Portos maiores, novas marinas, navegação noturna no Douro. Há uma revolução em curso no país

A seca nos rios europeus, a falta de habitação em Sines, o recorde de cruzeiros em Portimão e mais espaço para a Autoeuropa junto ao Sado são assuntos centrais na estratégia para os portos nacionais.

A atividade de carga é, talvez, a relação mais imediata que estabelecemos com um porto. Contudo, nos planos das administrações dos portos, o turismo tem igualmente papel relevante

Leixões apresenta já nesta terça-feira um investimento de 100 milhões de euros. Viana cresce como porto industrial. Douro ganha cais novos e navegação noturna entre as cinco eclusas. Figueira da Foz e a Matinha, em Lisboa, terão novas marinas, bem como Faro, aproveitando a transferência do cais comercial para a autarquia. Estes poderiam ser alguns dos títulos para as novidades apresentadas, nesta segunda-feira, para os portos de Norte a Sul e ilhas.

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Com os investimentos do programa Portos 5+ em pano de fundo, os presidentes dos portos portugueses apresentaram nesta segunda-feira, no arranque da sétima edição da Conferência Porto Maritime Week, os mais significativos investimentos em curso para as infraestruturas de Norte a Sul e ilhas.

As novidades incluem o turismo e as atividades industriais e de movimentação de carga. Na navegabilidade do Douro, o turismo beneficiará da melhoria de condições, sobretudo numa altura de redução das condições das operações fluviais noutros países, notou o presidente da APDL. “Temos sentido pressão muito grande do turismo de ter atividade no Douro”, explicou o gestor, que promete “um plano de investimento para os próximos dez anos que será brevemente apresentado”.

Navios no terminal de contentores de Leixões, em MatosinhosJOSÉ COELHO/LUSA

Já para Viana do Castelo, o objetivo é crescer no apoio às atividades industriais. “Já estamos com manifestações de interesse e lotes novos para essas atividades”, anunciou de João Castro Neves, durante a conferência organizada pela revista Transportes e Negócios.

Com todos os presidentes dos portos nacionais presentes, as infraestruturas a Norte merecem destaque. No Douro, há planos de pormenor para remodelação de infraestruturas na Régua, Pinhão, Barca d’Alva e Pocinho. “Vamos construir novos cais e investir em sinalização para permitir navegação noturna”, anunciou o presidente da APDL.

João Pedro Neves especificou os passos em curso no projeto de 1.000 milhões de euros a executar até 2035. “Até final do ano, máximo janeiro do próximo ano, será lançada a nova concessão para operação de carga contentorizada” em Leixões, anunciou o gestor.

O investimento de 100 milhões de euros, para capacidade adicional de 130 mil teus/ano, terá apresentação já nesta terça-feira, conforme afirmou João Pedro Neves. O projeto em curso define ainda a renovação de todo o equipamento do parque de terminal de contentores norte, com aprofundamento do cais (da cota -10 para -12,5). Implicará ainda a deslocalização do centro hípico, um facto que tem merecido críticas veementes da presidente da Câmara de Matosinhos, Luísa Salgueiro, tal como o impacto sobre a marina. O terreno de “30 mil metros quadrados junto ao Porto de Leixões” é “uma área muito apetecível”, reconhece o presidente da entidade portuária. “Os cavalos não se importam, porque estarem longe ou perto dos navios não lhe fazem diferença. Mas a nós faz”, disse João Pedro Neves na tarde desta segunda-feira, justificando a deslocalização com o facto de que “o próprio centro hípico não tem as condições necessárias”.

Ainda em Leixões, além da modernização da ponte móvel de Leixões ainda em curso, prevê-se para abril próximo a conclusão do novo centro de inspeções para cargas refrigerada e não refrigerada. A melhoria destacada prende-se com o ganho de tempo para o cliente, eliminando o tempo de espera do cliente pela inspeção.

A duplicação do terrapleno de Setúbal permitirá criar “muito mais espaço” ao parque da Autoeuropa, nota o presidente deste porto

Na área de circunscrição de Lisboa e Setúbal, as novidades somam-se. Na capital, a Matinha, junto ao Parque das Nações, terá uma nova marina, anunciou o presidente destes portos. No outro extremo da cidade, será remodelada a doca de Pedrouços.

