Ricardo Reis vs. Trump: Tarifas, isenções para amigos e o fim do privilégio
O que é que já disse o economista português sobre as políticas económicas de Donald Trump e que fez com que o FMI recuasse na sua nomeação?
O Fundo Monetário Internacional (FMI) ia nomear Ricardo Reis para o cargo de economista-chefe da instituição, mas, na última hora, deixou cair o nome do português após ter tomado conhecimento das críticas à política económica de Trump, segundo o Financial Times.
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Em causa estarão comentários do professor da London School of Economics (LSE) em relação às tarifas comerciais do Presidente dos EUA, anunciadas em abril do ano passado.
Por mais do que uma vez, e de forma pública, Ricardo Reis avisou que o agravamento das taxas alfandegárias iria aumentar os preços para os consumidores norte-americanos e desencadear uma nova onda de inflação.
Posições como esta, contaram várias fontes próximas do processo ao Financial Times, levaram a que o fundo com sede em Washington voltasse subitamente atrás na nomeação do português para chefe de investigação e conselheiro económico no início do verão, optando por Silvana Tenreyro, ex-membro do Banco de Inglaterra e também economista da LSE.
As observações de Ricardo Reis relativamente à política comercial de Trump têm ido bem mais longe do que apenas em relação às implicações para os preços. Mas nem por isso têm mais favoráveis para o Presidente americano.
Como aconteceu em abril, precisamente um ano depois do Dia da Libertação, quando o economista veio a Lisboa para uma conferência dos 150 anos da Caixa Geral de Depósitos (CGD). Se esta intervenção contribuiu para o seu insucesso no FMI? Provavelmente nunca viremos a saber, mas as palavras foram particularmente duras para Trump.

“Como uma bomba a cair numa cidade”
Nessa longa intervenção, ao estilo de uma aula e com muitos slides e gráficos à mistura, Ricardo Reis abordou a forma como a mudança da política económica dos EUA desde que Trump regressou à Casa Branca estava a transformar o mundo de uma maneira profunda. Uma mudança que, “não sendo tão clara, obviamente, como uma bomba a cair numa cidade no outro lado do mundo”, foi “talvez mais subtil”, mas “tão ou mais importante em termos do funcionamento da economia internacional”.
O professor da LSE começou pelas tarifas. Considerou que os jornais deram muito destaque – “e ainda bem” – ao anúncio do Presidente americano no Dia da Libertação, mas acabaram por prestar pouca atenção aos “recuos” e “ainda menos atenção às enormes isenções que setores, bens ou mesmo amigos de Donald Trump iam recebendo ao longo das semanas”.
No final, sobrou “uma grande discrepância” entre as tarifas que foram anunciadas e as que foram verdadeiramente aplicadas.
“São, de qualquer forma, significativas e uma boa estimativa é que as tarifas que os EUA colocaram sobre o resto do mundo estão na ronda dos 7%. Não nos 25%, nem nos 50%, mas 7% ao fim de 12 meses é aquilo que estimamos com alguma segurança”, concluiu.
"É verdade que aqui há 12 meses muita atenção foi prestada — e ainda bem — aos anúncios de taxas de tarifa enormes por parte da administração de Trump. Mas uma atenção não tão grande foi dada aos recuos que a própria administração de Trump tinha acerca das tarifas que implementava e ainda menos atenção às enormes isenções que setores, bens ou mesmo amigos de Donald Trump iam recebendo ao longo das semanas.”
“Repressão financeira”
Dessas tarifas de 7%, 90% acabaram por se refletir no bolso do consumidor americano e menos de 10% foi o “desconto” oferecido pelos exportadores do resto do mundo, estimou Ricardo Reis.
Situação que, segundo o economista, devia ter levado a uma apreciação de cerca de 3% do dólar. “Mas não tivemos nenhuma apreciação do dólar, antes pelo contrário, desvalorizou cerca de 7%. Porquê?”, questionou.
Segundo Ricardo Reis a desvalorização do dólar reflete “uma mudança na atração em investir nos EUA em relação a investir no resto do mundo”.
“Há 12 meses, tão importantes como as tarifas, o que aconteceu foi o que os economistas chamam por vezes de ‘repressão financeira’, ou seja, a perspetiva do resto do mundo de que investir nos EUA não é assim tão seguro, é menos seguro do que se pensava”, explicou.
