Pesados já estão proibidos na VCI: desvio de 60 km ameaça transportes e abastecimento no Porto

Arranca a proibição de circulação de pesados na VCI. Antram alerta para aumento de custos, burocracia e possíveis dificuldades no abastecimento da região Norte.

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A partir desta terça-feira, os pesados de mercadorias estão proibidos de circular na Via de Cintura Interna (VCI), que liga o Porto a Vila Nova de Gaia, ao longo de mais de 20 quilómetros. O condicionamento acontece entre as 7h e as 21h, nos dias úteis. As associações de transportes e logística criticam a medida, recebida com “enorme apreensão” pelo setor. E avisam que o desvio de mais 60 quilómetros por operação, com custos acrescidos no combustível, bem como o “caos burocrático”, deverão afetar o abastecimento ao Porto e à região. Além de se refletir nos preços pagos pelo consumidor. Defensor da proibição que agora vai para a estrada, o autarca Pedro Duarte já pediu ao ministro da Administração Interna uma fiscalização mais apertada.

Há anos reivindicada pelos vários autarcas do Porto e de Gaia, esta medida prevê a redução de 60% do tráfego na VCI, que integra os troços das autoestradas A1/IC1, A20/IC23, A28/IC1 e A44/IC23. A Infraestruturas de Portugal (IP) antecipa mesmo a retirada de mais de quatro mil pesados de mercadorias. A alternativa passa pelo desvio de camiões com especificações concretas – peso bruto superior a 3500 kg e três ou mais eixos, com altura igual ou superior a 1,1 metros na vertical do primeiro eixo – para a Circular Regional Externa do Porto (CREP), oficialmente denominada de A41.

Já desde fevereiro deste ano que estes veículos passaram a estar isentos do pagamento de portagem nesta autoestrada que atravessa municípios como Matosinhos, Maia, Valongo ou Vila Nova de Gaia.

Mas há exceções: os camiões que tenham como origem ou destino os municípios do Porto ou de Vila Nova de Gaia, para efeitos de carga ou descarga de mercadorias, podem circular na VCI durante o período de interdição. Para tal, as empresas transportadoras têm previamente de requerer uma habilitação prévia de circulação, na “plataforma de registo de matrículas, digital e disponibilizada pelos municípios do Porto e de Vila Nova de Gaia”. E que apenas passou a estar disponível esta terça-feira e depois de sucessivos alertas do setor.

“Essa plataforma apenas está operacional desde a tarde” desta segunda-feira, véspera da entrada em vigor da proibição de circulação na VCI, começa por contestar André Almeida, porta-voz da Associação Nacional de Transportadores Públicos Rodoviários de Mercadorias (Antram), em declarações ao ECO/Local Online. As críticas sobem de tom: “A nossa posição é de uma enorme apreensão em relação a esta proibição de circulação, e temos poucas dúvidas de que, a partir de amanhã [terça-feira], teremos o caos burocrático com esta plataforma”.

André Almeida justifica a posição da Antram, em primeiro lugar, com a carga burocrática criada pelas exceções à proibição. Para poderem circular na VCI, detalha, “as empresas têm de introduzir na plataforma a matrícula do veículo, a carga e a origem, o destinatário e anexar as guias de transporte. E tudo isto já é informação a que a Autoridade Tributária tem acesso”. Portanto, reitera, é duplicar procedimentos.

A esta burocracia, alerta o porta-voz da Antram, somam-se os custos causados pelo desvio dos camiões: alguns terão de percorrer mais de 60 quilómetros por operação através da CREP, dependendo do ponto de partida e chegada”, realidade de que não se podem desligar os gastos com o combustível, cujo preço tem vindo a aumentar a reboque do conflito no Médio Oriente.

À conversa com o ECO/Local Online, uma camionista, que não se quis identificar, fez as contas do percurso. Entre o Porto de Leixões, em Matosinhos, e Espinho, são pouco mais de 27 quilómetros de distância, percorridos em 35 minutos de percurso, pela VCI. Já se optar pelo desvio da CREP/A41, a distância duplica para os 61,7 quilómetros, assim como o tempo de viagem aumenta para os 50 a 60 minutos de duração. Logo, antecipa, resultará em mais custos na empresa.

Carros circulam na Via de Cintura Interna (VCI) junto ao Nó da Boavista, no Porto. JOSÉ COELHO/LUSAJOSÉ COELHO/LUSA

Filipe Pereira, gestor de rotas da JEJ Logística, na zona industrial do Porto, costuma “receber mercadoria transportada por camiões TIR”, mas, a poucas horas da entrada em vigor desta proibição de circulação, desconhece como decorrerão as operações nos próximos dias. Sabe apenas que a única alternativa de circulação será a CREP, ou até a circunvalação, para alguns camiões, mas esta última solução poderá ser ainda pior.

Nas imediações, um funcionário de outra empresa disse ao ECO/Local Online que as transportadoras já o avisaram que “o transporte vai encarecer, vai ter um custo extra” devido ao aumento dos gastos com as deslocações.

