Juros da dívida portuguesa a 10 anos espreitam os 4% e renovam máximos de 2017
A subida do petróleo e o receio de mais inflação estão a pressionar a subida dos juros da dívida pública, obrigando o Estado a pagar mais por novas emissões nos mercados internacionais.
- A curva de rendimentos de Portugal está a registar uma subida generalizada das yields, com a taxa das obrigações a 10 anos a atingir 3,96%, o valor mais alto desde março de 2017.
- O aumento das yields é impulsionado pela subida do petróleo e dados económicos nos EUA, que elevaram os juros das obrigações norte-americanas a máximos históricos.
- Portugal está bem posicionado para enfrentar juros mais altos, segundo a Oxford Economics, mas uma subida prolongada poderá reduzir a disponibilidade de recursos no Orçamento do Estado para outras despesas.
Esta quinta-feira, a curva de rendimentos de Portugal mostra uma subida generalizada das yields, com aumentos entre 1,7 e quase 5 pontos base da taxa de juro média ponderada. A yield das obrigações do Tesouro a 10 anos está a subir 4,96 pontos base para 3,96%, depois de ter chegado a tocar os 3,97% durante a manhã para o valor mais alto desde 31 de março de 2017.
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Já os juros da dívida a dois anos (mais sensíveis às expectativas da política monetária do Banco Central Europeu) seguem a subir apenas 0,3 pontos base para 3,34%, depois de terem chegado a negociar nos 3,37%, um máximo que não se registava desde outubro de 2013. Para entender porque é que isto está a acontecer, é preciso olhar para lá das fronteiras.
O petróleo voltou a subir acima dos 105 dólares por barril, alimentando o medo de que a inflação volte a acelerar em todo o mundo. Ao mesmo tempo, dados económicos mais fortes do que o esperado nos EUA e uma procura fraca num leilão de dívida norte-americana fizeram disparar os juros das obrigações do Tesouro dos EUA (Treasuries) a 10 anos para 5,145%, o valor mais alto desde a crise financeira de 2008. Este é o pano de fundo com que os mercados chegaram ao encontro entre Donald Trump e Xi Jinping, em Washington, esta quinta-feira.
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A consultora britânica Oxford Economics, numa análise divulgada esta quinta-feira, defende que esta subida de juros deverá ser, na maior parte, passageira, por resultar de uma revisão das expectativas sobre a política dos bancos centrais face à escalada dos preços da energia. “Vemos o pico das taxas de juro como maioritariamente temporário, refletindo largamente uma reavaliação de preços das respostas de política monetária à subida dos preços da energia”, escrevem os economistas Ricardo Amaro e Daniel Kral, autores do relatório, numa tradução livre do inglês.
Segundo os dois especialistas, quem está a determinar o preço da dívida são as taxas de juro reais e os prémios que os investidores exigem para deter obrigações de longo prazo, e não dúvidas sobre a capacidade dos países para pagarem as suas dívidas. “Não pensamos que as preocupações com a sustentabilidade da dívida tenham sido um motor fundamental de yields mais elevadas”, notam os economistas, argumentando que, “se fossem, os credit default swaps (CDS) estariam a subir”. Prova disso é que os indicadores que medem o risco de incumprimento continuam em níveis baixos.
O que significa a subida das yields para as contas do Estado?
A taxa do mercado secundário não é o que Portugal paga sobre toda a dívida que já tem emitida, mas sim a referência para o custo dos empréstimos futuros. No último leilão de dívida a 10 anos, realizado a 8 de julho pela mão do IGCP, o Estado colocou 703 milhões de euros junto dos investidores a uma taxa de 3,439%.
Se o próximo leilão feito pela agência de gestão de dívida pública fosse feito à taxa atual de 3,96%, o custo seria mais elevado: numa emissão de mil milhões de euros a 10 anos, a diferença representaria cerca de 5,2 milhões de euros adicionais em juros por cada ano até ao vencimento. Ainda assim, há motivos para não soar de imediato o alarme nos gabinetes de Pedro Cabeços, presidente do IGCP, e de Joaquim Miranda Sarmento, ministro do Estado e das Finanças.
O programa de financiamento do Estado para 2026 prevê emitir 24 mil milhões de euros em Obrigações do Tesouro, e até ao dia de hoje o IGCP já cumpriu 77% dessa meta (faltando emitir cerca de 5,6 mil milhões de euros em obrigações), o que lhe dá margem para escolher melhor o momento de emitir nova dívida se as condições continuarem adversas.
Além disso, a maturidade média da dívida portuguesa mantém-se acima de sete anos, o que significa que o impacto das novas taxas na fatura total de juros do Estado se espalha ao longo do tempo, em vez de se sentir de imediato.
A Oxford Economics coloca aliás Portugal entre os países da Zona Euro mais bem preparados para aguentar juros mais altos, ao lado de Espanha e Grécia, notando que estes países “estão em melhor posição para resistir a taxas mais elevadas”, referem Ricardo Amaro e Daniel Kral, ainda que avise que uma subida prolongada acabará sempre por deixar menos dinheiro no Orçamento do Estado para outras despesas.
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