RTP contrata organizadora da Eurovisão por 75 mil euros para ajudar a desenhar “Casa das Notícias”

Rafael Correia,

O projeto "Casa das Notícias" envolve um investimento de "4,5 milhões em 2025 e rondará os 8,3 milhões este ano e no próximo", explicava Nicolau Santos, presidente do CA da RTP, em 2025.

A RTP contratou por 75 mil euros a União Europeia de Radiodifusão (EBU, na sigla em inglês), aliança de meios de comunicação social públicos mais conhecida por ser a organizadora do Festival Eurovisão da Canção, para ajudar a desenhar a “redação integrada” que resultará do projeto “Casa das Notícias”. Tal faz parte da terceira fase do projeto iniciado em 2024.

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O contrato foi assinado a 25 de junho deste ano, tem duração de dezoito meses e efeitos retroativos a 1 de novembro de 2025, terminando assim na primavera de 2027. O pagamento é faseado em três tranches de 25 mil euros, com a primeira tranche a vencer a 31 de maio de 2026, antes da adjudicação do contrato no dia 3 de junho deste ano. O valor é acrescido de IVA, se legalmente devido.

A EBU é obrigada a fazer uma análise e avaliação do estado atual da redação, assim como mapear as competências e identificar as “disfuncionalidades e insuficiências” nas atuais redações de televisão e rádio.

O contrato prevê ainda:

  • o desenho e consolidação de diagramas de funcionalidades e modelos organizativos associados ao desempenho de uma redação integrada atentas as atribuições, responsabilidades e encargos da informação no serviço público de media
  • mapeamento de novos procedimentos operativos e identificação de requisitos tecnológicos
  • elaboração do manual de procedimentos adequado ao desempenho e funcionamento de uma redação integrada
  • elaboração de um roteiro para a transformação da redação e gestão da mudança
  • desenvolvimento e implementação de programas de cooperação e intercâmbio com outros operadores do serviço público de media tendo em vista a transformação da redação e o imperativo de aprendizagem de novos processos e modelos de trabalho

Os entregáveis incluem por isso a “Missão, Visão, Objetivos e Modelo Estratégico para a Informação RTP”, mas também “modelos de produção e distribuição multiplataforma (Rádio-TV-Digital)”, um manual de procedimentos “adequado a uma redação multimédia (Rádio-TV-Digital)” e sobretudo, a “estrutura de liderança e plano de gestão da mudança”.

O contrato foi celebrado por ajuste direto, tendo a RTP invocado o artigo 24.º, n.º 1, alínea e), subalínea ii) do Código dos Contratos Públicos que permite este tipo de procedimento independentemente do valor do contrato com base num critério material. Neste caso, o serviço público português de televisão e rádio invocou que não existia concorrência por motivos técnicos.

Um projeto que nasceu sem nome

A Casa das Notícias ainda não aparecia nomeada no Projeto Estratégico RTP 2024-2026, de abril de 2024. Mas o projeto já estava lá, sendo que a administração escrevia que já tinham sido dados os primeiros passos na conceção e lançamento dos concursos “para a ampliação da área onde atualmente se encontra parte da redação de informação da televisão, para que ali possam passar a conviver as redações de informação televisiva, da rádio e do multimédia”.

Em janeiro de 2026, Nicolau Santos, presidente do conselho de administração da RTP, explicava em audição parlamentar que tinha sido já concretizada a primeira fase do projeto, com a renovação do estúdio de informação do Porto, a criação de um estúdio de transição em Lisboa e a mudança da marca RTP3 para RTP Notícias. “O investimento atingiu os 4,5 milhões em 2025 e rondará os 8,3 milhões este ano e no próximo”, concretizava.

“Este projeto iniciará a sua segunda fase em 2026, com a ampliação da redação e a renovação dos estúdios de Lisboa, muito degradados e sem alterações significativas desde 2004, e insere-se no plano de investimento para o triénio, o maior que a RTP está a fazer no séc. XXI, mas que poderá eventualmente vir a ser estendido no tempo, para não colocar em causa a sustentação financeira da empresa e a sua tesouraria”, adiantou.

Em “Infraestruturas, obras de reparação, mobiliário, frota e outros”, o projeto envolve, no mínimo, um investimento de 8,08 milhões distribuídos entre 2024 e 2027, conforme mostra o Aditamento ao Plano de Atividades e Orçamento de 2026, datado deste ano. Identificado sob o nome “Infraestruturas Centro de Produção Multimédia Casa de Noticias”, já foram gastos 1,08 milhões de euros, com 4,6 milhões previstos este ano e outros 2,4 milhões para 2027. Este valor está inserido nos 40 milhões de euros previstos de investimento para o triénio 2026-2028 e num valor global de 63,65 milhões desde 2023.

