IA, resultados e rotação. As vacinas das ações contra o contágio da dívida
Tensão nos mercados de dívida causou nervosismo nos de ações, mas não há sinais de contágio duradouro. Força da IA, lucros empresariais e estratégias de rotação protegem o 'bull run' nas bolsas.
Há dias que arrancam com preocupações de saúde, porventura estendendo maleitas da véspera, mas que depois passam ou diminuem com o sol, boas notícias ou maior confiança nas forças próprias. Nas bolsas europeias e americanas, esta quarta-feira foi um desses dias. Às 8h37, os terminais dos investidores já salientavam que o abrangente índice pan-europeu Stoxx 600 estava em mínimos de um mês, pressionado pelas tombos nos mercados obrigacionistas com agravamento das tensões no Médio Oriente e o espetro de maior inflação. Do outro lado do Atlântico, pelas mesmas razões, pouco a seguir ao meio dia, os futuros apontavam para uma abertura em ligeira queda nos principais índices em Wall Street.
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A tarde europeia acabaria, no entanto, por trazer algum alívio, com o Stoxx 600 a fechar a recuar apenas 0,2%. Nos Estados Unidos, S&P 500, o Nasdaq e o Dow Jones negociavam em sólido terreno positivo e acabariam por fechar a sessão a ganhar 0,46%, 0,45% e 0,56% respetivamente.
“Estamos a assistir a uma ligeira recuperação das ações, após o desempenho abaixo do esperado que se verificou na terça-feira”, afirmou Rick Meckler, sócio da family office Cherry Lane Investments, adiantando à Reuters que os investidores poderão estar à procura de oportunidades de compra após a recente onda de vendas.
Puro oportunismo ou um sinal de que os mercados acionistas estão numa série ascendente tão grande, um bull run tão poderoso que estão imunes a um eventual contágio do selloff global nos mercados de dívida soberana?
Com as taxas de juro das dívidas soberanas benchmark, ou seja com maturidade de uma década, de vários países em máximos de vários anos – a japonesa de 1996, a britânica de 2008 e a americana de início de 2005 – o economista e presidente da consultora IMF, Filipe Garcia, apontou para alguns potenciais efeitos na cotações das ações das empresas.
Principal impacto pode ser na confiança
“Há um impacto sempre natural que é a parte das avaliações das empresas“, disse ao ECO. “Se as taxas a que se faz o desconto de cashflow futuros subirem, os múltiplos da avaliação também ficam diferentes e, portanto, diminuem o valor atual da empresa”.
“Mas o principal impacto poderá estar sempre no tema da confiança, ou seja, se houver uma crise séria de dívida a nível global, naturalmente que isto afeta tudo”, sublinhou, “estamos a falar, por exemplo, de dívida norte-americana, que não acho que vá ter qualquer hipótese de default a sério, mas se isso acontecesse, naturalmente que era um tema crucial“.
Garcia explica que as treasury bonds são a espinha dorsal do sistema financeiro porque cerca de 60% das reservas cambiais estão em dólares. “Elas não estão em dólares em depósitos à ordem. Estão em dólares em títulos do Tesouro, maioritariamente, e portanto destabilizaria imenso o sistema financeiro mundial se houvesse algum problema aí”, alertou, mas salientou que não acredita que isso vá acontecer, porque os Estados Unidos têm a capacidade de monetizar dívida, e “porque não é propriamente do interesse de ninguém que haja um colapso do sistema financeiro a nível internacional”.
Não parece que haja ainda condições para dizer que o pior já foi visto em termos de taxas de juro. À medida que os valores forem subindo, vai toda a gente começar a ficar menos confortável
Ainda assim, o economista disse que, apesar de medidas anunciadas pelo Tesouro americano para acalmar os mercados, “não parece que haja ainda condições para dizer que o pior já foi visto em termos de taxas de juro”. À medida que os valores forem subindo, “vai toda a gente começar a ficar menos confortável”.
Nos mercados acionistas dos Estados Unidos, esse desconforto tem claramente uma fonte de alívio nas valorizações baseadas nos gigantes investimentos de algumas tecnológicas na inteligência artificial (IA).
“A guerra está a prolongar-se mais do que qualquer um esperava e, quando terminar, a economia arrefecerá e a inflação deixará de ser um problema tão grave», afirmou esta quarta-feira Lauren Cassidy, diretora de investimentos da Founders 100 ETF, à Reuters.
