Seguro de saúde empresarial impulsiona procura por apólices individuais

  • Carolina Neves Carvalho
  • 12 Setembro 2026

Seguros de saúde individuais cresceram 6,3% em 2025, muito acima dos seguros de grupo. Longe de os substituir, as apólices oferecidas pelas empresas estão a impulsionar o mercado particular.

Apesar do crescimento constante dos seguros de saúde oferecidos pelas empresas aos colaboradores, dados do mercado mostram que, em 2025, os seguros de saúde individuais cresceram mais do dobro dos seguros de grupo, cerca 6,3% contra 0,9%, segundo a Associação Portuguesa de Seguradores (APS). Atualmente, Portugal tem quase quatro milhões de pessoas com seguro de saúde, e o seguro empresarial não está a esvaziar o mercado particular.

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“O seguro de saúde oferecido pelas empresas funciona mais como uma porta de entrada para a valorização da proteção da saúde“, sublinha Rui Meireles, Diretor de Employee Benefits da MDS Portugal.

Segundo a corretora, quando um colaborador muda para uma empresa sem seguro de saúde ou se reforma e perde esse benefício, “é muito frequente procurarem uma solução individual que lhes permita manter as coberturas e o acesso aos cuidados de saúde a que estavam habituados“. Meireles sublinha ainda que o mercado português caminha para um “equilíbrio de 50/50” entre ambos os segmentos.

Ambos os segmentos em crescimento

O setor segurador não observa os últimos cinco anos como um período de disputa entre os dois segmentos. Fonte oficial da Generali Tranquilidade explica que tem existido “um crescimento da procura em ambos os segmentos, embora com dinâmicas diferentes”, notando que, no caso das empresas, “o seguro de saúde deixou de ser um benefício diferenciador para passar a ser um dos elementos mais valorizados na proposta de valor ao colaborador”.

Para a Generali Tranquilidade “a saúde assumiu um peso muito maior nas decisões das famílias e das empresas do que tinha há cinco anos.”

Já fonte oficial da Multicare aponta para uma dinâmica muito concreta dentro do segmento empresarial: “no mercado empresarial, destaca-se o forte dinamismo das PMEs“, um sinal de que a expansão da cobertura coletiva ainda está longe de esgotada, mesmo com o crescimento simultâneo do lado individual.

A seguradora aponta ainda como causa deste crescimento a pressão atual sobre o sistema de saúde: “o setor segurador desempenha um papel cada vez mais relevante, ao proporcionar alternativas de atendimento através de rede privada, aliviando a pressão sobre o Serviço Nacional de Saúde (SNS), minorando a sua carga assistencial”.

Quando entra em cena o seguro individual?

A apólice coletiva cria hábito, mas não fideliza para sempre. Fonte oficial da Generali Tranquilidade explica que “existe também uma realidade cada vez mais frequente de mobilidade profissional. Quando uma pessoa muda de empresa, inicia atividade por conta própria ou passa para uma entidade que não disponibiliza seguro de saúde, pode sentir necessidade de procurar uma solução individual para manter o nível de proteção a que estava habituada.”

A mesma lógica é confirmada pela MGEN, com fonte oficial a notar que “o seguro empresarial está normalmente associado à permanência do trabalhador naquela organização e as suas condições são definidas de forma coletiva“, pelo que “nem sempre responde integralmente às necessidades específicas de cada pessoa ou do seu agregado familiar“.

Já o seguro individual, acrescenta a mesma fonte, “acompanha-o independentemente do seu percurso profissional” e “pode ser escolhido em função das suas necessidades e prioridades”. Em muitos casos, resume a MGEN, “os dois seguros coexistem ou sucedem-se ao longo das diferentes fases da vida.”