A destacar, por exemplo, que em novembro de 2024, por consulta prévia, a RTP adjudicou à Betar Estudos e Projetos de Estabilidade a “elaboração de projetos de Fundações e Estruturas no âmbito da ampliação e remodelação da área de informação de televisão do edifício sede da RTP – Casa das Notícias”, por 67.880 euros e 240 dias.

O documento sobre a estratégia entre 2024-2026 previa que o “novo espaço da redação para mais sinergias multiplataforma” tivesse sido concluído em março de 2026, mesmo mês em que os novos estúdios de televisão teriam uma solução definitiva. A nova imagem da informação estava marcada para dezembro de 2024 e a criação dos comités multidisciplinares para junho de 2024.

No entanto, o Plano de Atividades 2026, de 28 de outubro de 2025, mostra o arrastar do processo. Com o plano de sinergias rádio, televisão e digital em curso, o novo espaço da redação e os novos estúdios passaram ambos a ter “final previsto para o primeiro trimestre de 2027″. A nova imagem da informação aparece como tendo atrasado para o terceiro trimestre de 2025 “devido a atraso no financiamento, concursos públicos e obras”. Já o Comité Editorial de Informação foi criado em junho de 2025, segundo o Relatório e Contas do ano passado.

“Paralelamente, foi iniciado um processo de diálogo continuado entre direções, reforçado pelo benchmark realizado a operadores do serviço público europeus no âmbito da União Europeia de Radiodifusão“, pode ler-se nesse relatório de contas.

A EBU volta a aparecer numa referência à renovação dos estúdios de informação. “Todo este processo de mudança, realizado no âmbito da Casa das Notícias, teve o apoio dos serviços do Departamento de Transformação Digital da UER/EBU tendo em vista assegurar a adoção das melhores práticas europeias.”

O Relatório e Contas de 2025 dá nota ainda de que a aproximação entre as redações de rádio, televisão e digital “constituiu igualmente uma prioridade, tendo sido desenvolvidos diversos esforços no sentido de criar sinergias editoriais, promover práticas de trabalho colaborativo e otimizar recursos”.

Contestação interna e o que se pede à nova administração

A estrutura de liderança deste novo projeto é uma das várias questões que os jornalistas da RTP levantam. “A ideia da Casa das Notícias é agrupar no mesmo espaço físico, digamos assim, construir de raiz um espaço físico e agrupar nesse espaço físico rádio, televisão e digital […] quem é que vai coordenar a Casa das Notícias?”, questionou Ana Isabel Costa, do Conselho de Redação da Rádio, no âmbito da audição de 5 de maio de 2026 na Comissão de Cultura, Comunicação, Juventude e Desporto. Foi colocada a questão se seriam mantidos dois diretores de informação ou criada a figura de um coordenador.

Na mesma audição, Ana Isabel Costa adiantou que a EBU estava a assessorar a RTP e produziria um relatório, sendo que depois diretores de informação voltariam a reunir-se num “Comité de Informação”, para discutir o documento. Pelo menos até maio, ainda não tinham sido informados do que é que este relatório continha.

À data dessa audição, o trabalho da EBU já decorria há seis meses ao abrigo do prazo que o contrato viria a formalizar em junho.

A discussão havia subido de tom, no âmbito da nova imagem da RTP, que foi alvo de forte contestação interna por parte das rádios. No final de março, Marina Ramos, diretora de marketing e comunicação da RTP, explicava ao +M que “nesse grande investimento de construção, a ideia é que a rádio, a televisão e o digital trabalhem fisicamente mais perto. E que falem mais, que os diferentes meios do serviço público falem mais uns com os outros”. No entanto, assegurava que “não há nenhum projeto de fusão. Não deixam de haver jornalistas de televisão e jornalistas de rádio”.

“O projeto da Casa das Notícias pretende que, do ponto de vista da produção de notícias para o consumidor, sejamos mais fortes e mais eficientes. Mas isso não tira nenhum grau de autonomia nem à rádio, nem ao digital e nem à televisão“, concretizava.

O ‘caderno de encargos’ para a próxima administração mostra a posição do Conselho Geral Independente (CGI) para a nova direção. O ponto de partida do órgão é claro. “A RTP deixou de estar apenas em transição para o digital e passa a ter de funcionar de forma integrada no digital, sem que isso signifique uma fusão das redações.”

O documento defende ainda que “a diversidade da rádio, televisão e serviços em linha precisa de ser respeitada. A necessária coordenação editorial não deve apagar as diferenças entre meios”. A resposta sobre como esta integração será feita está contratada e é um dos entregáveis que a EBU tem de entregar até ao fim do contrato.

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