Moção de censura abre nova frente de desgaste para Montenegro e ensaia batalha do OE2027

A moção de censura do Chega não vai derrubar o Governo, mas agravará o desgaste de Montenegro e testa forças para a batalha do Orçamento do Estado para 2027.

A moção de censura apresentada pelo Chega contra o Governo de Luís Montenegro será chumbada no Parlamento, mas pode trazer ganhos para o partido. Com o PS já comprometido com o voto contra — uma moção de censura exige uma maioria absoluta de 116 dos 230 deputados para ser aprovada –, André Ventura não tem condições para derrubar o Executivo. Tem, porém, uma oportunidade para prolongar o desgaste do Governo, manter Luís Neves no centro do debate político e tentar apresentar o Chega como a verdadeira alternativa à AD.

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O debate e a votação da iniciativa estão marcados para esta terça-feira, 8 de setembro, às 15h, depois de o ministro da Administração Interna ser ouvido no Parlamento, às 10h. Luís Neves será, assim, confrontado com os deputados durante toda a jornada parlamentar em que o Chega tentará transformar as polémicas que o envolvem numa crise política contra Montenegro.

Formalmente, o Governo deverá sair incólume. Politicamente, a história é outra. “Não haverá impacto sobre o Governo, ou sobre a Assembleia da República, do ponto de vista formal”, antecipa Paula do Espírito Santo, professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa. Mas, acrescenta, a nível político, a iniciativa representa “mais uma moção de censura do Chega” e obriga Governo e oposição a reagir “nesta trajetória planeada de desgaste em múltiplas frentes”.

A professora considera ainda que o debate será um palco para “expor fragilidades setoriais”, nomeadamente as polémicas relacionadas com a Administração Interna, funcionando como instrumento de “desgaste de imagem pública da governação”. É este o principal ganho do Chega.

Sílvia Mangerona, politóloga, investigadora e professora universitária, considera que o impacto da moção será “sobretudo de imagem”. A derrota parlamentar está praticamente garantida, diz, pelo anúncio do voto contra do PS e da Iniciativa Liberal, mas o debate dará “palco aos argumentos” relacionados com os processos judiciais e administrativos que envolvem o ministro da Administração Interna.

Mais do que a moção de censura em si, é a permanência do governante que continua a funcionar como problema político para o Executivo. André Azevedo Alves, professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa, resume-o assim: “Há um impacto de desgaste no Governo mas que resulta mais da exposição contínua ao caso Luís Neves e da não substituição do ministro da Administração Interna do que da moção de censura (que será reprovada) propriamente dita.” Ou seja, a iniciativa do Chega não cria a crise. Amplifica-a.

Há um impacto de desgaste no Governo mas que resulta mais da exposição contínua ao caso Luís Neves e da não substituição do ministro da Administração Interna do que da moção de censura (que será reprovada) propriamente dita.

André Azevedo Alves

Professor do Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica Portuguesa

É precisamente a gestão do caso Luís Neves que poderá tornar mais difícil ao Executivo sair politicamente ileso do debate. Para Sílvia Mangerona, “O Governo está em processo autofágico lento e penoso; e o caso Luís Neves é o ‘elefante na sala’ no atual Executivo de Luís Montenegro”. Na sua leitura, o problema ganha uma dimensão particularmente delicada porque a AD, depois de regressar ao Governo com novas eleições, enfrenta novamente uma crise associada a dúvidas de conduta ética.

O caso envolve várias polémicas, entre as quais a utilização pelo ministro de uma viatura apreendida pela PJ, questões relacionadas com materiais químicos associados a droga, armas desaparecidas, a falta de apresentação da declaração de rendimentos e alegados conflitos de interesses. Luís Neves sustenta que a utilização da viatura era legal e autorizada.

Para Mangerona, a própria comunicação do ministro tem contribuído para agravar o problema: o seu discurso “populista” e polarizador, associado à ausência de esclarecimentos considerados suficientes, acaba por alimentar a crise política.

André Ventura percebeu esse ponto de fragilidade e centrou a sua moção na decisão de Montenegro de manter o ministro no Governo. O líder do Chega considera que a permanência de Neves colocou em causa a autoridade política do primeiro-ministro e fala numa situação de “absoluta insustentabilidade” ética e institucional.

PSD e CDS fecham fileiras, mas o desconforto existe

No Parlamento, a reação previsível será de coesão. Paula do Espírito Santo antecipa que, “forçados a defender o Executivo, PSD e CDS-PP fecharão fileiras em torno do Governo, centrando-se na importância do rumo governativo do Governo e no trabalho que este tem vindo a realizar” e procurando apresentar a iniciativa de Ventura como uma tentativa de “criar crises artificiais”. É o efeito clássico de uma censura sem votos para passar: a oposição apresenta o ataque, mas a maioria reage com uma defesa conjunta do Governo.

O problema é que a aparente coesão parlamentar pode esconder um desconforto político crescente. André Azevedo Alves reconhece que existe “um mal-estar crescente” no próprio PSD com a manutenção de Luís Neves, embora não espere que isso seja exibido publicamente durante o debate.

O caso Luís Neves acabará por dividir internamente o PSD e, mais tarde ou mais cedo, o Governo terá de tomar uma decisão caso não queira perpetuar uma crise política no próprio PSD.

