Encurralada pela inflação, Fed vai subir juros (e provocar a ira de Trump)

Subida de 25 pontos base esperada por investidores vai contra pedido do presidente americano. Contudo, analistas vêm medida da Fed como recalibração e não início de um ciclo de aperto monetário.

O primeiro aumento de juros da Reserva Federal (Fed) em 1.148 dias é visto como praticamente garantido pelos investidores. Na reunião que termina esta quarta-feira, “espera-se amplamente que a Fed promova um aumento de 25 pontos base nas taxas de juro — o primeiro desde julho de 2023”, referiu Afonso Borges, da equipa de fixed Income research do banco privado suíco Julius Baer. “Com a probabilidade de alta precificada pelo mercado próxima de 90%, é pouco provável que a decisão em si tenha grande impacto sobre os rendimentos dos títulos do Tesouro e as atenções se voltarão para eventuais sinais sobre a trajetória futura das taxas de juros”.

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Segundo o site CME FedWatch Tool, que monitoriza a negociação dos futuros das taxas de juro, esta quarta-feira a probabilidade de a Fed aumentar o custo do dólar em 25 pontos base para o intervalo atual de 3,75%-4% era de 92,5%

A tendência destes futuros nas últimas semanas tem sido bastante dinâmica, sustentada nos discursos dos decisores e nos dados da maior economia do mundo numa altura de incerteza geopolítica e impacto na inflação, especialmente nos preços da energia.

Primeiro, foi Kevin Warsh, chair da Fed, a impulsionar as apostas num aumento das juros ao afirmar, no simpósio de Jackson Hole a 27 de agosto, que o banco central dos Estados Unidos terá “trabalho a fazer” se os decisores de política monetária não estiverem confiantes de que a inflação subjacente está a regressar à meta de 2%. Na semana seguinte, Christopher Waller, membro do FOMC, arrefeceu as expectativas de uma subida ao afirmar que se os dados de agosto confirmassem que as pressões inflacionárias estavam a abrandar estaria inclinado a manter inalterado o custo do dólar.

Os dados divulgados na passada sexta-feira não demonstraram, no entanto, esse esfriar da subida de preços: a taxa de inflação homóloga manteve-se nos 3,4% em agosto, anunciou o Bureau of Labor Statistics. Em termos mensais, o índice de preços no consumidor (CPI) registou uma subida de 0,4%, pressionado pelos elevados preços dos combustíveis. De 70% a probabilidade de um aumento das Federal Funds Rates saltou para 87,3%.

Apesar da crescente certeza nos mercados, “a reunião deste mês tem sido, genuinamente, uma das mais difíceis de prever em muito tempo“, referiu Matthew Ryan, head of market strategy, na Ebury, sustentando que os dados, por si sós, não indicam necessariamente a necessidade de taxas mais altas. “É verdade que a inflação dos EUA tem registado valores acima da meta de 2% todos os meses há mais de cinco anos, mas a medida anual da inflação core [sem energia e alimentação] caiu em cada um dos últimos três meses, e não parecem existir efeitos de segunda ordem”.

Ainda assim, a Ebury, uma fintech de sistemas de pagamento e gestão de risco cambial controlada pelo Banco Santander e pela gestora de fundos Centerbridge Partner, alterou a projeção para a reunião desta semana e agora espera um aumento de 25 pontos base, dado que a leve surpresa de alta nos dados de inflação de agosto reduziu a incerteza em torno da decisão. “Acreditamos que isso deve ser suficiente para convencer os membros do comité que eram contrários ao aumento a mudar de posição”, explicou Ryan.

No mercado de dívida soberana, as taxas de rendibilidade das obrigações do Tesouro americanas, tal como as de vários outros países, têm subido para máximos de vários anos, refletindo preocupações orçamentais, sobretudo o aumento da dívida pública e as necessidades de financiamento dos Estados, que enfrentam cada vez mais concorrência da gigantes tecnológicas na emissão de dívida de médio e longo prazo. Esta segunda-feira, a yield da dívida de referência americana, as Treasuries a 10 anos, superou os 5% pela primeira vez desde 2007.

Quebrar com a tradição de ciclos

Matthew Ryan, da Ebury, acredita que Warsh “voltará a abster-se de fornecer qualquer orientação clara sobre os rumos futuros da política monetária, deixando o próximo passo do comité deliberadamente incerto e permitindo que os mercados tirem as suas próprias conclusões sobre a direção a ser tomada — algo a que os investidores terão de se acostumar nesta nova era, gostem ou não”.

Normalmente, presume-se que, se a Fed aumentar as taxas, não o fará apenas uma vez. No entanto, desta vez, acreditamos que pode ocorrer apenas um único aumento, dado que as expectativas de inflação do mercado e dos consumidores permanecem controladas, enquanto a confiança do consumidor está em mínimos históricos.

Analistas do ING

E o que é que os mercados e os analistas vêm para esse rumo? “Normalmente, presume-se que, se a Fed aumentar as taxas, não o fará apenas uma vez”, recordaram os analistas do banco de investimento neerlandês ING, adiantando que os mercados financeiros já precificam mais dois aumentos e meio após a decisão desta quarta-feira, que é praticamente certa. “No entanto, desta vez, acreditamos que pode ocorrer apenas um único aumento, dado que as expectativas de inflação do mercado e dos consumidores permanecem controladas, enquanto a confiança do consumidor está em mínimos históricos”.

“Assim, vemos paralelos com o final da década de 1990 — especificamente com os cortes realizados no início de 1996 antes de uma pausa, seguidos por um único aumento de ‘gestão de risco’ implementado pela Fed de Alan Greenspan em março de 1997, antes de um longo período de estabilidade até o final de 1998″, explicaram.

Para Trump “é muito simples”: taxas mais baixas

Kevin Warsh foi nomeado por Donald Trump em janeiro – após o presidente americano ter tecido duras críticas ao antecessor, Jerome Powell, por ser demasiado lento a descer as taxas de juro – mas também enfrenta pressão política.

“A Fed está também a atuar num cenário político cada vez mais desafiante“, referiu Jenny Zeng, diretora de Investimento (CIO) global em obrigações na Allianz Global Investors. “A Casa Branca continua a exigir taxas de juro mais baixas, enquanto as novas iniciativas relacionadas com o mercado de dívida do Tesouro acrescentam outra camada de complexidade à interação entre as políticas fiscal e monetária”.

Quando os dados do emprego de agosto dizimaram as expectativas dos analistas, com a criação de 162 mil postos de trabalho em setores não-agrícolas face à previsão de 56 mil, os investidores reforçaram o cenário de uma subida das taxas de juros. Trump, no entanto, teve a reação oposta, classificando na rede Truth Social os números como “excelentes”, mas a pedir: “Reduzam as taxas de juros, pois os EUA são um tomador de crédito muito mais sólido do que eram há pouco tempo!”.

Para o presidente americano, “um país forte significa taxas de juros mais baixas… É muito simples! Deveríamos ter a taxa MAIS BAIXA de qualquer país do mundo, como nos ‘velhos tempos‘”.

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