Também a Bupa, que entrou recentemente no mercado português, identifica o mesmo padrão de transição entre seguros. “Acreditamos que os seguros empresariais são, em muitos casos, a porta de entrada para o sistema para muitos segurados”, afirma Nuno Lopes de Almeida, Diretor de Negócios da Bupa Portugal, acrescentando que, “posteriormente, estes utilizadores passam a valorizar os cuidados preventivos e o acesso rápido, e mantêm ou adaptam esta cobertura no futuro através de soluções individuais“.

Lopes de Almeida enquadra esta leitura na própria estratégia de entrada da seguradora no mercado português, que aposta simultaneamente nos dois segmentos: “acreditamos que a oferta para empresas e a oferta individual são complementares e que ambas têm um peso estratégico na nossa expansão em Portugal”.

Rui Meireles, da MDS, acrescenta um elemento adicional a este ciclo: a pandemia. “O contexto pós-pandemia e os desafios sentidos no acesso aos cuidados de saúde no SNS aumentaram a valorização deste tipo de proteção“, afirma, sublinhando que “cada vez mais pessoas encaram o seguro de saúde como um investimento imprescindível para garantir um acesso mais rápido e abrangente aos cuidados de saúde de que necessitam”.

Necessidades específicas requerem outras coberturas

Além da mobilidade profissional, há uma segunda razão que explica por que motivo pessoas já cobertas pela entidade patronal procuram, mesmo assim, um seguro próprio: a insuficiência das apólices coletivas para necessidades familiares ou clínicas específicas.

Rui Meireles, da MDS, explica que “a entidade patronal negoceia uma única opção de seguro para todos os colaboradores, na expectativa que ‘um tamanho sirva a todos’; contudo as pessoas têm necessidades diferentes, em função da fase da vida ou mesmo do seu contexto pessoal”, diz, apontando o exemplo de “histórico de casos oncológicos na família”.

Ainda assim, o responsável nota que este tipo de procura complementar é minoritário: “os casos de procura de um seguro individual complementar são relativamente reduzidos e surgem sobretudo quando existe preocupação de reforçar coberturas.”

Também fonte oficial da Multicare identifica um movimento semelhante, o das soluções de “segundo risco”. “Observa-se uma procura crescente por seguros individuais complementares, nomeadamente soluções de segundo risco, que permitem reforçar o seguro coletivo através do aumento de capitais seguros ou da inclusão de coberturas adicionais para fazer face a despesas de saúde mais elevadas”, explica.

A seguradora liga esta procura a uma maior literacia dos próprios clientes. “Os clientes estão cada vez mais conscientes da importância de dispor de uma proteção de saúde robusta, capaz de responder adequadamente a situações de maior complexidade clínica. Esta maior consciencialização leva também a uma avaliação mais fina das coberturas disponibilizadas pela entidade patronal“, resume.

A inclusão do agregado familiar, frequentemente excluído ou pouco coberto pelas apólices de empresa, é outro motivo recorrente. Fonte oficial da Generali Tranquilidade nota que “há clientes que querem incluir o agregado familiar, outros que procuram reforçar determinadas coberturas e outros ainda que procuram uma solução mais adequada às suas necessidades específicas”.

A MGEN reforça a mesma ideia a propósito da cobertura familiar: é “sobretudo quando o seguro disponibilizado pela empresa abrange apenas o trabalhador ou oferece condições menos favoráveis aos familiares” que os clientes procuram uma solução própria – uma preocupação que, segundo a mesma fonte, “tende a acentuar-se quando existem filhos, perante alterações na situação familiar ou à medida que aumenta a atenção dedicada à prevenção”.

Nuno Lopes de Almeida, da Bupa, acrescenta a esta lista de motivações a procura por “planos sem limites de consultas ou com limites máximos de hospitalização mais elevados para doenças graves”, bem como o interesse crescente por “programas de saúde mental e o acompanhamento digital contínuo”.

Pagar a conta do hospital não chega

Por outro lado, há uma mudança acontecer. A razão pela qual os clientes valorizam o seguro de saúde está a deslocar-se do simples reembolso de despesas médicas para a experiência de acesso e acompanhamento contínuo.

