Menos desemprego e melhores salários. Média final de curso ainda importa no mercado de trabalho

Estudo do Edulog indica que estudantes com melhores médias finais têm menor probabilidade de desemprego. Já a experiência internacional durante o curso não tem impacto significativo.

Afinal, a nota final de um curso superior importa ou não aos empregadores? Um novo estudo do think tank EDULOG mostra que os estudantes com melhores médias finais têm menor probabilidade de ficar no desemprego e maior chance de terem salários mais expressivos. Por outro lado, numa conclusão “surpreendente”, segundo o próprio coordenador, Ricardo Biscaia, a experiência internacional ao longo do curso não apresenta efeitos consideráveis na empregabilidade do aluno.

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“Chegámos à conclusão que a média final do curso tem mesmo um impacto positivo em todas as variáveis. Não só empregabilidade, mas também salário”, sublinha Ricardo Biscaia, em conversa com o ECO.

No que diz respeito à empregabilidade, este novo estudo identifica a nota como a “variável mais consistentemente associada ao emprego, tendo estudantes com melhores médias finais menor probabilidade de desemprego“.

Já no que diz respeito aos salários, o coordenador adianta que, por cada valor, verifica-se um aumento de 2,3% do salário um ano após a conclusão do curso e de 4% ao fim de cinco anos. “Conseguimos mostrar que a média de curso tem um peso relevante. Um estudante com mais cinco valores ganha mais 20% [do que um com uma média inferior], cinco anos após terminar o curso”, detalha Paulo Biscaia, que considera este resultado “importante”, quando tanto se debate a importância das soft skills.

Por outro lado, esta nova análise do EDULOG indica que a experiência profissional anterior está associada a uma menor probabilidade de desemprego apenas no primeiro ano, “enquanto a experiência internacional durante o curso não apresenta efeitos significativos“. Sobre este último ponto, o referido especialista frisa: “Para nenhuma das variáveis (nem salário, nem emprego), não há impacto significativo. É um resultado surpreendente.”

Outro dado relevante é que o tipo de instituição frequentada — pública ou privada, universitária ou politécnica — “não apresenta, em geral, efeitos estatisticamente significativos sobre a probabilidade de desemprego“.

Em contraste, a área de formação tem um peso considerável no desempenho do diplomado no mercado de trabalho. A área de estudo é mesmo “o fator que mais diferencia os resultados dos diplomados do ensino superior português no mercado de trabalho”.

A área de estudo é o fator que mais diferencia os resultados dos diplomados do ensino superior português no mercado de trabalho, com um peso superior ao tipo de instituição frequentada, nomeadamente se esta é pública ou privada, universitária ou politécnica.

EDULOG

“A conclusão verifica-se tanto no risco de desemprego como na qualidade do emprego, refletindo-se nos salários, estabilidade contratual, satisfação profissional e adequação entre formação e trabalho“, detalha o estudo.

Em concreto, os diplomados de Artes, Psicologia, Ciências Naturais, Matemática e Estatística, Humanidades e Línguas apresentam uma probabilidade de desemprego, pelo menos, dez pontos percentuais superior à dos diplomados de Engenharia, Indústrias Transformadoras e Construção. As diferenças mantêm-se significativas cinco anos após a conclusão dos estudos, embora com menor expressão.

Além disso, as TIC e Engenharia destacam-se pelos diferenciais salariais positivos e por níveis mais elevados de satisfação, estando também estas áreas associadas a maior estabilidade contratual. “Em sentido contrário, várias áreas das Artes, Humanidades, Bem-estar e Serviços apresentam resultados menos favoráveis em diferentes dimensões da qualidade do emprego”, salienta o EDULOG.

Já no que diz respeito à sobrequalificação, ou seja, ter um nível de escolaridade superior ao normalmente exigido por aquele emprego, o estudo indica que, entre os diplomados de Humanidades, mais de metade estão nessa situação. Uma taxa elevada também é registada na área de Serviços (50%) e das Artes (46,3%). Já na Medicina, só 6,2% dos diplomados registam sobrequalificação.

Por outro lado, é de destacar que o grau de mestrado constitui ainda uma vantagem, estando associado a uma menor probabilidade de desemprego face à licenciatura. “Contudo, ao fim de cinco anos, esta diferença deixa de ser estatisticamente significativa”, lê-se no estudo.

Elas estão ainda em desvantagem

O estudo agora conhecido torna também claro a desvantagem em que ainda se encontram as mulheres no mercado de trabalho. Por exemplo, as mulheres diplomadas registam uma “probabilidade significativamente mais elevada de desemprego, embora apenas cinco anos após a conclusão do curso”.

Mas não só. As mulheres apresentam menor estabilidade contratual, remunerações significativamente mais baixas, níveis inferiores de satisfação com o emprego e maior risco de sobrequalificação.

Questionado sobre estes dados, Ricardo Biscaia sublinha que o estudo não arrisca explicações para este fosso de género, mas adianta que a justificação poderá está ligada ao papel que a mulher ainda ocupa na sociedade e no mercado de trabalho, nomeadamente no que diz respeito à parentalidade.

“As responsabilidades da mãe e do pai ainda são diferentes”, observa, referindo que a menor disponibilidade delas poderá impactar a abertura para a contratação e promoção das diplomadas.

Mais informação na mão das famílias

Perante este cenário, os especialistas do EDULOG consideram necessário disponibilizar “mais e melhor informação sobre os resultados profissionais das diferentes áreas de formação, dirigida a estudantes, famílias e instituições, que permita compreender melhor os percursos dos diplomados e sustentar escolhas mais informadas”.

“O papel público deverá passar sobretudo por reforçar a transparência sobre remuneração, estabilidade contratual, satisfação e adequação entre formação e emprego“, sublinham.

Ao ECO, o coordenador Ricardo Biscaia adianta que já há uma recomendação do Tribunal de Contas na qual se apela a esta transparência, mas a lei portuguesa hoje prevê que são as instituições as responsáveis pela recolha desses dados. “Umas fazem-no, outras não. Entre as que fazem, umas divulgam, outra não. E entre as que divulgam, não necessariamente usam a mesma metodologia”, alerta o especialista.

É um problema grave. Mais do que um problema de eficiência (de saber que cursos o mercado precisa mais ou menos), é um problema de equidade.

Ricardo Biscaia

Coordenador de estudo do EDULOG

“É um problema grave. Mais do que um problema de eficiência (de saber que cursos o mercado precisa mais ou menos), é um problema de equidade. Famílias mais favorecidas sabem à partida quais cursos funcionam melhor, por exemplo. Dar mais informação é uma maneira de as famílias tomarem uma decisão mais informada“, defende Ricardo Biscaia.

Este estudo é conhecido numa altura em que decorrem as candidaturas à segunda fase do concurso nacional de acesso ao ensino superior. Há 11 mil vagas disponíveis.

O think tank EDULOG enquadra-se na Fundação Belmiro de Azevedo. O seu objetivo é “contribuir para a construção de um sistema de educação de referência” e a informação das políticas públicas “para a inovação e mudança na educação”.

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