turismo em Portugal.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.

A quebra das dormidas de turistas norte-americanos e franceses em julho esconde duas realidades distintas. Enquanto o mercado dos Estados Unidos abranda depois de vários anos de forte crescimento, a França mantém uma trajetória de queda, num contexto de menor poder de compra, preços mais elevados, menor conectividade aérea e maior concorrência de outros destinos. A Grande Lisboa surge como o principal ponto de pressão, por concentrar uma parte significativa da procura por parte destes dois mercados.

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“Os turistas vão onde há capacidade aérea”. É assim que Cristina Siza Vieira, CEO e vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal (AHP), resume um dos principais constrangimentos identificados pelo setor, numa altura em que a Grande Lisboa concentra a pressão dos dois mercados de origem dos turistas.

Os turistas vão onde há capacidade aérea.

Cristina Siza Vieira

vice-presidente executiva da Associação da Hotelaria de Portugal

No caso dos Estados Unidos, a redução de 3,1% nas dormidas em julho não é, para já, interpretada pelo setor como uma inversão da tendência. No acumulado até julho, o mercado norte-americano cresceu 3,4%, embora a um ritmo inferior ao registado nos últimos anos.

“Não podemos olhar para um mês e dizer que ele vai marcar a tendência”, considera Cristina Siza Vieira, sublinhando que o mercado americano recuperou e ultrapassou rapidamente os níveis anteriores à pandemia.

Ana Jacinto, secretária-geral da AHRESP, partilha esta leitura, mas identifica já um sinal de desaceleração. “Não vemos a quebra de 3,1% registada em julho como uma inversão da tendência, mas como um sinal de desaceleração que importa acompanhar”, afirma. A responsável lembra que julho de 2025 tinha sido excecionalmente forte, com as dormidas de norte-americanos a crescerem 14,1%, criando uma base de comparação particularmente elevada.

Os indicadores acompanhados pelas agências de viagens continuam, por outro lado, a apontar para uma evolução positiva. Miguel Quintas, presidente da Associação Nacional das Agências de Viagens (ANAV), salienta que, no primeiro semestre, as dormidas de norte-americanos tinham aumentado 5,3%, enquanto as receitas turísticas cresceram 8,1%, os passageiros desembarcados 5,7% e as compras com cartões norte-americanos 13,4%.

A ANAV considera, por isso, que não existem dados que permitam atribuir a quebra de julho sobretudo ao contexto económico e político dos Estados Unidos. “Não existem neste momento dados que permitam atribuir a queda de julho principalmente a esses fatores”, insiste Miguel Quintas, apontando antes para uma combinação de fatores e rejeitando, para já, uma leitura de quebra estrutural da procura.

Também o presidente da Confederação do Turismo de Portugal (CTP), considera prematuro falar numa mudança de comportamento. O responsável lembra que as dormidas norte-americanas praticamente duplicaram entre 2019 e 2025 e que, à medida que um mercado ganha dimensão, é natural que as taxas de crescimento tendam a moderar-se.

“É prematuro falar de mudança”, afirma Francisco Calheiros. O acumulado até julho, de 3,4%, representa, ainda assim, um abrandamento face aos 6,7% registados no período homólogo de 2025.

Capacidade aérea pode estar no centro do problema

Apesar da leitura prudente, há sinais que estão a preocupar o setor. Em julho, as dormidas de norte-americanos aumentaram 9,3% no Norte, enquanto recuaram na Grande Lisboa e no Algarve. A região da capital concentrou a maior parte da quebra, com menos 16,9 mil dormidas, enquanto o Norte registou mais 10,7 mil, segundo dados do INE.

Para a Associação da Hotelaria de Portugal, a diferença regional reforça a importância da capacidade aérea. Enquanto o mercado norte-americano cresce no Norte e no Funchal, a Grande Lisboa começa a sentir constrangimentos de capacidade aeroportuária, numa relação que a associação considera cada vez mais evidente.

O crescimento das dormidas norte-americanas estará sempre condicionado pela evolução da oferta de transporte aéreo entre os EUA e Portugal.

