Sucesso da Isar torna urgente porto espacial em Santa Maria
O primeiro lançamento comercial europeu em órbita marcou o início da corrida aos portos espaciais e pressiona o 'deadline' do porto nos Açores, num mercado que está a ganhar novos operadores.
O sucesso da alemã Isar Aerospace, que se tornou na primeira empresa comercial a lançar um foguetão a partir da Europa, na Noruega, colocando cinco pequenos satélites em órbita, “abre a porta” a uma corrida aos portos espaciais. E Portugal, que quer posicionar-se como polo de lançamento na Europa, através da ilha de Santa Maria, nos Açores, tem de “conseguir lançar este ano, nem que seja suborbital”.
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“Este é o segundo teste da Isar e, de facto, abre aqui a porta para satélites mais pequenos. Abre a porta para uma verdadeira comercialização, ou seja, lançamentos do território continental. Também abre a oportunidade para aquilo que é uma corrida aos portos espaciais. Começamos a ter maturidade nos lançadores e agora começamos a ter maturidade nos portos espaciais. Apesar de ser na Noruega e não ser da União Europeia, tem acordos especiais. É extremamente representativo, é um passo muito importante”, assinala Ricardo Conde, presidente da Agência Espacial Portuguesa, ao ECO/eRadar.
Para Ricardo Conde, o lançamento deve também ajudar a criar um maior “pipeline de encomendas” para a Isar, até porque o sucesso não se mede apenas pela capacidade do lançador, mas também pelo que consegue efetivamente colocar em órbita.

A Isar surge num mercado europeu que está a assistir ao aparecimento de vários novos operadores. O presidente da Agência Espacial nacional aponta a alemã Rocket Factory Augsburg (RFA), o operador francês MaiaSpace – start-up aeroespacial francesa, subsidiária da ArianeGroup – e projetos em Espanha como exemplos de empresas e iniciativas que poderão atingir maior maturidade este ano e no início de 2027.
A multiplicação de projetos não significa, contudo, que haja espaço para todos. O presidente da Agência Espacial Portuguesa considera que a dimensão do mercado europeu obrigará os operadores a diferenciarem-se.
“Há um conjunto de iniciativas que vão ter a maturidade este ano e no princípio do próximo ano. Não sei até que ponto é que cada uma destas empresas se posiciona no mercado. Têm que ser muito competitivas porque termos na Europa mais de cinco ou seis empresas. Tem que haver aqui uma diferenciação nos serviços”, afirma.
É uma afirmação da Europa, num momento muito importante, e num momento em que a Europa precisa discutir o futuro da exploração, uma outra dimensão. Não é só operacional, em termos daquilo que é o posicionamento, a observação da Terra, as telecomunicações baseadas nos grandes programas europeus.
“É uma afirmação da Europa, num momento muito importante, e num momento em que a Europa precisa discutir o futuro da exploração, uma outra dimensão. Não é só operacional, em termos daquilo que é o posicionamento, a observação da Terra, as telecomunicações baseadas nos grandes programas europeus”, acrescenta o responsável.
Para a empresa nacional LusoSpace, esta evolução também pode representar uma oportunidade concreta. Em março deste ano, a empresa lançou oito satélites, sobretudo através do Falcon 9, da SpaceX, por ser uma solução competitiva em termos de preço, mas considera que a crescente lotação dos portos espaciais norte-americanos deixa espaço para lançadores mais pequenos e flexíveis.
“No entanto, é cada vez mais difícil lançar com eles [norte-americanos], porque os voos estão a ficar muito cheios. As órbitas são aquelas que eles querem. E portanto este novo lançador permite mais oferta europeia e muito mais flexibilidade no tipo de órbitas que pretendemos”, adianta Ivo Vieira, fundador e CEO da LusoSpace, ao ECO/eRadar.
Fundada em 2002, a LusoSpace é uma empresa 100% portuguesa que desenvolve soluções para o mercado espacial. A empresa, que emprega cerca de 30 pessoas e fatura três milhões de euros, já participou em mais de 20 missões espaciais sendo que uma delas está a caminho de Jupiter com chegada prevista em 2031.

Qual o lugar dos Açores na corrida dos portos espaciais?
Portugal procura encontrar o seu espaço, através do projeto de Santa Maria, nos Açores. “Já foi submetida uma licença para um lançador. Teremos aí oportunamente já um resultado dessa licença que foi submetida. Agora é preciso perceber também que tecnologias já estão a ser desenvolvidas e quais as que são, de facto, competitivas para Santa Maria e que caibam também em Santa Maria”, adianta Ricardo Conde, sem se comprometer com datas, ao ECO/eRadar.
O responsável considera que a dimensão mais reduzida dos novos lançadores poderá jogar a favor do projeto português. “Santa Maria tem algumas limitações, obviamente, mas estes lançadores novos e pequenos estão a ser preparados. Portanto, é uma enorme oportunidade, saibamos nós nos posicionar”, explica.
É uma oportunidade para Portugal por causa do Porto de Santa Maria que está a ser desenvolvido e que precisa de lançadores. Seria uma grande oportunidade para posicionar Portugal como outro polo de lançamento na Europa.
O Porto de Santa Maria, em termos de acesso ao espaço a curto prazo, é aquele que tem mais possibilidade de ter um retorno muito elevado.
“O que tem de acontecer mesmo é que nós temos de lançar, nem que seja suborbital. Temos que conseguir lançar este ano”, sublinha o presidente da Agência Espacial Portuguesa.
A criação do porto espacial na ilha de Santa Maria, nos Açores, representa uma oportunidade estratégica para Portugal se afirmar no mercado europeu do setor. “É uma oportunidade para Portugal por causa do Porto de Santa Maria que está a ser desenvolvido e que precisa de lançadores. Isto é como um aeroporto. Se há um aeroporto sem aviões, não tem endereço. Seria uma grande oportunidade para posicionar Portugal como outro polo de lançamento na Europa“, vinca Ivo Vieira.
O fundador da LusoSpace defende a aceleração do projeto em Santa Maria, uma vez que facilitaria o processo de lançamento de satélites por ser “muito mais perto e muito mais acessível”.
“O Porto de Santa Maria, em termos de acesso ao espaço a curto prazo, é aquele que tem mais possibilidade de ter um retorno muito elevado. Quando falamos de retorno, também implica toda uma indústria por trás, para fazer acontecer. Toda uma cadeia nacional poderá ter benefícios desse mesmo porto de lançamento”, diz o CEO da LusoSpace.

