Alunos portugueses estão piores na matemática e leitura do que há 20 anos

Depois das "quedas sem precedentes" registadas durante a pandemia, a média dos alunos na Matemática, Leitura e Ciências voltaram a recuar (em Portugal e entre os demais países da OCDE).

A pandemia já passou, mas os seus efeitos perduram no sistema educativo português. Não só o país ainda não conseguiu recuperar da “queda sem precedentes” das médias dos alunos verificada durante a crise sanitária, como registou uma nova redução. De acordo com os resultados do PISA divulgados esta terça-feira pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), na Matemática e na Leitura, a média dos alunos nacionais já está mesmo abaixo do nível observado em 2000, tendo sido revertidos os ganhos acumulados na últimas duas décadas.

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“Os resultados médios de 2025 em Portugal foram inferiores aos de 2022 na Matemática e na Leitura, e semelhantes em Ciências. Mesmo em Ciências, os resultados ficaram, ainda assim, significativamente abaixo do que tinha sido observado em 2015“, começa por sublinhar a OCDE no grande estudo que faz, a cada três anos, sobre o desempenho dos alunos de 15 anos.

Nesta edição, participaram 6.945 alunos portugueses (760 mil alunos a nível global) nesta avaliação que pretende averiguar quão preparados estão os jovens para, nomeadamente, resolver problemas complexos, pensar de forma crítica e comunicar de modo eficaz.

“Na Leitura e na Matemática, as quebras recentes prolongaram reduções anteriores (observadas entre 2015 e 2022). Em resultado, os resultados mais recentes aproximam-se dos níveis observados em 2006 nas três matérias, revertendo completamente ganhos alcançados anteriormente“, salienta a organização.

Em concreto, em Ciências, a média dos alunos portugueses foi de 482 pontos, menos dois do que 2022 e menos 19 pontos do que em 2015, ano em que Portugal conseguiu o melhor desempenho, conforme mostra o gráfico acima. Para encontrar um desempenho mais fraco, é preciso recuar a 2006. Já em comparação, a pontuação da OCDE neste domínio foi de 484 pontos, o que significa que Portugal ficou abaixo dessa média global.

Quanto à Matemática, a média dos alunos portugueses foi de 460 pontos. Representa um recuo de 12 pontos face a 2022, ano em que já tinha sido registado uma quebra de 20 pontos. O desempenho de 2025 é mesmo o mais baixo alguma vez observado, desde que Portugal começou a participar neste estudo da OCDE.

Também a OCDE, a nível global, registou uma quebra da média dos alunos em Matemática, mas, neste caso, a redução foi menos acentuada: nove pontos, para uma média de 465 pontos.

Quanto à Leitura, a média da OCDE fixou-se, desta feita, em 463 pontos, menos 14 do que em 2022. Em Portugal, a média dos alunos nacionais situou-se em 462 pontos, menos 15 do que na última edição do PISA, sendo que, nessa altura, já tinha sido registada uma quebra de 15 pontos.

Face a 2015 (ano com melhor desempenho), a média dos alunos portugueses em Leitura caiu 36 pontos. O resultado de 2025 é, também neste domínio, o mais fraco alguma vez registado em Portugal.

Por outro lado, a OCDE assinala que, entre 2022 e 2025, o fosso entre os alunos com melhores (o top 10%) e os piores notas (os 10% mais fracos) não se alterou de modo significativo na Matemática e na Leitura, mas aumentou nas Ciências.

Já a fatia dos alunos com baixo desempenho aumentou em 11 pontos percentuais na Matemática e na Leitura e subiu em sete pontos percentuais nas Ciências, face a 2015, lê-se no PISA.

11% de alunos “academicamente resilientes”

Os resultados do PISA agora conhecidos confirmam também que um enquadramento socioeconómico mais favorável tende a ser sinónimo de melhores resultados académicos. Em Portugal, os 25% em condições mais vantajosas superaram em 92 pontos o desempenho dos 25% em condições mais desvantajosas, no domínio das Ciências.

A organização nota, contudo, que os alunos portugueses mais privilegiados registaram um pior desempenho do que, por exemplo, os estudantes em iguais condições em Singapura e na China.

