De novo frente a frente, Trump e Xi procuram estabilidade comercial. IA, tarifas e Irão em cima da mesa

  • Joana Abrantes Gomes
  • 23 Setembro 2026

Extensão da trégua comercial, mais compras chinesas de produtos norte-americanos, garantias sobre terras raras e um mecanismo de diálogo sobre IA são alguns dos temas que vão dominar o encontro.

Depois dos encontros em outubro de 2025 e em maio deste ano, Donald Trump e Xi Jinping voltam a sentar-se à mesma mesa, desta vez em Washington, com um objetivo aparentemente fácil: impedir uma nova escalada da guerra comercial entre as duas maiores potências económicas do mundo, quando faltam menos de dois meses para o fim do prazo da (frágil) trégua tarifária e para as midterms norte-americanas.

Escolha o ECO como fonte preferida no Google

Escolher

A expectativa é, por isso, de um reforço desta espécie de armistício, e não de um novo acordo histórico. Quer a Washington, quer a Pequim interessa preservar a atual estabilidade a nível comercial, mesmo mantendo-se como rivais estratégicos. No entanto, há questões na agenda que podem vir a revelar-se espinhosas, como a inteligência artificial e as terras raras e no campo diplomático.

Tarifas: prolongar a trégua sem resolver a guerra comercial

A primeira pressão sobre os líderes chinês e norte-americano é o calendário comercial. O “Acordo de Busan”, firmado em outubro do ano passado na Coreia do Sul, pôs um travão temporário à guerra comercial agressiva e aos controlos de exportação, mas expira a 10 de novembro.

O Presidente dos EUA, Donald Trump, conversa com o homólogo chinês, Xi Jinping, após a sua reunião no salão de receções Naraemaru, situado numa base da Força Aérea em Busan, na Coreia do Sul, a 30 de outubro de 2025. EPA/YONHAPEPA/YONHAP SOUTH KOREA OUT

Pouco tempo depois de regressar à Casa Branca, Donald Trump elevou as tarifas norte-americanas sobre produtos chineses para níveis superiores a 100%, enquanto Pequim respondeu com medidas de dimensão semelhante. Desde então, os dois países reduziram significativamente as taxas aduaneiras, mas as tarifas continuam muito acima dos níveis anteriores ao início da guerra comercial.

Daí que a prioridade da cimeira desta quinta-feira seja evitar um regresso à escalada. Segundo o Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, as negociações entre Washington e Pequim têm registado progressos numa proposta de redução recíproca das tarifas sobre cerca de 30 mil milhões de dólares de bens de cada lado. A possibilidade de a China comprar mais bens norte-americanos – nomeadamente produtos agrícolas, energia e aviões da Boeing – também está em cima da mesa.

O ponto de interrogação é por quanto tempo será prorrogada a trégua comercial. Pequim estará interessada numa extensão prolongada, mas Washington poderá preferir preservar a possibilidade de utilizar as tarifas como instrumento de pressão. Os analistas do Bank of America Global Research, por exemplo, admitem um compromisso de mais um ano como “cenário base”.

Entretanto, o comércio de bens entre os dois países caiu fortemente desde o início da guerra tarifária, embora a China continue a ser um dos principais parceiros comerciais dos Estados Unidos, apenas atrás do México e do Canadá. Ao mesmo tempo, o défice comercial de bens dos EUA com a China, apesar de inferior ao que existia há um ano, continua a ser um dos mais elevados do mundo, situando-se em cerca de 91,2 mil milhões de dólares.

Terras raras como moeda de troca

Num contexto em que as relações comerciais bilaterais são a dimensão mais visível deste encontro, as terras raras surgem como uma das alavancas mais importantes da China nas conversações entre os dois países.

A China domina uma parte fundamental da cadeia global de fornecimento de terras raras e de ímanes utilizados nos setores automóvel, eletrónico, energético e ainda na indústria aeroespacial. Aliás, Pequim utilizou os controlos às exportações destes materiais como instrumento de pressão durante a guerra comercial, levando Washington a procurar garantias de que os fluxos comerciais seriam mantidos.

O tema deverá, assim, voltar a estar no centro das negociações. Fontes citadas pela Reuters indicam que Pequim poderá disponibilizar aos Estados Unidos mais licenças de exportação de terras raras, procurando obter contrapartidas do lado norte-americano noutras áreas.

Esta é uma das matérias que ilustra a dificuldade de uma dissociação económica entre os dois gigantes. Mesmo quando empresas norte-americanas reduzem as importações diretas da China, muitas cadeias de abastecimento continuam dependentes de componentes ou matérias-primas chinesas.

Inteligência artificial entra na disputa

A cimeira acontece também numa altura em que a rivalidade tecnológica entre Washington e Pequim ganhou uma nova dimensão: a corrida à inteligência artificial. Ambos concorrem no desenvolvimento de modelos de IA e na construção das infraestruturas necessárias para os treinar.

