Vitória dos extremos pressiona Merz à medida que soam os alarmes na economia

  • Joana Abrantes Gomes
  • 22 Setembro 2026

A AfD venceu uma eleição estadual pela segunda vez em duas semanas, enquanto a Esquerda conquistou Berlim. Os resultados aprofundam a fragmentação política e apertam o cerco ao chanceler alemão.

Depois do maior triunfo eleitoral da história do partido de extrema-direita há apenas duas semanas na Saxónia-Anhalt, a Alternativa para a Alemanha (AfD) voltou a ganhar uma eleição estadual, desta vez em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental. Em Berlim, o Die Linke (A Esquerda) também teve uma vitória inédita. Os resultados, com vencedores de extremos opostos do espectro político, evidenciam um panorama político cada vez mais fragmentado na maior economia da Europa, em crise, e aumentam a pressão sobre o chanceler Friedrich Merz, da União Democrata-Cristã (CDU).

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A popularidade do primeiro-ministro alemão tem vindo a cair de forma acentuada desde que chegou ao cargo há apenas 16 meses, e o espaço de manobra está a encurtar-se. Em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, a CDU obteve o resultado mais baixo de sempre desde a Segunda Guerra Mundial em qualquer estado, arriscando mesmo ficar fora do Parlamento regional se não alcançar pelo menos 5% dos votos, enquanto em Berlim surge em segundo lugar com 20%, devendo ficar fora da coligação governamental.

Os alarmes soam, igualmente, do lado económico. Embora a subida homóloga dos preços se tenha fixado nos 2,9% em agosto, abaixo da média da Zona Euro, e o PIB tenha crescido 0,3% no segundo trimestre, graças a um impulso das exportações, o Bundesbank alertou esta segunda-feira que a inflação deverá continuar elevada e que a economia deverá perder dinamismo no terceiro trimestre — apesar de admitir uma recuperação mais perto do final do ano. Além disso, o próprio presidente do banco central alemão, Joachim Nagel, manifestou-se preocupado com o avanço da extrema-direita, por considerar que não contribuirá para atrair investimento para o país.

Um dos sinais mais visíveis da fragilidade da economia alemã, que está a tornar-se um fator decisivo nas urnas, é o que se passa na Volkswagen. A maior fabricante automóvel da Europa aprovou recentemente a maior reestruturação da sua história, com o corte de mais de 50 mil postos de trabalho, o que eleva para cerca de 100 mil o número de empregos a eliminar no âmbito do processo iniciado em 2024. O futuro de quatro fábricas do grupo no país — Emden, Zwickau, Hannover e Nerckarsulm — também está em causa, perante um excesso de capacidade produtiva e a perda de competitividade face aos fabricantes chineses.

A crise da Volkswagen é, em parte, um reflexo dos problemas estruturais que afetam o setor automóvel alemão: custos elevados, concorrência asiática, tarifas norte-americanas e a quebra de vendas na China, país que, durante anos, foi uma importante fonte de lucros para as fabricantes da Alemanha. Na primeira metade do ano, a margem operacional do grupo caiu para 3,8%, menos de metade do máximo de 7,9% registado em 2022. Para a maior economia da Zona Euro, altamente dependente da indústria e das exportações, a transformação deste setor tem consequências que ultrapassam as próprias empresas, colocando pressão adicional sobre o Governo de Merz para recuperar a competitividade industrial.

Nos mercados, uma análise da XTB indica que “o verdadeiro risco pode vir mais a longo prazo“, tendo em conta que o resultado aumenta a pressão sobre o chanceler e pode dificultar a aprovação e execução das reformas económicas que pretende implementar.

A subida de cerca de 1% do DAX, principal índice alemão, esta segunda-feira aponta para que os investidores estejam a interpretar os resultados eleitorais de domingo como um “problema político de médio prazo, e não como um choque imediato para o crescimento ou para os lucros das empresas alemãs”. “Enquanto não houver uma crise de liderança na CDU, uma rutura da coligação ou sinais de bloqueio das reformas federais, é difícil justificar uma reavaliação do prémio de risco sobre as empresas alemãs cotadas”, escreve a XTB.

Os resultados oficiais da eleição em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, divulgados esta madrugada, mostram que a AfD venceu com 38,2% dos votos, à frente do Partido Social-Democrata (SPD), que obteve 35,5%. Há duas semanas, na Saxónia-Anhalt – outro estado do Leste da Alemanha (antiga RDA) –, a vitória foi ainda mais contundente, com uma votação de 43,8%.