“Ao mesmo tempo, acabámos de ter uma época de resultados financeiros recorde, com fundamentos económicos excelentes impulsionados pela adoção acelerada da IA“, adiantou. “A adoção da IA ainda está numa fase muito inicial e só agora está a acelerar e podemos assistir a um crescimento exponencial a partir daqui”, acrescentou.
A Europa, por sua vez, é considerada especialmente vulnerável ao conflito que já se arrasta há meses, dada a dependência das importações de energia, mas os resultados sólidos registados durante a última época de resultados foram um alívio para os investidores e atenuaram algumas das perdas do STOXX 600 esta sexta-feira, face aos sinais de que as empresas estavam a lidar com a situação melhor do que o esperado.
Resultados corroboram o bull run
Filipe Garcia, da IMF, recordou que também deste lado do Atlântico tem havido uma boa performance bolsista. “Os drivers podem ser diferentes, mas também existem”, refere. “É uma coisa que se tem falado pouco, na minha opinião, sobre este bullmarket, que é que os resultados têm corroborado o bullmarket, não são só expectativas“.
“É verdade, quando estamos a falar da Nvidia ou da Microsoft há uma componente muito forte de futuro, nos preços, mas a verdade é que até agora têm sido entregues estes lucros, incluindo na Europa”, explicou. “Não vejo para já uma inversão no aumento da tendência da lucratividade das grandes empresas“.
Não há a total ausência de riscos, no entanto, e com probabilidades diferentes. “Um que eu acho muito improvável, que é a questão do mercado de dívida assustar o sistema financeiro global“, reconheceu Garcia.
Outro risco é a possibilidade de eventos geopolíticos extremos, maiores ainda do que a guerra na Ucrânia e o conflito no Médio Oriente, “teria ser por algo ainda mais extremo, porque essas já vimos e não provocaram o fim dos ganhos nas bolsas”.
O terceiro risco é mais provável, para Garcia, mas ainda assim não um cenário central – uma recessão. “Essa recessão só consigo ver aparecer derivada de uma escalada maior ainda dos preços, leia-se da energia e da alimentação, e que depois haja uma travagem de atividade tanto nas empresas como nos consumidores”.
Voltando à questão da IA, Filipe Garcia ofereceu um ângulo ‘futuristico’ . “As ações também têm sido vistas de alguma forma como um refúgio quanto ao futuro”, vinca. “O investidor vai querer estar nos grandes incumbentes, nos novos incumbentes e nos atuais incumbentes, vai querer apostar naquilo que vai ser o mundo IA“.
“E para isso a única maneira de estar posicionado para o mundo da inteligência artificial é ter ações, não é com obrigações que se vai lá“, concluiu.
Yields vão forçar rotação para qualidade
Mathieu Racheter, diretor de research de estratégia de equities no banco privado suíço Julius Baer, reconhece que as taxas de rendibilidade das obrigações subiram, mas sublinha que a evolução continua a ser gradual e os resultados financeiros mantêm-se sólidos.
O nível, a direção, a velocidade e os fatores impulsionadores são importantes; o nosso cenário base é que as yields mais elevadas irão alimentar uma rotação no mercado de ações, em vez de comprometer a tendência do mercado
“O nível, a direção, a velocidade e os fatores impulsionadores são importantes; o nosso cenário base é que as yields mais elevadas irão alimentar uma rotação no mercado de ações, em vez de comprometer a tendência do mercado”, escreveu.
Para Racheter, os fundamentais empresariais proporcionam uma importante almofada de segurança. A empresa mediana do S&P 500 está a registar um crescimento dos lucros de cerca de 12%, enquanto a Europa atravessa o seu ciclo de revisão em alta dos lucros mais abrangente dos últimos três anos, salientou.
“É mais provável que as yields mais altas reforcem uma rotação do que ponham fim à recuperação do mercado acionista”, perspetivou, recordando que cerca de 73% das ações norte-americanas e europeias são negociadas acima das suas médias móveis de 200 dias, o nível de participação mais elevado em cerca de dois anos.
A recomendação do analista do Julius Baer é de rodar. “Os investidores não precisam de abandonar os vencedores do setor tecnológico ou da IA estrutural, mas devem adicionar outras fontes de rendimento a par destes“, explicou. “Damos preferência às ações de valor, em particular ao setor financeiro e aos bancos, complementadas por uma exposição a títulos de qualidade”.
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