Francisco Calheiros

Presidente da Confederação do Turismo de Portugal

Francisco Calheiros considera que “o crescimento das dormidas norte-americanas estará sempre condicionado pela evolução da oferta de transporte aéreo entre os EUA e Portugal”, contabilizando que a oferta de lugares aumentou ligeiramente em 2026, mas enfrenta, ao mesmo tempo, tarifas mais elevadas, pressionadas pela volatilidade dos preços do petróleo e do combustível para aviação.

A associação que representa as agências de viagens acrescenta que o aumento dos preços do alojamento e a concorrência de destinos como Espanha e Itália podem também ter levado a alguma redistribuição da procura durante o pico do verão.

Há ainda fatores conjunturais. O Mundial de Futebol realizado nos Estados Unidos, Canadá e México, poderá ter concentrado parte da procura dos norte-americanos no próprio continente, enquanto o aumento do preço das viagens aéreas terá tornado as deslocações de longo curso mais fáceis de adiar.

A AHRESP aponta ainda para uma maior prudência das famílias norte-americanas, pressionadas pela inflação e por um contexto económico mais incerto. “As viagens de longo curso — mais dispendiosas e facilmente adiáveis — estão entre as primeiras despesas a ser reavaliadas”, explica Ana Jacinto.

As viagens de longo curso — mais dispendiosas e facilmente adiáveis — estão entre as primeiras despesas a ser reavaliadas.

Ana Jacinto

Secretária-geral da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal

As reservas tardias também dificultam uma leitura definitiva dos dados de julho. Siza Vieira recorda que setembro é, desde 2023, o mês mais forte para o mercado norte-americano em Portugal, considerando que o desempenho no final do verão será determinante para perceber se a quebra correspondeu apenas a um adiamento da procura ou se representa o início de uma desaceleração mais prolongada.

França mantém trajetória de queda

Se no que toca aos Estados Unidos o setor fala em abrandamento, no caso do mercado francês, a leitura é substancialmente mais negativa. A quebra de 5,9% nas dormidas em julho prolonga uma trajetória descendente que já se verifica há vários anos.

“Estamos, de facto, perante uma redução persistente do peso deste mercado em Portugal”, afirma Ana Jacinto. Segundo a AHRESP, todos os meses de 2026 apresentaram descidas e, no acumulado até julho, as dormidas de franceses estão cerca de 8% abaixo de 2025.

A ANAV apresenta uma evolução semelhante. Em 2025, as dormidas de franceses diminuíram 7% e, no primeiro semestre de 2026, registaram uma nova queda de 8,3%. No mesmo período, os hóspedes recuaram 8,3%, os passageiros desembarcados 5,5% e as receitas turísticas 5,7%. “Existe, portanto, uma redução efetiva do volume de procura”, reconhece Miguel Quintas.

Cristina Siza Vieira destaca que a “quebra do mercado francês é basicamente transversal a quase todo o país”, ao contrário do que acontece com o mercado norte-americano, que continua a crescer em regiões como o Norte. A AHP indica que a Grande Lisboa, principal destino dos franceses em Portugal, explica 45% da quebra por parte deste mercado.

A explicação passa, em primeiro lugar, pela situação económica das famílias francesas. Com menor poder de compra e maior prudência no consumo, o turista francês está a privilegiar viagens mais próximas, estadias mais curtas e opções de menor custo.

“Menos longe, menos tempo e menos caro” é, segundo a AHP, a lógica que está atualmente a orientar este mercado.

Ana Jacinto aponta para a estagnação da economia francesa no segundo trimestre e para uma perda de poder de compra de 0,5%, num contexto em que os preços continuam a subir acima do rendimento disponível.

Um estudo do Ifop para a Alliance France Tourisme, citado pela AHRESP, mostrava já em março que 71% dos franceses tencionavam passar férias em França e que o orçamento médio previsto era cerca de 150 euros inferior ao do ano anterior.

O líder da CTP aponta igualmente para a retração do consumo e para a existência de alternativas mais próximas, como Espanha, que pode ser alcançada por estrada, assim como destinos mais baratos no Norte de África e no Egito.

