Empresário de Cascais surfa até à Indonésia para fazer história em Desert Point

Uma das ondas mais míticas do surf mundial recebe pela primeira vez uma competição de origem portuguesa. A iniciativa quer provar que o formato pode viajar além-fronteiras.

A empresa portuguesa Fantastic Box está a levar o Capítulo Perfeito, evento que reúne alguns dos melhores tube riders do mundo em Portugal, para Desert Point, na Indonésia, onde será realizado pela primeira vez um evento de surf. A operação marca a internacionalização de um formato criado em Carcavelos há 14 anos e representa um investimento de cerca de 100 mil euros.

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Para Rui Costa, mentor do projeto, a operação representa sobretudo a passagem de uma marca portuguesa de eventos para um conceito com ambição internacional. “Esta é a fase 2.0 de crescimento deste conceito”, explica ao ECO.

O período de espera para a realização do evento arrancou esta terça-feira e prolonga-se até 15 de setembro. A prova será realizada num único dia, quando estiverem reunidas as condições de mar exigidas pela organização, e contará com oito surfistas. O vencedor recebe um prémio de dez mil euros e um wildcard de acesso direto ao Capítulo Perfeito de 2027, em Carcavelos.

A Indonésia foi escolhida por ser, segundo o responsável, “a meca do surf” para os praticantes especializados em ondas tubulares, mas também por Desert Point ser uma onda de classe mundial que nunca recebeu um evento deste género.

“Estamos a exportar o conceito e a marca”, resume Rui Costa, que começou a praticar surf em Carcavelos aos 12 anos.

Estamos a exportar o conceito e a marca.

Rui Costa

Fundador, criador e promotor do Capítulo Perfeito

Criado em 2012, o Capítulo Perfeito nasceu em Carcavelos a partir da vontade de Rui Costa de criar um formato diferente dos campeonatos tradicionais. A competição passou a privilegiar exclusivamente ondas tubulares e introduziu um período de espera para garantir que o evento só avançava quando estavam reunidas as condições certas.

Em 2015, o evento abriu-se aos surfistas internacionais e, com o crescimento da participação estrangeira e da exposição internacional, começou também a crescer enquanto marca, explica Rui Costa. “O evento deixou de ser só um evento e passou a ser uma marca”, afirma o mentor.

Hoje, a Fantastic Box, empresa criada para se dedicar às ativações e produção do Capítulo Perfeito, trabalha com três pessoas — duas a tempo inteiro e uma a meio tempo — e tem um volume de negócios que ronda os 700 mil euros.

Rui Costa, Fundador, criador e promotor do Capítulo Perfeito.Andre Carvalho

A empresa já tem as marcas Capítulo Perfeito e Perfect Chapter registadas nos principais mercados mundiais de surf. A estratégia passa agora por transformar esse ativo numa plataforma internacional, mantendo a base portuguesa.

“Hoje em dia representamos um evento, representamos uma experiência”, explica o responsável. Essa experiência inclui não só a competição, mas também a ligação dos surfistas à cultura e ao território onde o evento acontece. É esse conceito que a Fantastic Box está agora a tentar exportar.

Cem mil euros para abrir a porta ao mercado global

Levar o Capítulo Perfeito para Desert Point representa um investimento de cerca de 100 mil euros, dos quais aproximadamente 60% são suportados diretamente pela Fantastic Box. O restante é assegurado por marcas e outras entidades parceiras.

Mais do que o retorno direto desta primeira operação, o objetivo é testar o conceito num mercado global e criar condições para atrair marcas internacionais.

“A internacionalização só vai ser possível com o investimento de marcas globais, marcas internacionais”, afirma Rui Costa. A estratégia passa, por isso, por manter a confiança dos parceiros nacionais para garantir a etapa portuguesa e conquistar investimento internacional para as operações no estrangeiro.

A última edição do Capítulo Perfeito, realizada em Carcavelos, gerou cerca de 24 milhões de euros de impacto económico direto, segundo os dados da organização. O evento terá atraído entre 10 mil e 15 mil pessoas à praia ao longo de dois a três dias e alcançado mais de 70 milhões de pessoas através do broadcast, em 87 países. A organização estima ainda 114 milhões de alcance nas redes sociais e um retorno mediático de 14,5 milhões de euros.