A realização de um primeiro lançamento permitiria ao país começar a construir experiência num mercado em crescimento e atrair a atenção de operadores que procuram novas localizações para colocar satélites em órbita.
“Há um conjunto de coisas que nós temos que realizar urgentemente e também abrir aquela possibilidade que é – e que vai ser – uma realidade, que é o retorno de missões. Nós temos não só a componente do posto espacial, do acesso ao espaço, mas também temos a componente de retorno de missão espacial. Isso é algo que nos diferencia. Nós queremos capitalizar isto em termos de oportunidade e é isso que um conjunto de ciclos está a preparar“, sublinha Ricardo Conde ao ECO/eRadar.
“Isso é algo que se está a trabalhar, até porque tem a ver aqui com a oportunidade, o momento. Porque, se nós temos alguns tipos de satélites que já estão prontos para lançar, não podemos estar a esperar. É a questão do mercado a funcionar“, alerta.
Sem dúvida que a Noruega vai competir com o Porto dos Açores. Embora a Noruega tenha uma vantagem muito maior para órbitas polares, Portugal tem uma vantagem maior para órbitas inclinadas, portanto, é uma competição relativa. Para Portugal, é uma possibilidade de entrar nas cadeias de fornecimento.
Em março, Gregory Mann, representante da NASA na Europa, deixou uma mensagem a Portugal relativamente ao posicionamento do país como um local privilegiado para o lançamento de foguetões ou reentradas a partir da ilha de Santa Maria, nos Açores.
“Essa localização tem muitas vantagens para a Europa, podendo muito bem ser um dos principais, senão o principal, pontos de partida e chegada no continente. Seria, portanto, uma base sólida para o desenvolvimento de Portugal, dentro do contexto mais amplo do ecossistema europeu”, disse na altura o representante da agência espacial dos EUA no Velho Continente.
A localização da ilha açoriana poderá ainda constituir uma vantagem para determinados tipos de órbita. “Sem dúvida que a Noruega vai competir com o Porto dos Açores. Embora a Noruega tenha uma vantagem muito maior para órbitas polares, Portugal tem uma vantagem maior para órbitas inclinadas, portanto, é uma competição relativa“, refere Ivo Vieira, fundador e CEO da LusoSpace, ao ECO/eRadar.
A infraestrutura portuguesa poderá também ser uma porta de entrada para uma cadeia industrial mais ampla. “Para Portugal, é uma possibilidade de entrar nas cadeias de fornecimento”, afirma Vieira, defendendo que o impacto económico do porto espacial poderá ultrapassar a própria atividade de lançamento.
Gradualmente, está a haver uma transição daquilo que é a dependência dos Estados Unidos. Isto está-se a verificar na questão militar. É cada vez mais uma preferência por questões de resiliência também das componentes europeias. E no espaço vai seguir exatamente a mesma dimensão.
Mas a corrida não será apenas comercial. Ricardo Conde considera que a área da defesa e segurança será uma das duas grandes dimensões do mercado, a par das novas constelações de satélites.
“A questão da defesa é extremamente importante e Santa Maria será extremamente importante, qualquer que seja a configuração. Até porque a própria defesa, a defesa nacional, tem o seu programa espacial e está a fazer os seus próprios satélites. Isto é importante para que as suas encomendas ao setor, em Portugal ou genericamente na Europa, pudessem ser obviamente também lançadas aqui [em território português]”, frisa o presidente da Agência Espacial Portuguesa. “Seria extremamente importante que as nossas constelações fossem lançadas do nosso território”.
O bloco europeu procura conquistar maior autonomia estratégica face aos EUA, um movimento que já se impõe na defesa e armamento da Europa e que se estende agora de forma inevitável ao setor espacial. “Gradualmente, está a haver uma transição daquilo que é a dependência dos Estados Unidos. Isto está-se a verificar na questão militar. É cada vez mais uma preferência por questões de resiliência também das componentes europeias. E no espaço vai seguir exatamente a mesma dimensão“, aponta Ricardo Conde.
O presidente da Agência Espacial Europeia confirmou ao ECO/eRadar que Portugal vai marcar presença na Cimeira do Espaço promovida pelo presidente da França, Emmanuel Macron, que decorrerá nos próximos dias 9 e 10 de setembro em Paris, onde serão “abordadas várias questões”, mas com “uma componente de cooperação europeia com outros países“. “Por exemplo, a Austrália, o Japão, a Índia, os Emirados Árabes Unidos. Há todo um conjunto de players que vão ter a sua intervenção”, elenca Ricardo Conde.
O evento tem captado especial atenção depois de a Casa Branca ter pressionado empresas norte-americanas a boicotar a cimeira, num momento em que as relações entre os Estados Unidos e a Europa estão sob crescente tensão. Na passada semana, a SpaceX, a Blue Origin, a fabricante de foguetões StokeSpace e a startup Starcloud informaram as autoridades francesas de que não vão participar no evento.
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