Apesar do sucesso junto dos eleitores, sem uma maioria absoluta, o partido de extrema-direita precisaria de se coligar ou conquistar o apoio de outros partidos para governar, que mantêm um “cordão sanitário” contra a AfD.

A AfD (Alternativa para a Alemanha) venceu as eleições no estado de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.Lusa

Tino Chrupalla, co-líder da AfD, classificou o resultado alcançado no nordeste alemão como “sensacional” e considerou que o partido “tem, sem dúvida, um mandato para governar” o Estado, anunciando que vai propor conversações a todas as forças políticas que alcançaram representação parlamentar.

Porém, os analistas antecipam que a solução governativa em Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental deverá passar por uma nova coligação liderada pelo SPD, atualmente no poder com o Die Linke, precisando de pelo menos mais um parceiro. No caso de Berlim, a Esquerda pode, em teoria, liderar uma coligação com os sociais-democratas e os Verdes — se conseguir prescindir da proposta de expropriar consórcios imobiliários que possuam mais de 3.000 apartamentos, medida que nenhum dos partidos se mostrou disposto a apoiar.

Merz consegue sobreviver a possível “Kanzlertausch”?

Os resultados da noite de domingo refletem claramente a baixa popularidade de todo o Governo federal e, em particular, do chanceler Friedrich Merz. Contrariamente ao que é costume, o primeiro-ministro alemão proferiu um breve discurso assim que saíram as primeiras sondagens após o fecho das urnas. Nele, reconheceu que a votação foi “um desastre”, mas sublinhou a necessidade de avançar com os planos para reformas no país.

A declaração de Merz foi, no fundo, uma tentativa de anular as especulações sobre a sua possível demissão. Ainda antes das eleições de há duas semanas na Saxónia-Anhalt, os índices de popularidade do chanceler alemão mostravam uma queda drástica desde que assumiu o cargo em maio de 2025: do pico de cerca de 42% atingido em julho do ano passado, caiu para 13% de aprovação no início deste mês.

Trata-se de uma queda invulgarmente acentuada, especialmente para um líder que tomou medidas ousadas em matéria de investimento em infraestruturas, despesas com a defesa e apoio à Ucrânia. Um corte de emergência (e mal direcionado) nos impostos sobre os combustíveis, aprovado à pressa pelo Executivo na última sexta-feira, serve para lembrar que a Alemanha ainda dispõe de alguma margem de manobra orçamental de que os governos vizinhos carecem.

Adicionalmente, a derrota esmagadora da CDU nas eleições estaduais está a provocar murmúrios de revolta nas bases do partido, na sua ala jovem e entre alguns deputados, desencadeando especulações sobre um possível “Kanzlertausch” (termo em alemão que descreve o cenário em que um partido ou coligação no poder decide substituir o atual chanceler por outro político da mesma ala, a meio do mandato, sem a necessidade de convocar novas eleições gerais).

Nos últimos dias, os “barões” do partido fecharam fileiras, com os presidentes estaduais da CDU a prometerem apoiar Merz, incluindo os dois rivais mais prováveis – Hendrik Wüst e Markus Söder, líderes regionais da Renânia do Norte-Vestfália e da Baviera, respetivamente.

A falta de consenso sobre quem deve assumir o cargo pode ser o maior trunfo de Merz, de acordo com os analistas. Wüst, um moderado dos democratas-cristãos, enfrenta as suas próprias eleições estaduais em abril do próximo ano, enquanto Söder, da ala mais conservadora, poderia enfrentar a extrema-direita, mas alguns colegas de partido mostram-se relutantes em entregar a chancelaria ao seu partido irmão bávaro de menor dimensão, a União Social-Cristã (UCS), que ele lidera.

Contudo, a lição que nos vem de outros países da Europa é que, na política atual, uma vez que um político no poder se torna profundamente impopular – como o Presidente francês, Emmanuel Macron, ou o antigo primeiro-ministro britânico Sir Keir Starmer –, é quase impossível recuperar. Ora, com o continente europeu a ter eleições decisivas em França, Itália, Espanha, Polónia e Grécia em 2027, a agitação na liderança política da Alemanha arrisca juntar-se a este cenário. Mesmo que Friedrich Merz permaneça no cargo, há apenas um intervalo de sete meses até à próxima ronda de eleições estaduais – embora nenhuma delas se realize no reduto da AfD na parte oriental da Alemanha –, pelo que um novo revés poderá rapidamente reacender as dúvidas sobre a sua liderança.

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