Para Rui Costa, estes resultados são consequência de uma estratégia que passa por investir fortemente na comunicação, conteúdos e media, incluindo a promoção do evento fora de Portugal.

“Somos um evento que tem cerca de 70 notícias internacionais”, afirma, defendendo que a exposição internacional também contribui para promover Portugal como destino de surf.

Questionado sobre o valor da marca, o responsável não atribui uma avaliação concreta. “As coisas só valem aquilo que alguém paga”, responde. Ainda assim, estima em 500 mil a 600 mil euros o valor de mercado das propriedades comerciais que o evento consegue vender a patrocinadores e parceiros.

Desert Point obriga a adaptar o modelo

A internacionalização não significa, contudo, replicar em cada destino exatamente o mesmo evento.

Em Desert Point, o formato teve de ser adaptado às características da onda e às condições locais. Serão oito surfistas, metade dos 16 que participam na edição portuguesa, distribuídos por duas rondas não eliminatórias e uma final. A disputa terá 45 minutos e os quatro surfistas com melhor pontuação avançam diretamente para a final.

A prova mantém, contudo, uma das características fundamentais do Capítulo Perfeito: só os tubos são pontuados e o evento só avança quando as condições de mar correspondem ao padrão exigido. O call será dado com 72 horas de antecedência dentro da janela de espera, que termina a 15 de setembro.

A operação logística é também diferente. Desert Point tem condições de acessibilidade e conectividade muito mais limitadas do que Carcavelos e não permite transportar a estrutura de produção utilizada em Portugal. A Fantastic Box recorre, por isso, a um parceiro local, uma vez que uma empresa estrangeira não pode operar diretamente na Indonésia. “Teremos que nos adaptar exatamente aos meios, estruturas e cultura”, explica Rui Costa.

Moçambique confirmado para 2027

A Indonésia não é o único destino internacional no plano da Fantastic Box. A empresa tinha previsto realizar um evento em Moçambique em 2026, mas acabou por não avançar por falta de condições de mar que correspondessem ao conceito.

As parcerias foram, contudo, mantidas e o evento está confirmado para 2027.

“Para já, garantido, diria que temos Portugal e teremos Moçambique”, afirma Rui Costa.

A empresa está ainda a ser contactada por outras ondas e destinos. O responsável fala em “mais duas, três ondas” interessadas em receber o conceito, mas sublinha que a expansão terá de ser feita de forma gradual.

O objetivo não é criar um circuito com dezenas de etapas, mas encontrar um número limitado de destinos capazes de oferecer as condições necessárias. A organização pretende ter no máximo três eventos, distribuídos por diferentes geografias, para aproveitar épocas distintas de ondas.

“Gostava de ter um evento em África, gostava de ter um evento na Ásia e gostava de ter um evento ou na Europa ou na América do Sul”, afirma.

A aposta em Desert Point é, assim, uma demonstração ao mercado global de que o formato criado em Carcavelos pode ser transportado para outras geografias.

Surfista Bruno Santos em Desert Point, na IndonésiaSaraiva

A ambição é deixar de depender dos apoios de cada destino e conseguir garantir investimento global suficiente para escolher onde realizar os eventos em função da qualidade das ondas e não da capacidade financeira de cada território.

“Gostaríamos acima de tudo de ter a confiança do mercado global”, resume Rui Costa.

Desert Point funciona como uma espécie de prova de conceito dessa estratégia. A organização não garante ainda que o evento se repita na Indonésia, mas admite que esse é o cenário desejado.

Depois da janela de espera em Lombok, o Capítulo Perfeito regressará a Portugal. A edição nacional, que não encontrou condições adequadas durante a janela inicialmente prevista entre janeiro e março, foi remarcada para entre 1 de novembro e 15 de dezembro.

A partir de Carcavelos, a Fantastic Box prepara agora os próximos passos da internacionalização: manter Portugal como base, realizar o evento em Moçambique em 2027 e consolidar a presença noutros mercados, com a ambição de construir um circuito internacional em torno de um formato criado em Portugal.

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