Para os EUA, a tecnologia tornou-se simultaneamente uma questão económica, industrial e de segurança nacional. Do lado de Pequim, a intenção é reduzir a dependência de tecnologia norte-americana para o desenvolvimento dos seus próprios modelos.

A possibilidade de um diálogo bilateral sobre os riscos da IA ganhou força nos últimos dias. O encontro entre Bessent e o vice-primeiro-ministro chinês, He Lifeng, deve abordar mecanismos para os dois países se notificarem mutuamente sobre incidentes relacionados com inteligência artificial e formas de limitar utilizações consideradas perigosas.

Mas isso não significa uma redução da competição tecnológica. Os controlos dos EUA à exportação de semicondutores avançados continuam a ser uma das principais fontes de tensão nas negociações, visto que Washington quer impedir que a China utilize tecnologia norte-americana para reforçar capacidades consideradas estratégicas.

A questão será, portanto, saber se a IA pode constituir uma área limitada de cooperação ou se acabará por se tornar mais um palco da competição entre as duas superpotências.

EUA querem Pequim longe do Irão

A guerra no Irão acrescenta uma dimensão geopolítica à agenda desta quinta-feira.

A China mantém relações económicas estreitas com Teerão e é o principal comprador de petróleo iraniano. A Administração Trump tem, por sua vez, procurado aumentar a pressão económica sobre o regime iraniano e, nas últimas semanas, intensificou as sanções dirigidas a entidades envolvidas no financiamento e comércio com o Irão.

Como tal, Pequim tornou-se uma peça importante da estratégia norte-americana no Médio Oriente. Washington quer que a China use a sua influência económica sobre Teerão para ajudar a limitar a capacidade iraniana de financiar o esforço de guerra — Bessent confirmou, aliás, que as sanções ao Irão foram discutidas nas conversações preparatórias com a delegação chinesa.

O problema é que a China tem interesses próprios na relação com o Irão, em particular na dimensão energética, e não há sinais de que esteja preparada para alinhar integralmente com a estratégia de Donald Trump.

A ‘linha vermelha’ Taiwan

Também na dimensão geopolítica, há outro tema que costuma ser parte da agenda dos encontros entre os dois países: Taiwan.

Pequim pretende que Washington reafirme uma posição mais próxima da sua interpretação sobre o estatuto da ilha, enquanto os EUA continuam obrigados pela sua legislação a apoiar a capacidade de defesa de Taiwan. De momento, ainda está pendente uma nova venda de armas norte-americanas ao Governo de Taipé, avaliada em até 14 mil milhões de dólares.

Qualquer alteração pública da posição dos Estados Unidos sobre Taiwan teria consequências que ultrapassariam a relação bilateral. Por isso, é provável que a cimeira sirva, neste assunto, mais para gerir a tensão do que traduzir propriamente mudanças concretas.

Fentanil e negócios também entram na equação

A agenda do encontro entre Trump e Xi – o terceiro em menos de um ano – inclui ainda o combate ao tráfico de fentanil, uma questão que Washington tem repetidamente colocado nas negociações com Pequim. Os EUA acusam empresas chinesas de continuarem a desempenhar um papel importante no fornecimento de precursores químicos utilizados na produção da droga, numa altura em que as autoridades dos dois países tentam reforçar a cooperação policial.

Ao mesmo tempo, a cimeira terá uma forte componente empresarial, visto que CEOs de algumas das maiores empresas norte-americanas, tais como da Amazon, Google, Apple, Nvidia, OpenAI, Tesla e JPMorgan deverão participar no jantar de Estado oferecido ao líder chinês.

Esta presença de empresários dá à cimeira uma dimensão económica adicional, mas não significa necessariamente que estejam iminentes grandes acordos de investimento, já que as restrições tecnológicas e de segurança nacional e as limitações a nível político e regulamentar de ambas as partes continuam a dificultar compromissos estruturais.

Assine o ECO Premium

No momento em que a informação é mais importante do que nunca, apoie o jornalismo independente e rigoroso.

De que forma? Assine o ECO Premium e tenha acesso a notícias exclusivas, à opinião que conta, às reportagens e especiais que mostram o outro lado da história.

Esta assinatura é uma forma de apoiar o ECO e os seus jornalistas. A nossa contrapartida é o jornalismo independente, rigoroso e credível.

Comentários ({{ total }})

De novo frente a frente, Trump e Xi procuram estabilidade comercial. IA, tarifas e Irão em cima da mesa

Respostas a {{ screenParentAuthor }} ({{ totalReplies }})

{{ noCommentsLabel }}

Ainda ninguém comentou este artigo.

Promova a discussão dando a sua opinião