Nio ET5 Touring: Cara de rico com alma de rebelde

Decorou os apontamentos do Porsche Taycan linha a linha, foi a exame com ar de quem sabia tudo e saiu de lá com uma nota que poucos esperavam ver na China para conquistar os condutores europeus.

Há carros que entram em Portugal em bicos de pés e há outros que chegam a espetar o dedo na campainha do vizinho. O Nio ET5 Touring Long Range é claramente do segundo grupo, e a primeira reação de quem o vê encostado ao lado do passeio é sempre a mesma: “espera, isso não é um Taycan?” Não é, mas percebe-se perfeitamente porque é que a pergunta surge sem hesitação.

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É precisamente esse jogo entre a inspiração assumida e a cópia por vezes descarada que transforma esta carrinha elétrica chinesa num dos casos mais curiosos a chegar às estradas nacionais nos últimos tempos.

A Nio nasceu no final de 2014, criada por William Li, um empresário chinês com passagem pela Fórmula E e pelos meios de comunicação automóveis, e depressa se transformou numa das marcas mais ambiciosas do universo elétrico asiático, ao ponto de entrar na bolsa de Nova Iorque em 2018.

O ET5 é o primeiro modelo da casa pensado de raiz para o gosto europeu, com assinatura do designer islando-americano Kris Tomasson, e desembarcou em Portugal no final de 2025 pelas mãos do Grupo JAP, com a versão Touring a sentar-se ao lado da berlina ET5 e do SUV EL6.

O NIO ET5 Touring nasceu na China há quatro anos, mede quase 4,80 metros, pesa cerca de 2,2 toneladas, vem equipado com tração às quadro rodas e além de carregar uma bateria fixa pode ser abastecido nas estações de troca de baterias da NIO, um sistema que apesar de estar longe de ser uma realidade eficaz na Europa promete recarregar o carro em poucos minutos.

A versão testada, com a bateria Long Range de 100 kWh, custa 72.500 euros, um número que a coloca a jogar no mesmo campeonato dos executivos alemães premium e que exige contas bem feitas antes de qualquer assinatura. E é aqui que a história ganha interesse, porque o preço não é acidental.

Por essa fatura, o comprador leva para casa 490 cavalos, tração às quatro rodas com dois motores, 700 Nm de binário e uma autonomia homologada de 560 quilómetros, valores que rivalizam ou superam nomes como o BMW i5 Touring, o Audi A6 Avant e-tron ou o VW ID.7 Tourer, e que custam uma fração do que pede o Porsche Taycan Cross Turismo, o carro que este Nio parece ter espreitado com atenção redobrada na sala de aula do design.

Dos 0 aos 100 km/h faz uma corrida em quatro segundos redondos, um tempo digno de desportivo, e a carga rápida em corrente contínua chega aos 180 kW, suficiente para recuperar 80% da bateria em menos de 30 minutos, quase o tempo de um café bem regado e uma conversa de circunstância.

A pergunta que sobra não é se o Nio ET5 Touring é um bom carro mas se mais de 72 mil euros justificam trocar a certeza germânica por uma aposta chinesa ainda a ganhar raízes na Europa.

No quotidiano, entre casa e trabalho com passagens diárias por Campo de Ourique, em Lisboa, o ET5 Touring revela um jeito natural para navegar num bairro feito de ruas estreitas, carros estacionados em ângulos improváveis e ciclistas que aparecem do nada.

A ajuda ao estacionamento, apoiada em cinco câmaras exteriores e ainda uma câmara interior a fiscalizar o condutor, revela-se numa preciosa ajuda, travando com suavidade e sem os sustos secos típicos de outras marcas quando o sensor deteta um obstáculo. Os consumos também não desiludem, mantendo-se sob controlo mesmo em arranques e paragens constantes no trânsito lisboeta.

Destaque ainda para o teto panorâmico que enche o habitáculo de luz, e para o contraste entre os estofos em creme e os detalhes em preto que empresta ao interior uma elegância que a maioria dos rivais chineses ainda não sabe copiar.

Há, porém, um pormenor que faz torcer o nariz: não existe Apple CarPlay nem Android Auto, e quem quiser ouvir os seus podcasts e as suas playlists do Spotify tem de se contentar com o Bluetooth, uma escolha que a Nio trata como filosofia de marca (à imagem do que sucede com a Tesla), mas que no bolso de quem paga mais de 72 mil euros pesa como uma pequena traição diária.

Ao fim de semana, a caminho da Praia do Rei, na Costa de Caparica, com a família instalada a bordo, o carro mostra outra cara. A bagageira de 450 litros, que cresce até 1.300 litros com os bancos rebatidos, engole sem esforço as pranchas, o guarda-sol e o cesto do piquenique, ainda que continue mais modesta do que a de algumas rivais tradicionais do segmento.

Já a ausência de um porta-luvas convencional obriga a improvisar onde se guardam óculos de sol e documentos, um detalhe que parece menor, mas que se sente todos os dias como uma pedrinha no sapato.

Os passageiros de trás, esses, viajam com espaço de sobra para pernas e cabeça, mesmo numa travessia mais longa. A assistente virtual Nomi, instalada no tablier, tenta animar a viagem com conversa e uns meneios de cabeça, mas continua a entender melhor o inglês do que qualquer instrução em português, funcionando mais como atração de feira do que como ajuda real.

No final da experiência, a pergunta que sobra não é se o Nio ET5 Touring é um bom carro — é, sem grande margem para dúvidas. A questão é se, a mais de 72 mil euros, vale a pena trocar a certeza germânica por esta aposta chinesa ainda a ganhar raízes por aqui.

A resposta muda de bolso para bolso: quem valoriza potência, espaço e tecnologia por um preço que ainda assim fica bem abaixo do Taycan que serviu de musa, encontra aqui um argumento difícil de ignorar. Quem precisa do CarPlay como oxigénio para sobreviver ao trânsito da capital, provavelmente continua a preferir o caminho mais batido.

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