Já sobre Setúbal, Vítor Caldeirinha aludiu à falta de espaço no parque da Autoeuropa no porto da cidade, explicitando que a “quase duplicação da área do terrapleno” permitirá disponibilizar “muito mais espaço”.

O apoio da ferrovia na expansão do Porto de Setúbal aumentará com a chegada ao novo terrapleno, e, depois desse ponto, até à SAPEC, mais a leste na zona portuária, onde surgirão novos terminais, explicou o presidente dos Portos de Lisboa e Setúbal.

Na infraestrutura portuária de Setúbal, as perspetivas são de duplicar ou mesmo triplicar o número de postos de trabalho, após os investimentos em curso, perspetiva o gestor. Em valor, a previsão para o terminal da Sapec/Mitrena é de receber entre 300 milhões e 2.000 milhões de euros em novos investimentos, dependendo da dimensão da fileira industrial que venha a instalar-se ali. Assegurando haver “vários interessados” para os novos terminais, Vítor Caldeirinha aproveitou ainda este palco para dar nota da colaboração no reforço das praias da Arrábida:

"Fizemos dragagens e temos combinado com o ICNF para, daqui a três anos, nas futuras dragagens de manutenção, podermos colocar areias nas praias da Arrábida e podermos ter praias maiores.”

Já no centro do país, está em foco a nova marina a construir na Figueira da Foz, porto gerido em conjunto com o de Aveiro. Neste, as acessibilidades vão receber 40 milhões de euros de investimento, enquanto o terminal de roll on-roll off (ro-ro) levará à aplicação de 70 milhões de euros.

A Sul, Pedro do Ó Ramos, presidente da APS, confirmou que o porto comercial de Faro evoluirá para um ponto de náutica de recreio, pela mão da autarquia, e, no outro porto do Algarve, Portimão continua a registar recordes de afluência de navios de cruzeiro. Este ano, o crescimento é de 70% em navios e 335% em passageiros. Em perspetiva para 2027 está já um investimento de dois milhões de euros “para dar cada vez mais capacidade em terra para os utilizadores”, explicou o presidente da Administração dos Portos de Sines e do Algarve.

Terreno para futura construção habitacional em SinesHugo Amaral/ECO

Mas a novidade com maior destaque para Pedro do Ó Ramos é o avanço da construção do projeto habitacional da APS para Sines. Para tal, falta a aprovação da alteração do uso do terreno, algo que deverá ocorrer nesta quinta-feira na reunião de Assembleia Municipal, anunciou. O gestor designa-o de “investimento absolutamente estruturante”, para dar resposta aos trabalhadores ligados à atividade do porto, designadamente os funcionários da nova alfândega a criar em Sines.

Nas regiões autónomas, o futuro próximo traz igualmente novidades. Na Madeira, o governo regional tem 30 milhões de euros para investir no Caniçal e Porto Santo entre 2027 e 2030, notou Paula Cabaço da Silva nesta conferência.

“O porto do Caniçal vai crescer para aumentar a área de terrapleno para nascente”, explicou, anunciando ainda para setembro o concurso para elaboração do projeto, num valor na ordem do meio milhão de euros.

O molhe principal do porto será remodelado e o abastecimento elétrico aos navios reforçado. Já para o Porto Santo, dos seis milhões de euros de investimento perspetivado, “dois milhões estão já adjudicados para o contra molhe, à espera do visto do Tribunal de Contas”, explicou a gestora. No Porto Santo, a ampliação do porto, com um molhe principal expandido, permitirá reforçar o serviço e mobilidade para os passageiros e viaturas do ferry interilhas, explicou a presidente dos portos da Madeira.

Quanto aos Açores, onde os portos asseguram 98% da chegada de mercadorias, o grande investimento acontecerá no Porto das Lajes das Flores, afirmou a presidente da administração destas infraestruturas da região autónoma, Sancha Costa Santos. O investimento de 260 milhões de euros criará “a maior obra de sempre” dos 14 portos da região.

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