Capital Europeia da Cultura com novas regras e candidaturas transfronteiriças. Portugal só volta ao calendário em 2040

Com a próxima edição marcada para Évora, dentro de meses, a Capital Europeia da Cultura ganha um cunho mais centralizado. Novas regras permitem um evento em mais que um país.

Turistas passeiam junto ao Templo Romano em Évora, cidade escolhida para Capital Europeia da Cultura 2027 NUNO VEIGA/LUSANUNO VEIGA/LUSA

Portugal, país de acolhimento da Capital Europeia da Cultura (CEC) em 2027, só voltará a receber este evento europeu em 2040, segundo o calendário conhecido nesta quinta-feira. Este surgiu no novo regulamento da Comissão Europeia (CE) para a iniciativa iniciada em 1985. Ali, estabelecem-se regras a adotar a partir de 2033, designadamente a possibilidade de cada cidade candidata associar-se a outras da sua zona envolvente e também de se proporem candidaturas transfronteiriças.

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Os proponentes terão agora de assegurar uma “dimensão europeia” para a sua CEC, deixando de ser considerado apenas o impacto gerado localmente, além de se exigir articulação dos programas culturais entre as cidades “designadas para o mesmo ano, para o ano anterior e para o ano seguinte”.

Considerando a “distribuição equitativa das CEC por todos os Estados-membros”, a Comissão Europeia estabeleceu um calendário prévio, que, no novo horizonte de 2034 a 2047, coloca Portugal no rumo da Capital Europeia da Cultura apenas em 2040, 13 anos após Évora – Capital Europeia da Cultura, que se iniciará dentro de quatro meses. Adicionalmente, e considerando a possibilidade de candidaturas transfronteiriças, não se exclui que o país possa regressar ao palco em 2046 (ver calendário abaixo, proveniente do site da CE), numa eventual parceria com uma cidade espanhola da raia.

Europa quer maior controlo sobre a Capital Europeia da Cultura

Entre a chamada a si de competências, a Comissão compromete-se a operar uma maior centralização da comunicação do evento, explicando-o com o objetivo de que a publicitação de cada cidade eleita seja feita para lá do raio de abrangência do respetivo país. Bruxelas exige maior controlo, indicando que “deve coordenar as atividades relevantes para ajudar a maximizar o impacto duradouro” da ação.

Antes de partir para as novas regras, a CE identificou várias lacunas das capitais da cultura realizadas até aqui. A saber:

  • “Dimensão europeia é muitas vezes mal compreendida” e “ignorada pelas cidades candidatas”;
  • Impacto a longo prazo aquém do esperado em algumas cidades;
  • Falta de garantia de que os conhecimentos são partilhados entre cidades eleitas;
  • Ausência de ferramentas de medição do impacto do evento;
  • Orientação cultura potencialmente efémera devido às opções políticas locais e nacionais levadas a cabo entre a fase da candidatura e o ano do evento, e necessidade de assegurar independência artística, “a fim de proteger a credibilidade do evento”.
O Centro Cultural Vila Flor, inaugurado em 2005, é um dos contributos da Capital Europeia da Cultura de 2012 para o património da cidade

Colocando ênfase no facto de vários países disporem de “apenas de um número limitado de candidatos realisticamente aptos para um evento de grande escala, como a CEC”, e que “acolher o título poderia ter efeitos fortemente negativos numa cidade com recursos limitados, ao mesmo tempo que a escolha de capitais europeias da cultura mais fracas poderia prejudicar o prestígio e o valor da marca a longo prazo”, a Comissão anunciou a nova base jurídica.

Este novo quadro jurídico de Capital Europeia da Cultura obriga ao reforço das capacidades digital e de inovação dos setores culturais, e à criação de “ligações sólidas” da cultura a outros setores, como educação, investigação, ambiente, desenvolvimento urbano, desporto e turismo cultural sustentável. “Devem igualmente promover a inclusão social e a igualdade de oportunidades, melhorar a participação e o acesso à cultura” e envolver crianças, jovens, pessoas com deficiência e pessoas em risco de pobreza ou exclusão social, lê-se no documento conhecido nesta quinta-feira.

A iniciativa iniciada em 1985 (Atenas) e que colocou Lisboa no mapa da Cultura europeia em 1994, o Porto em 2001 e Guimarães em 2012, passou de acordo entre os diversos países para uma iniciativa oficial da União Europeia em 1999, altura em que foi criada uma lista cronológica para a distribuição do evento pelos países membros.

“Passados 40 anos, a Capital Europeia da Cultura continua a ser uma ação emblemática de sucesso, impulsionando os setores cultural e criativo, reforçando a projeção internacional das cidades anfitriãs e apoiando o desenvolvimento rural e urbano através da cultura”, escreve a Comissão Europeia em comunicado. “É uma ação eficaz em termos de custos que mobiliza financiamento público e privado e funciona como catalisador do desenvolvimento social e económico, em especial quando integrada em estratégias locais e regionais de longo prazo”, insiste.

Em 2014, a Decisão n.º 445/2014/UE trouxe o atual enquadramento da Capital Europeia da Cultura, à luz do qual foi eleita Évora para 2027. Com o horizonte já definido até 2033, e considerando a CE o horizonte de seis anos de antecedência para que as cidades preparem a sua edição de Capital Europeia da Cultura, Bruxelas considera ser tempo de criar as novas regras.

A atribuição do título deve basear-se num programa cultural com uma forte dimensão europeia. Esse programa cultural deve ser concebido especificamente para o ano do título e integrar uma estratégia de longo prazo.

Comissão Europeia

No novo regulamento, a CE indica ser “consensual que as capitais europeias da cultura constituem ações extremamente bem-sucedidas e que existe um forte apoio para que continuem depois de 2033. É claro que esta ação se tornou uma das mais ambiciosas iniciativas culturais na Europa, tanto em âmbito como em escala. Tornou-se igualmente uma das iniciativas mais visíveis e prestigiosas da União e, provavelmente, uma das mais apreciadas pelos cidadãos europeus”.

A Comissão salienta ainda que “organizar um programa de atividades culturais com a duração de um ano é uma tarefa exigente e algumas capitais europeias da cultura têm tido mais êxito do que outras na capitalização do potencial do título”. Assim, explica Bruxelas, “o principal desafio para o futuro será, por conseguinte, aproveitar os pontos fortes do regime atual e, ao mesmo tempo, ajudar cada capital a explorar plenamente o potencial do título e otimizar os benefícios culturais, económicos e sociais”.

Entre as regras, inscreve-se a de que “a atribuição do título deve basear-se num programa cultural com uma forte dimensão europeia. Esse programa cultural deve ser concebido especificamente para o ano do título e integrar uma estratégia de longo prazo”. E reforça-se: “Embora deva ser dada maior atenção à sustentabilidade, ao planeamento a longo prazo e à acessibilidade digital, é fundamental que a dimensão europeia se torne um critério transversal”.

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