Governo prepara apoio direto a viticultores e linha de crédito para empresas e cooperativas do Douro
José Manuel Fernandes garante que Governo "nunca desistirá do Douro", ultimando apoio financeiro para viticultores que não conseguem escoar as uvas e linha de crédito de 100 milhões para tesouraria.
O Governo prepara-se para anunciar esta sexta-feira uma nova medida de apoio direto aos viticultores da região vinhateira do Douro, que enfrentam dificuldades para escoar as uvas e preços que não acompanham custos de produção cada vez mais elevados.
Escolha o ECO como fonte preferida no Google
O anúncio foi feito esta tarde pelo ministro da Agricultura, que revelou ainda uma segunda resposta à crise duriense: uma nova linha de crédito de tesouraria de 100 milhões de euros destinada a empresas e cooperativas “para que possam pagar aos produtores pelas uvas”.
Estas são respostas de emergência para um Douro Vinhateiro em crise e onde, por estes dias, a vindima se faz assombrada pela incerteza e uma pergunta que muitos produtores não conseguem ainda responder: quem vai comprar as uvas que estão para lá do lá do ‘benefício’ — a quantidade máxima de mosto generoso que cada produtor da Região Demarcada do Douro — e a que preço?
Muitos dos 18 mil viticultores durienses fazem as contas ao preço que lhes oferecem pelas uvas e ao que gastaram num ano inteiro a tratar da vinha. Entre eles, há uma dúvida que prevalece: apanhar as uvas sem saber se têm comprador ou se deixam as vinhas ao abandono.
Não desistiremos do Douro. Nunca desistiremos de apoiar os produtores. É esse o nosso foco.
À margem da AgroSemana, na Póvoa de Varzim, o ministro da Agricultura garantiu que o Governo não vai abandonar os viticultores: “Não desistiremos do Douro. Nunca desistiremos de apoiar os produtores. É esse o nosso foco”, assegurou José Manuel Fernandes, sublinhando que o objetivo é apoiar diretamente quem produz.
“Ele [viticultor] está a ter prejuízo. Mesmo o apoio que damos e que já demos no ano passado e ainda que este ano seja diferente, é um apoio que é uma ajuda, que não compensa o custo que ele efetivamente tem”, reconheceu.
É neste cenário que o Governo prepara novas medidas para tentar aliviar uma crise que se tem agravado à medida que os preços não acompanham os custos de produção. O apoio financeiro estará na agenda do Conselho de Ministros desta sexta-feira, mas José Manuel Fernandes não quis antecipar o que caberá a Luís Montenegro anunciar.
“A medida deverá ser anunciada pelo primeiro-ministro e, portanto, não sou eu que vou revelar os montantes, as condições“, frisou, adiantando apenas que se destina a reduzir as perdas daqueles que não encontraram comprador para as uvas.
“O apoio que vamos dar é para diminuir aquilo que já é um prejuízo para o produtor e para aqueles que não conseguiram escoar as uvas. Esta é uma medida que é imediata”, acrescentou o governante.

Além desta resposta de apoio direto aos produtores, José Manuel Fernandes revelou estar em negociações com o ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, para “uma segunda medida, que não vai a Conselho de Ministros: uma nova linha de empréstimos [de 100 milhões de euros] para que as empresas e cooperativas possam pagar aos produtores pelas uvas”.
Advertiu, contudo, que “no caso das cooperativas, o acesso ficará limitado às que não tenham importado vinho nos últimos três anos”.
O titular da pasta da Agricultura lembrou que já em 2024 o Governo criou a ‘Linha de tesouraria – setor vinícola’, de 100 milhões de euros, com as taxas de juro assumidas pelo Orçamento do Estado, dirigida a cooperativas e empresas do setor que se dedicam à transformação de uva para vinho. Ou seja, detalhou, destinada às cooperativas e empresas, “desde que elas pagassem o que deviam ao produtor“.
Para lá da arrebatadora paisagem de socalcos, há um interior onde a vinha já não chega para viver. “Há aqui gente a passar fome e até já admite abandonar as videiras”, contou um viticultor, ao ECO/Local Online que enfrenta a mesma incerteza de centenas de agricultores: “Vinte pipas já estão garantidas para o ‘benefício’, mas as outras 30 ainda não sei se conseguirei vender, nem a quanto.”
É precisamente nesse excedente que reside o problema. Muitos viticultores queixam-se que não conseguem vender as uvas que ficam para lá do “benefício”, enquanto os comerciantes alegam não ter mercado para absorver mais produção.
Uma crise do Douro Vinhateiro, que resulta de um desequilíbrio que se foi acumulando: há excesso de produção, as vendas dos vinhos da região recuam e os custos de produzir aumentam, num contexto internacional de incerteza e de mudança dos hábitos de consumo.
Por trás de uma paisagem dos socalcos que ilustra brochuras e atrai turistas, há um outro Douro, onde a vinha já não chega para garantir o rendimento de quem a trabalha.
Perante a dificuldade em escoar as uvas excedentes no mercado, há viticultores a defender a destilação como medida extraordinária, com apoio do Estado, à semelhança do que aconteceu em 2025, quando foram atribuídos 50 cêntimos por quilograma de uva entregue para ser transformada em álcool.
A revolta dos viticultores já saiu da vinha para as ruas. Como forma de protesto pelas dificuldades de escoamento da produção da vindima deste ano, esta quarta-feira vários produtores despejaram cerca de 300 quilos de uvas em frente à sede do Instituto dos Vinhos do Douro e Porto (IVDP), no Peso da Régua. E prometem nova contestação esta sexta-feira na receção de Luís Montenegro na abertura da Vindouro, em São João da Pesqueira.
“Todos à Pesqueira [a] exigir o que é do Douro, a aguardente do Douro, a manutenção da RDD [Região Demarcada do Douro]com o benefício!”. É este o apelo lançado no Facebook, na conta “Douro Sempre”. Esta é outra das reivindicações dos viticultores: transformar parte das uvas em aguardente vínica regional, destinada depois à produção de vinho do Porto e Moscatel, em vez das grandes casas comprarem aguardente internacional.
No Douro, a crise também ameaça uma paisagem de socalcos de vinhas, património da Humanidade pela Unesco. “O Douro tem ali um território onde o produtor também é o jardineiro”, reconheceu o ministro da Agricultura, avançando que uma universidade vai desenvolver um estudo independente para determinar o custo real de produção de um quilo de uva.
Assine o ECO Premium
No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.
De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.
Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.
Comentários ({{ total }})
Governo prepara apoio direto a viticultores e linha de crédito para empresas e cooperativas do Douro
{{ noCommentsLabel }}