Portugal já não é visto como destino tão barato

A perda de poder de compra do turista francês cruza-se com outro ‘problema’: a competitividade pelo preço. “Portugal aumentou igualmente o seu preço médio”, salienta Miguel Quintas. Em julho, o rendimento médio por quarto ocupado aumentou 3,2%, segundo dados do INE.

A AHP volta a chamar a atenção para o caso particular da Grande Lisboa, destino preferencial dos franceses em Portugal. A região pratica preços mais elevados e tem uma taxa turística de quatro euros por pessoa e por noite. “Para um mercado particularmente sensível ao preço, estes fatores podem pesar na decisão final”, afirma.

A concorrência também se intensificou. A capacidade aérea entre França e Portugal diminuiu 6,6% no verão de 2026, segundo a ANAV, enquanto, por outro lado, aumentou 2,8% para Espanha e 3,3% para a Grécia.

Menos lugares disponíveis significa menor capacidade de crescimento e, normalmente, preços médios mais elevados”, completa Miguel Quintas.

Menos lugares disponíveis significa menor capacidade de crescimento e, normalmente, preços médios mais elevados.

Miguel Quintas

Presidente da Associação Nacional de Agências de Viagens

A combinação de menor capacidade, preços mais elevados e uma situação económica desfavorável torna mais difícil uma recuperação rápida do mercado francês. A própria AHP considera que não há, para já, perspetivas de uma inversão significativa da tendência nos próximos meses.

Ainda assim, as associações alertam para uma limitação dos dados das dormidas. O indicador do INE não cobre todas as formas de alojamento utilizadas pelos turistas. No caso francês, em particular, a presença de emigrantes e de residentes com habitação em Portugal pode fazer com que parte da procura não seja captada pelas estatísticas tradicionais do alojamento turístico.

Francisco Calheiros lembra que, nos anos anteriores, parte da quebra registada nas dormidas foi atenuada por outros segmentos da oferta de alojamento, tornando a leitura do mercado francês mais complexa.

Lisboa concentra a pressão dos dois mercados

É na Grande Lisboa que as duas tendências acabam por se cruzar. A região concentra uma parte muito significativa das dormidas de turistas norte-americanos e é também o principal destino dos franceses em Portugal. Segundo a AHP, a Grande Lisboa explica, sozinha, 45% da quebra do mercado francês no país.

Durante anos, a queda francesa foi parcialmente absorvida pelo crescimento de mercados como o norte-americano e o brasileiro. O problema é que essa almofada pode estar agora a diminuir.

Se o mercado americano abrandar ao mesmo tempo que o mercado francês continua a cair, eu acho que isto pia mais fino”, alerta Cristina Siza Vieira.

A preocupação é reforçada pelo facto de os dois mercados terem um peso relevante no turismo nacional. Em 2025, Estados Unidos e França representaram, em conjunto, 17% das dormidas de não residentes registadas pelo INE.

lisboa pessoas rua

A pressão não é, contudo, generalizada ao turismo nacional. Outros mercados continuam a crescer. Em julho, o Canadá aumentou 6,6%, a Alemanha 5,3%, os Países Baixos 3,9% e a Polónia 10,8%.

A própria CTP considera que a evolução positiva de outros mercados poderá compensar parte da quebra francesa. No conjunto, o turismo português continuou a crescer em julho, com os proveitos totais a aumentarem 4,9%, para 923,7 milhões de euros.

A questão é agora perceber se o mercado norte-americano recuperará o ritmo de crescimento nos próximos meses ou se os constrangimentos de capacidade aérea começarão a limitar a procura. No caso francês, o desafio parece mais profundo: recuperar um mercado que está a viajar menos, por menos tempo e com maior preocupação com o preço.

Para Francisco Calheiros, a resposta passa também por adaptar a oferta. “A competitividade turística aumenta todos os anos”, afirma, defendendo que Portugal terá de proporcionar uma “experiência cada vez mais diferenciada, autêntica, diversa e dinâmica para acompanhar a evolução da procura e incentivar a repetição do destino”.

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