Da Ásia para Wall Street via Europa, alertas sobre IA assustam bolsas e juntam-se a receios sobre guerra e dívida

Potencial 'travagem' da IA é ainda tema de debate, mas já chegou às bolsas, com tecnológicas a pressionarem futuros de Wall Street após quedas fortes em Tóquio e Seul.

O alerta lançado no sábado por Dario Amodei, CEO da Anthropic, sobre a necessidade de abrandar o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) para dar tempo aos mecanismos de segurança colheu concordância de outros CEO e críticas de Donald Trump. É ainda cedo para como perceber como o renovado debate irá afetar na prática os planos de investimento da gigantes tecnológicas, mas a ‘travagem’ já chegou às bolsas de três continentes esta segunda-feira, exacerbando o sentimento negativo já instalado pelas subidas do preço do petróleo e das yields das dívidas soberanas.

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“Os futuros do Nasdaq estão a negociar em baixa esta manhã, com uma desvalorização superior a 1,50%”, referiu Henrique Valente, analista da ActivTrades Europe.

As empresas do setor dos semicondutores são as mais penalizadas nos futuros com os da Nvidia a recuarem 2%, os Advanced Micro Devices 4,1% e os da Intel quase 5%. Entre as hyperscalers, os futuros das ações da Meta e a Amazon registam descidas de cerca de 1%, enquanto a Oracle recua 2,7%.

“As empresas ligadas à inteligência artificial estão a ser penalizadas pelos apelos de alguns dos principais executivos do setor a um abrandamento do desenvolvimento da tecnologia, devido a preocupações com a segurança”, explicou Valente. “Estes receios somam-se às dúvidas sobre o retorno dos elevados investimentos em inteligência artificial e embora as receitas estejam a crescer, permanece a incerteza sobre quando esse crescimento se traduzirá em ganhos suficientes para justificar a dimensão da despesa”.

Esses receios já tinham castigados as praças asiáticas, com a bolsa de Tóquio a fechar a primeira sessão da semana em terreno negativo, com o principal índice, o Nikkei, a perder 0,86% para 63.492,99 pontos, o valor mais baixo das últimas seis semanas. As ações do setor tecnológico e ligadas à IA lideraram as quedas, com a Kioxia Holdings (-6,4%), a Advantest (-2%) e a Taiyo Yuden (-5,4%) a registarem perdas significativas. O Grupo SoftBank desceu 10,7% depois de Sam Altman, CEO da OpenAI (na qual o fundo japonês tem cerca de 13%), ter afirmado que a criadora do ChatGPT não vai avançar com uma oferta pública inicial este ano. Na Coreia do Sul, o índice benchmark Kospi perdeu 3.26%.

A abertura na Europa não produziu quedas tão expressivas, mas os índices não ficaram imunes à tendência. O abrangente Stoxx Europe 600 recua 0,15%, com o índice setorial da tecnologia a perder 2,17%.

“Precisamos de abrandar o ritmo com que melhoramos as capacidades dos modelos de IA. O progresso ainda vai parecer rápido e devemos usar o tempo que ganhamos com sabedoria”, afirmou Amodei na publicação no seu ‘site’ pessoal no sábado. “O Dario tem razão”, respondeu Elon Musk na rede social X, poucas horas depois. “Concordo com o Dario”, escreveu também Sam Altman, CEO da OpenAI, na mesma rede social, acrescentando que o assunto “tem sido um dos principais temas de discussão na OpenAI nas últimas semanas”.

Quem não concordou foi o presidente americano, Donald Trump. “Há muitas forças negativas a falar sobre isto e não deviam estar a fazê-lo, e estão a falar sobre coisas que não vão acontecer”, disse em Doonbeg, na Irlanda.

Segundo os analistas do Deutsche Bank, para os mercados, a questão fundamental é se este será o primeiro sinal de que o extraordinário ciclo de investimento em IA poderá, eventualmente, abrandar. “Por enquanto, isso parece improvável, a corrida competitiva entre empresas e países continua intensa, e é difícil imaginar que as empresas recuem voluntariamente enquanto os rivais continuam a avançar”, escreveram numa nota de research. “É difícil imaginar que a China fique parada e, de facto, foi isso que o Presidente Trump afirmou em resposta às notícias do fim de semana — não pareceu favorável a qualquer tipo de pausa”.

“Outra forma de encarar a situação é que, se os principais executivos estão a discutir abertamente os riscos de sistemas cada vez mais poderosos, isso pode ser uma tentativa de transmitir o quão transformadora acreditam que a tecnologia pode vir a ser e ajudar a divulgar o poder do seu produto“, adiantaram. “Assim, em vez de sinalizar uma redução das despesas, pode simplesmente significar que uma maior parte do investimento em IA está a ser direcionada para a segurança, a monitorização e a governação, a par da continuação da expansão da infraestrutura informática, e o debate poderá, portanto, alterar a composição do investimento em IA mais do que a sua escala global”.

Energia continua a preocupar

Os analistas do banco britânico Lloyds recordaram que, no entanto, “a energia continua a ser uma das principais preocupações dos mercados financeiros, uma vez que a Arábia Saudita encerrou o seu oleoduto este-oeste na sequência de ataques”.

“A incerteza quanto à duração do encerramento é agora um ponto-chave de atenção no que diz respeito às consequências em cadeia para o abastecimento global e os preços da energia“, adiantaram. O preço do Brent sobe 2,6% em relação ao fecho de sexta-feira, situando-se um pouco acima dos 107 dólares por barril, enquanto de WTI avança 2,47% para 102,57 dólares.

No mercado de dívida soberana, as taxas de rendibilidade das obrigações, que na semana passada registaram o seu pior desempenho semanal desde meados de maio, sobem ligeiramente. As yields das Treasuries a dez anos estão prestes a atingir os 5%, o valor mais elevado desde 2023, enquanto as das equivalentes alemãs ultrapassaram os 3,53%, atingindo o seu nível mais alto desde 2009, numa semana em que esperam aumentos de taxas de juro nos Estados Unidos e no Japão.

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