A Generali Tranquilidade descreve esta transição com um exemplo concreto: “os clientes valorizam cada vez mais a rapidez, a conveniência e a simplicidade no acesso aos cuidados de saúde, sendo o crescimento da utilização da telemedicina um bom exemplo desta mudança”. E remata: “hoje já não são vistos apenas como uma forma de fazer face a despesas médicas inesperadas, sendo cada vez mais valorizados pelo acesso, pela conveniência e pelo apoio na gestão da saúde ao longo do tempo”.

A MGEN vai no mesmo sentido, explicando o que o setor terá de fazer nos próximos anos para acompanhar esta mudança: “isso implica reforçar a prevenção, a saúde mental, a gestão da doença crónica e os serviços digitais, promovendo uma relação mais contínua com as pessoas e menos centrada apenas no financiamento do episódio de doença“.

Um mercado individual cada vez mais diverso

O crescimento do segmento individual não se limita a quem já tinha seguro pela empresa: o próprio perfil de cliente está a alargar-se. Rui Meireles, da MDS, aponta que “as seguradoras disponibilizam hoje soluções acessíveis a faixas etárias mais alargadas”, incluindo pessoas com mais de 65 anos, “que há alguns anos tinham poucas ou nenhumas opções no mercado”. Segundo a MDS, os principais clientes deste segmento são hoje “famílias, reformados e cidadãos estrangeiros residentes em Portugal, bem como profissionais liberais e empresários em nome individual”.

Também a MGEN explica que disponibiliza “seguros sem limite de idade na subscrição, sem questionário médico e sem exclusão de pessoas em função do seu estado de saúde. Entendemos que o acesso a uma proteção adequada não deve ficar limitado a um perfil etário, profissional ou socioeconómico específico“, notando que a procura já não está associada apenas a fases tardias da vida: “existe uma maior consciência sobre a importância de contratar uma proteção estável enquanto se é mais jovem e saudável, sobretudo entre adultos em idade ativa e famílias com filhos.”

Já a Multicare identifica uma tendência que reforça este mesmo rejuvenescimento da procura “por parte de famílias jovens que valorizam a rapidez no acesso aos cuidados de saúde”.

Ambos os segmentos vão continuar a ganhar espaço no mercado

Questionadas sobre se o mercado português caminha para um modelo em que o seguro de saúde se torna sobretudo um benefício laboral, todos rejeitam esse cenário. “Não acreditamos que o seguro de saúde venha a tornar-se apenas um benefício laboral“, afirma Rui Meireles, da MDS, para quem “estes dois segmentos de clientes” têm “uma tendência comum de crescimento e não como concorrentes.”

A Generali Tranquilidade partilha a mesma leitura para os próximos cinco anos: “tudo indica que a procura continuará a crescer nos 2 segmentos”, justificando que “a saúde é hoje uma das principais preocupações das famílias e uma prioridade cada vez maior para as empresas. Não vemos sinais de que esta tendência venha a inverter.”

Já Nuno Lopes de Almeida, da Bupa, aposta na tecnologia como motor comum a ambos os mercados: “acreditamos que o grande motor destes dois segmentos será a tecnologia”, diz, referindo-se à digitalização, ao diagnóstico precoce e ao acompanhamento à distância, que deverão traduzir-se em “condições cada vez mais competitivas para o cliente, sem custos excessivos nem surpresas.”

Para a Multicare, o crescimento dos próximos anos dependerá sobretudo da diferenciação da oferta, num mercado que já dá sinais de maturidade: “a penetração dos seguros de saúde em Portugal tem registado um crescimento muito significativo nos últimos anos, podendo-se estar a aproximar de níveis de maturidade.” Ainda assim, a seguradora identifica onde ainda há espaço para crescer: “destaca-se, em particular, o segmento das PME, onde persiste uma margem relevante para aumentar a adoção de seguros de saúde como benefício para colaboradores”.

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