Voto unânime para subir juros “mostra determinação em estabilizar preços num prazo mais curto”, afirma Warsh

Membros do comité do banco central apontam para mais uma subida nos juros este ano, mas Kevin Warsh foi parco em sinais sobre o futuro. Trump critica decisão da Fed: taxas "deviam ser de 1% ou menos".

A inflação nos Estados Unidos está demasiado alta há demasiado tempo, lamentou Kevin Warsh, mas sem desanimar perante os jornalistas. Para o presidente da Reserva Federal (Fed) o facto de a decisão do Federal Open Market Committee (FOMC, comité de política monetária) de subir as taxas de juro pela primeira vez desde julho de 2023 ter sido unânime – com votos a favor dos 12 membros – “demonstra a nossa determinação em alcançar a estabilidade de preços num prazo mais curto”.

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“No mês passado, no Wyoming, expressei meu compromisso com uma disciplina de política monetária, e não com uma decisão específica”, explicou Warsh, em conferência de imprensa após a reunião de dois dias do FOMC. “Defini o critério para a ação: devemos estar confiantes de que a inflação subjacente está caminhando em direção ao nosso objetivo, de forma clara e em ritmo suficiente”.

“Hoje, o FOMC decidiu que esse critério não foi atendido”, salientou.

A Fed aumentou as taxas de juro em 25 pontos base para o intervalo 3,75%-4%, com a pressão inflacionária criada pela guerra no Irão a obrigar o banco central americano a decidir a primeira subida desde julho de 2023 e a quebrar uma pausa que durava desde o início deste ano.

“A realidade é que a inflação está muito alta e permanece assim há muito tempo”, vincou Kevin Warsh na conferência de imprensa. “Os dados de inflação deste verão não indicam que as tendências subjacentes tenham apresentado uma melhora significativa”, completou.

Os dados divulgados na passada sexta-feira revelaram que a taxa de inflação homóloga manteve-se nos 3,4% em agosto, anunciou o Bureau of Labor Statistics. Em termos mensais, o índice de preços no consumidor (CPI) registou uma subida de 0,4%, pressionado pelos elevados preços dos combustíveis.

Esta quarta-feira, o chair da Fed explicou o racional acertado que levou o banco central a manter a pausa nos juros na reunião de julho para agora avançar com a subida, destacando três coisas que aconteceram nesse intervalo. “A primeira é que, semanas antes, fiz uma avaliação sobre a força da economia, houve uma série de dados bastante abrangentes — incluindo os do mercado de trabalho —, indicando que a economia demonstra solidez“, disse.

A segunda diz respeito às tendências da inflação. Warsh recordou que no simpósio de Jackson Hole em agosto, no Wyoming, sublinhou que as tendências importam. “Disse que precisamos olhar pela janela e examinar a realidade”, referiu. “A minha avaliação, há algumas semanas, era a de que as tendências da inflação naquele período não estavam a passar no teste e desde então, vi pouquíssimas informações que me levassem a mudar de ideia, por isso mantive minha posição”.

A terceira coisa que mudou nessas semanas é o cenário geopolítico. “Não há como ignorar os focos de tensão ao redor do mundo, e nossa avaliação sobre os desdobramentos mais ou menos prováveis ​​da situação geopolítica mudou. Esses três fatores contribuíram para a decisão firme e unânime que tomamos hoje”, vincou.

A decisão tomada esta quarta-feira pela Fed deve ser repetida até final do ano, segundo o chamado dot plot, gráfico de pontos) que mapeia as opiniões dos decisores da Fed, que mostrou que 16 membros do comité esperam aumentar as taxas este ano, enquanto dois preveem a manutenção das taxas nos níveis atuais e um não expressou opinião.

O presidente dos EUA, Donald Trump, conversa com Kevin Warsh durante a sua cerimónia de tomada de posse como novo presidente da Reserva Federal no Salão Leste da Casa Branca, em Washington, DC, EUA, a 22 de maio de 2026.EPA/YURI GRIPAS / POOL

“Não antecipo decisões futuras”

Questionado se o histórico de a Fed fazer aumentos em ciclos e se isso se aplica às atuais circunstâncias económicas, Warsh foi parco nos sinais. “Isto não vai surpreendê-lo: não trabalho com forward guidance [orientação futura]”.

“A decisão que tomamos hoje foi ponderada, séria e responsável — algo para o qual venho a preparar-me e sobre o qual tenho refletido ao longo dos meus 120 dias aqui“, adiantou. Vocês viram outras pessoas apresentarem suas previsões, mas não vou antecipar julgamentos sobre decisões futuras”, acrescentou.

“Como talvez tenham me ouvido dizer em Jackson Hole, comprometi-me com uma disciplina, com um conjunto de princípios, comprometi-me a olhar pela janela e observar a realidade e foi isso que fiz em Jackson e foi isso que fizemos hoje”, concluiu.

Trump: taxas de juros nos EUA “deviam ser de 1%, ou menos”

Sobre os pedidos de Donald Trump para a Fed cortar as taxas de juros, Warsh foi igualmente telegráfico: “Não tenho nada para si sobre as conversas com o presidente”.

Já Donald Trump recorreu às redes sociais para reclamar que as taxas de juros nos EUA “deviam ser de 1%, ou menos”. Numa publicação na sua rede social Truth Social, alegou que o país tem “o melhor crédito do mundo – de longe”, está a viver um “boom de novos investimentos” e escreveu que “se parássemos de negociar com todos os países com os quais temos défice — ou seja, a maioria deles — ganharíamos pelo menos 1,5 biliões de dólares por ano”.

“A palavra ‘défice’ não passa de um termo sofisticado para PREJUÍZO. Estamos a carregar às costas praticamente todos os países do mundo, e isso não pode continuar. BAIXEM AS TAXAS DE JUROS PARA OS ESTADOS UNIDOS DA AMÉRICA, E RÁPIDO”, exigiu o chefe da Casa da Branca na mesma publicação.

(Notícia atualizada às 22h com reação de Trump)

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