“Temos uma Administração americana que discute abertamente de que forma é que pode impor impostos diferentes sobre estrangeiros, bloquear, impor controlos de capitais, algo nunca imaginado no que diz respeito aos EUA, ou uma série de outras, digamos, distorções ou coleta de pagamentos a um investidor estrangeiro”, atirou.
"Há 12 meses, tão importantes como as tarifas, o que aconteceu foi o que os economistas chamam por vezes de repressão financeira, ou seja, a perspetiva do resto do mundo de que investir nos EUA não é assim tão seguro, é menos seguro do que se pensava, porque temos uma administração americana que discute abertamente de que forma é que pode impor impostos diferentes sobre estrangeiros, bloquear, impor controles de capitais, algo nunca imaginado no que diz respeito aos EUA, ou uma série de outras, digamos, distorções ou coleta de pagamentos a um investidor estrangeiro.”
Charles de Gaulle e “privilégio exorbitante”
Ricardo Reis não tem dúvidas de que o resto do mundo tem agora medo do que foi outrora “o grande banqueiro e o grande emprestador do mundo” e isso reflete-se não só no ajustamento da taxa de câmbio com a queda do dólar, mas também com aquilo que considera ser o “fim do privilégio” americano.
Ou aquilo que o ex-Presidente francês Charles de Gaulle chamou de “privilégio exorbitante”, lembrou.
“No que respeito ao governo, uma forma simples de medir [o tal privilégio dos EUA] é comparar a taxa de juro que os americanos pagam com a taxa de juro que os alemães pagam, tomando os alemães como sendo igualmente certos no pagamento e como tendo igualmente o mesmo risco de não pagar”, expôs.

O que mostram os números? Durante décadas os EUA beneficiaram de um desconto de 10 a 20 pontos base “mesmo em relação à Alemanha”. Também as empresas americanas tiraram partido do “privilégio”.
Mas isto agora acabou e “hoje, o Estado americano, pela primeira vez em 30 ou mais anos, pede emprestado mais caro do que o Estado alemão”.
“O que acontece nesta perda de confiança dos EUA nos últimos 12 meses é uma perda de confiança sobretudo no Estado americano, na dívida pública americana, um estado altamente endividado e em que os credores percebem que a Administração Trump estaria bem disposta a taxar os pagamentos dessa dívida, a fugir aqui ou ali, de uma forma ou de outra, a controlar os pagamentos que daí viriam”, atirou.
"O que acontece nesta perda de confiança dos EUA nos últimos 12 meses é uma perda de confiança sobretudo no estado americano, na dívida pública americana, um estado altamente endividado e em que os credores percebem que a administração Trump estaria bem disposta a taxar os pagamentos dessa dívida, a fugir aqui ou ali, de uma forma ou de outra, a controlar os pagamentos que daí viriam. ”
O fim do “porto seguro”
Ou seja, os EUA foram considerados durante décadas como o “porto seguro” e “porto de abrigo” em tempos de incerteza e de crise.
A confiança no Estado americano chegava mesmo a um ponto “quase que absurdo” quando, por exemplo, não se aprovava um Orçamento de tempo, as taxas de juro da dívida pública americana caíam porque, tendo subido o risco no mundo por efeito do Estado americano, ia-se para o porto seguro que era a dívida do Estado americano. “Era algo paradoxal e mesmo absurdo, mas do qual beneficiaram os EUA durante muito tempo”, disse.
Nos últimos anos a situação mudou. O economista destacou que “sobretudo no último ano, mas já começando um pouco depois da pandemia, os EUA e a dívida pública americana deixaram de ser o porto de abrigo que eram”.
E “hoje quando a bolsa se dá bem, a dívida pública dá-se mal. Uma das principais correlações em qualquer gestão de risco, que era que a dívida pública era um porto de refúgio em relação à bolsa americana, deixou de sê-lo”.
Ricardo Reis vê nisto uma “mudança fundamental”, sobretudo para os grandes investidores. Estão “a sair da dívida pública americana”, mas porque é que o dólar só desvalorizou 5, 6, 7%”?
Por causa da Inteligência Artificial, que está a captar a fuga de dinheiro do Tesouro americano. Isto é, os investidores continuar a apostar na economia dos EUA, apesar de Trump.
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