Calçado português sob “intensa pressão”. Conflitos afetam acesso de empresas a mercados de luxo

Lusa,

A posição alcançada pela indústria de calçado portuguesa "não permite qualquer complacência" num clima internacional de "profunda pressão", alerta a associação setorial.

“A posição alcançada por Portugal deve ser valorizada, mas não permite qualquer complacência. As empresas enfrentam custos elevados, instabilidade geopolítica, maior pressão comercial e uma procura internacional menos dinâmica”, afirma o diretor executivo da Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado, Componentes, Artigos de Pele e seus Sucedâneos (APICCAPS).

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Paulo Gonçalves salienta que “será necessário continuar a investir em inovação, sustentabilidade, qualificação e promoção externa para defender o espaço conquistado”, disse, em declarações no âmbito da participação da fileira do calçado nas feiras internacionais Micam, Linepelle e Simac, esta semana em Milão.

“O setor opera sob intensa pressão: os conflitos armados na Ucrânia e no Oriente Médio continuam a afetar a cadeia de valor da moda, reduzindo significativamente o acesso a mercados de luxo que tradicionalmente foram importantes para as empresas portuguesas”, explica.

Uma situação, acrescenta, “agravada por interrupções logísticas, especialmente no estreito de Ormuz, que estão a penalizar fortemente a atividade económica e a contribuir para custos mais altos”. Neste contexto difícil, a APICCAPS nota que a indústria portuguesa tem vindo a reinventar-se, diversificando as suas categorias de materiais e produtos.

O peso do calçado de couro nas exportações caiu de 69% há três anos para 58%, enquanto o peso dos produtos de borracha e plástico aumentou de 13% para 21% e a dos produtos têxteis de 8% para 12%.

O peso do calçado de couro nas exportações caiu de 69% há três anos para 58%, enquanto o peso dos produtos de borracha e plástico aumentou de 13% para 21% e a dos produtos têxteis de 8% para 12%.

No calçado impermeável, Portugal ocupa o 5.º lugar entre os maiores exportadores mundiais, com uma participação de 3,4% e vendas de 55 milhões de dólares (cerca de 47,2 milhões de euros).

Para Paulo Gonçalves, esta evolução demonstra que “a indústria está a adquirir novas competências, a diversificar a oferta e a reduzir a dependência das categorias mais tradicionais, sem abandonar o conhecimento acumulado ao longo de várias gerações”.

Paulo Gonçalves, diretor executivo da associação empresarial do calçado (APICCAPS)

Num contexto de forte concentração da produção na Ásia, Portugal manteve em 2025 uma posição industrial relevante, com 74 milhões de pares produzidos, ocupando o 18.º lugar a nível mundial.

Nesse ano, o país exportou 69 milhões de pares, no valor de 1.949 milhões de dólares (cerca de 1.718 milhões de euros à taxa de câmbio no período de referência), e importou 68 milhões de pares, no valor de 981 milhões de dólares (cerca de 844 milhões de euros), registando assim um excedente comercial de 968 milhões de dólares (cerca de 833 milhões de euros).

Mais de metade das exportações portuguesas em quantidade (58%) correspondeu a calçado de couro, no que a APICCAPS salienta confirmar “o posicionamento nacional em segmentos de maior valor acrescentado”.

A indústria portuguesa tem vindo a distanciar-se da espanhola na vertente produtiva, ao fabricar mais 14 milhões de pares do que a sua concorrente direta, que em 2025 produziu 60 milhões de pares.

Ao mesmo tempo, a indústria portuguesa tem vindo a distanciar-se da espanhola na vertente produtiva, ao fabricar mais 14 milhões de pares do que a sua concorrente direta, que em 2025 produziu 60 milhões de pares, exportou 164 milhões e importou 365 milhões, apresentando um défice comercial superior a 2.000 milhões de dólares.

Números que, sublinha a associação setorial portuguesa, “evidenciam o peso crescente das importações e reexportações espanholas, enquanto Portugal preserva uma base industrial mais forte e uma balança comercial positiva”.

Por sua vez, o presidente da APICCAPS destaca que Portugal tem vindo a demonstrar que “é possível manter uma indústria competitiva na Europa, mesmo perante uma concorrência global muito forte”.

“Portugal continua a investir de forma consistente na indústria, na inovação, na tecnologia, na qualificação e na capacidade produtiva. Os 74 milhões de pares produzidos em 2025 e o excedente comercial próximo de 1.000 milhões de dólares demonstram que existe uma base industrial sólida e competitiva”, sustenta Luís Onofre.

Salientando que esta “é resultado de décadas de investimento e de uma aposta permanente na modernização”, o dirigente associativo considera que “os números portugueses devem ser encarados como um argumento para uma política industrial europeia mais ambiciosa”.

“A Europa não pode abdicar da sua indústria nem aceitar que a sua produção seja progressivamente substituída por importações. Precisamos de uma estratégia europeia que combine abertura ao comércio com reciprocidade, condições de concorrência equilibradas e defesa da capacidade produtiva”, defende, sustentando que “o futuro da indústria europeia depende também da capacidade da Europa de defender os seus direitos no comércio internacional”.

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