Além disso, há a destacar que 11% dos alunos portugueses em condições menos favoráveis conseguiram estar entre os 25% com melhor desempenho nas Ciências. “Estes estudantes podem ser considerados academicamente resilientes, porque, apesar da sua desvantagem socioeconómica, atingiram excelência educacional“, salienta a organização. Em comparação, a média da OCDE de alunos que conseguem este “feito” é de 12%.

Por outro lado, no que diz respeito às atitudes dos alunos em relação à escola e à aprendizagem, em Portugal 77% dizem-se curiosos “sobre vários assuntos”, face a 73% da média da OCDE; E 20% consideram que a escola foi uma perda de tempo (24% na OCDE).

“Entre 2022 e 2025, estas atitudes mudaram de certa forma em Portugal. A fatia de alunos que reportaram estar curiosos sobre diversos assuntos baixou 5,1 pontos percentuais; A fatia que reportou aplicar esforços adicionais quanto o trabalho se torna desafiante estabilizou; E a fatia que concorda que a escola é uma perda de tempo também estabilizou“, detalha a OCDE.

Já quanto à escassez percecionada de recursos humanos e materiais, o PISA indica que, em 2025, 44% dos alunos em Portugal estudavam em escolas nas quais os diretores reportavam que a formação tinha sido afetada, de algum modo, pela falta percecionada de pessoal docente. Neste ponto, Portugal supera a média da OCDE (39%). Além disso, 29% dos alunos portugueses estudavam em escolas onde os diretores apontavam essa escassez de materiais educativos (de manuais a ferramentas informáticas) como um fator que impacta a aprendizagem.

Distraídos nas aulas de Ciências

Quase um terço dos alunos portugueses (31%) indicaram à OCDE que os seus pares estão frequentemente distraídos durante a maioria ou todas as aulas de Ciências com o uso de ferramentas digitais. A média global é de 28%, sendo que a organização assinala que, em vários países, os alunos que reportam distração por este motivo têm qualificações 11 pontos abaixo dos demais.

“Em média, na OCDE a possibilidade de os alunos se distraírem com dispositivos digitais era 13% mais baixas entre aqueles que estudavam em escolas onde o uso de telemóveis não era permitido. Em 2025, 25% dos alunos em Portugal frequentavam escolas com uma proibição desse tipo em vigor (média da OCDE: 49%)”, é acrescentado no estudo agora conhecido.

Já quanto à Inteligência Artificial (IA), 48% dos alunos em Portugal dizem usar já chatbots como auxílio da aprendizagem, pelo menos, uma vez por semana. A média da OCDE é de 46%. Os estudantes usam também a IA para fazer pesquisa (35% em Portugal contra 31% na OCDE), sumarizar textos (32% em Portugal contra 30% na OCDE) e fazer um primeiro rascunho dos trabalhos ligados à escrita (34% em Portugal contra 29% na OCDE).

O retrato global da OCDE

Numa altura em que a inovação tecnológica e os desafios globais estão a transformar as sociedades, a esperança seria de que os resultados académicos estariam a melhorar, confessa a OCDE. “A necessidade de pessoas altamente educadas e adaptáveis nunca foi tão grande”, frisa a organização. Contudo, os resultados têm estagnado ou até recuado em muitos países.

“De modo global, estima-se que cerca de 29% dos alunos com 15 anos dos países da OCDE são low performers [têm baixo desempenho] nas três matérias em análise, acima dos 25% registados em 2022″, é destacado. Nas Ciências, estes alunos têm dificuldade em interpretar dados simples e ler gráficos; Na Leitura, é-lhes difícil perceber textos simples; E, na Matemática, têm dificuldade em perceber a relação entre unidades e preços.

A OCDE questiona também o que poderá justificar esta degradação dos desempenhos educativos. Os dados não dão resposta a essa pergunta, sublinha a organização, mas “muitos” argumentam que a pandemia e o encerramento de muitas escolas não podem ser ignorados.

Esse não é, porém, o único fator. É que o desempenho já estava em queda antes da crise sanitária, o que mostra que há problemas estruturais a resolver. “Olhando para o futuro, o desafio para os decisores políticos não consiste simplesmente em recuperar o terreno perdido, mas em garantir que as escolas respondem às exigências de um mundo em rápida transformação. Como demonstra o PISA, esta não é uma tarefa fácil“, remata a OCDE.

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