“Estamos a falar de centenas e centenas de abastecimentos na região Norte e para a região Norte”, enfatiza, por sua vez, o porta-voz da Antram, alertando que “este caos burocrático vai transformar-se rapidamente num caos no abastecimento à região“, desde a indústria ao retalho. No final, quem paga a fatura é o consumidor que vê os preços a disparar.

“Será muito mais caro, porque as empresas vão ter mais custos, não apenas pela distância que vão percorrer, mas também pela carga burocrática que agora lhes é imposta”, sustenta. Numa reunião que decorreu na última semana, segundo conta, mais de 180 transportadoras da região Norte manifestaram o seu descontentamento e “imensa perplexidade” face à proibição de circulação dos pesados na VCI, aprovada pelo Governo.

André Almeida alerta ainda para o impacto financeiro desta medida e o risco de algumas empresas, principalmente as de menor dimensão, enfrentarem dificuldades económicas para conseguirem assegurar a sua atividade económica.

Este caos burocrático vai transformar-se rapidamente num caos no abastecimento à região.

André Matias de Almeida

Porta-voz da Associação Nacional de Transportes Públicos Rodoviários de Mercadorias (Antram)

Igualmente o presidente da Associação Portuguesa de Logística (APLOG), Afonso Almeida, considera esta medida “penalizadora para a maior parte das empresas, para os operadores de transportes e para a própria indústria”.

Por isso mesmo, Afonso Almeida entende que “esta medida não é nada simpática para os associados da APLOG, porque vai complicar as coisas, vai ter mais custos”. Este acréscimo nas despesas resulta, desde logo, aponta, do maior tempo de viagem e dos quilómetros adicionais que algumas operações terão de fazer devido ao desvio pela CREP.

Ainda assim, o presidente da APLOG considera tratar-se “uma medida corajosa” e que “naturalmente tem as melhores intenções“, admitindo: “É um facto que a VCI tem realmente um volume fortíssimo de transporte de camiões durante o dia”.

Ambiente e autarcas saúdam

Apesar do descontentamento do setor, há o outro lado da moeda: com esta imposição, o Grande Porto ganha em matéria de sustentabilidade e descarbonização.

No caso do Porto de Leixões, por exemplo, “que tem uma atividade muito intensa”, Afonso Almeida admite que o desafio será maior, apontando a ferrovia como uma alternativa no futuro para “reduzir o movimento rodoviário”. Mas isso exigiria outras condições e infraestruturas, nomeadamente uma solução de transbordo na margem sul do Porto. “Não são coisas lineares, não são de simples resolução”, reconhece.

Se de um lado estão as empresas de transporte e logística, que contestam a proibição e antecipam mais quilómetros, custos e burocracia, já do outro estão os autarcas do Porto e de Gaia, que há muito defendem esta restrição. Recém-chegado à Câmara, após as autárquicas de 12 de outubro, Pedro Duarte foi um grande impulsionador desta proibição da circulação dos pesados na VCI, apontando-a como uma forma de reduzir o congestionamento e melhorar a circulação na cidade.

E para que nada falhe no primeiro dia, Pedro Duarte já pediu ao Governo fiscalização mais apertada. Há dias, o autarca da Invicta enviou ao ministro da Administração Interna, Luís Neves, um ofício — a que o ECO/Local Online teve acesso — a solicitar o reforço da fiscalização à implementação da proibição de circulação dos veículos pesados, solicitando “presença visível” da parte das autoridades e “atuação perante situações de incumprimento”.

“Quando for visto um camião em que a matrícula não está registada [na plataforma], está a infringir as regras. Nesse caso, caberá à PSP atuar”, vincou, adiantando que existe sinalética a alertar para a proibição.

Ainda assim, Pedro Duarte admite que a medida, por si só, não vai resolver o problema do caos do trânsito, sobretudo às horas de ponta. “É importante termos noção de que os problemas de trânsito na VCI não vão terminar. É um problema muito mais complexo, que exige respostas muito mais estruturais.”

O município do Porto prepara, por isso, “outras medidas de fundo”. Entre elas, a curto-prazo, serão celebrados protocolos com a IP para encontrar alternativas à VCI. “Não faz muito sentido termos uma autoestrada de atravessamento na cidade do Porto que corta a cidade”, defende Pedro Duarte. O objetivo passa por “encontrar soluções para que esta via não seja o constrangimento que, infelizmente, hoje ainda é”.

Entre as respostas estruturais aponta também a Linha Rubi do Metro do Porto, que fará a ligação entre o Porto e Vila Nova de Gaia, através de uma nova travessia do Douro. Pedro Duarte acredita que a nova ligação poderá contribuir para “desincentivar o uso do automóvel” e aliviar a pressão sobre a rede rodoviária.

A 12 de maio deste ano, o primeiro-ministro anunciava, no Porto, uma nova via de cintura externa que seria uma “ligação intermédia” entre a VCI — uma das vias com mais tráfego no país — e a Circular Regional Exterior do Porto (CREP/A41). Na ocasião, Luís Montenegro explicou que esta via seria “uma alternativa à VCI, [de modo a] desviar o trânsito entre o Sul e o Norte relativamente à travessia da cidade do Porto”.

Três meses depois, a 25 de junho, o Conselho de Ministros viria a proibir a circulação dos veículos pesados. A entrada em vigor acontece nesta terça-feira.

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