Sílvia Mangerona

Politóloga, investigadora e professora universitária

Mangerona antecipa mesmo uma consequência mais profunda: “O caso Luís Neves acabará por dividir internamente o PSD e, mais tarde ou mais cedo, o Governo terá de tomar uma decisão caso não queira perpetuar uma crise política no próprio PSD”. A votação de terça-feira poderá, por isso, mostrar uma AD unida no hemiciclo, mas não necessariamente eliminar as dúvidas que existem nos bastidores.

PS: estabilidade contra liderança da oposição

O voto contra do PS resolve a aritmética parlamentar, mas cria um problema político para os socialistas. José Luís Carneiro já tinha afirmado que o partido não contribuiria para uma nova crise política; a direção parlamentar confirmou depois que o PS não vai viabilizar a iniciativa. Paula do Espírito Santo considera a posição coerente com a estratégia socialista de “não ser uma fonte de instabilidade e de criação de desvios ineficazes da atenção mediática”. Mas há uma consequência inevitável: ao rejeitar a moção, o PS “viabiliza indiretamente a continuidade do Governo da AD”.

Para limitar esse efeito, prevê a politóloga, “os socialistas terão de explicar que votam contra a censura por razões de estabilidade institucional do país e não por cumplicidade com o Executivo”. O risco, porém, é precisamente esse argumento acabar por beneficiar o Chega.

André Azevedo Alves considera que o PS fica numa situação “pouco confortável”, porque Ventura consegue “colar” os socialistas à AD, “ainda por cima associando ambos à defesa de Luís Neves”.

Para Sílvia Mangerona, o problema é ainda mais estrutural. O PS “sairá a perder”, porque está a disputar a liderança da oposição e, eventualmente, condições para voltar a formar Governo. “Não pode, por isso, ficar no muro dos ‘mornos’”, avisa.

Os socialistas terão de explicar que votam contra a censura por razões de estabilidade institucional do país e não por cumplicidade com o Executivo.

Paula do Espírito Santo

professora do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa

É uma equação difícil para os socialistas: votar a favor da moção poderia precipitar uma crise política e contrariar a estratégia de estabilidade; votar contra permite ao Chega acusá-los de ajudar a manter Montenegro no poder.

Enquanto PS e Governo enfrentam dilemas, “o Chega é o único partido que nesta equação política não tem nada a perder”, considera Sílvia Mangerona. Pelo contrário, acrescenta, o partido “arrisca-se a dominar um dos episódios que mais capitalizará o seu crescimento”.

Paula do Espírito Santo diz que Ventura assume o “protagonismo” de uma atuação mediática e parlamentar destinada a afirmar o Chega como a “suposta oposição única”, obrigando Governo e restantes partidos a responder.

André Azevedo Alves identifica dois ganhos concretos: Ventura pode transmitir a imagem de que “o PS está colado à AD” e de que a única alternativa real a esse bloco é o Chega. Ao mesmo tempo, consegue provocar desgaste adicional no Executivo através da exposição continuada ao caso Luís Neves.

Por isso, o chumbo da moção pode ser, paradoxalmente, uma vitória política relativa para o Chega. O objetivo não é necessariamente derrubar o Governo na terça-feira. É ocupar o palco.

Uma antecâmara do Orçamento do Estado

Mas a votação de 8 de setembro ganha uma importância que ultrapassa Luís Neves. Paula do Espírito Santo considera que a moção é “um ensaio geral e um teste de forças antes da apresentação do OE2027”. A iniciativa poderá, desde já, “marcar as expectativas quanto ao desfecho e posicionamento posterior do Chega na votação do OE” e colocar a pressão sobre a viabilização do Orçamento “nos ombros do Partido Socialista”.

André Azevedo Alves chega à mesma conclusão: a moção “torna ainda mais claro que a viabilização do OE deverá ser feita prioritariamente com o PS”. E Sílvia Mangerona vê no debate da moção a “antestreia” de uma nova sessão legislativa que antecipa como “nada tranquila”. Na sua análise, o momento do OE2027 pode agora revelar-se “mais delicado” do que parecia antes da crise Luís Neves.

A moção funciona como uma espécie de fotografia inicial da nova correlação de forças. O Chega tenta ocupar o espaço da oposição mais dura, o PS procura demonstrar responsabilidade sem abdicar da crítica e a AD precisa de provar que consegue manter uma maioria parlamentar funcional apesar do desgaste provocado pelo caso Luís Neves.

Mas há uma variável adicional: Belém. A moção surge num momento em que a relação entre o Presidente da República e o primeiro-ministro também se deteriorou. Montenegro rejeita pressões públicas para afastar Luís Neves e diz que governa de acordo com as suas convicções, enquanto António José Seguro nega estar a enviar “recados” através de terceiros.

A tensão foi alimentada por declarações de figuras próximas do Presidente, como Álvaro Beleza e Adalberto Campos Fernandes, que defenderam que o caso não podia prolongar-se indefinidamente e levantaram dúvidas sobre o funcionamento das instituições.

Seguro, por seu lado, tem evitado pedir diretamente a demissão do ministro e insiste na necessidade de cada órgão de soberania assumir as suas responsabilidades.

O chumbo da moção resolve a questão formal, mas mantém o problema político: a permanência de Luís Neves, o desgaste do Governo, o desconforto no PSD, a dificuldade do PS em liderar a oposição, a ascensão do Chega e a tensão entre Presidente e primeiro-ministro. Tudo isto transitará para a discussão que realmente poderá decidir o equilíbrio parlamentar da nova sessão legislativa: o Orçamento do Estado para 2027.

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