Do financiamento à resiliência, empresas de referência na sustentabilidade colhem “benefícios concretos”

No Dia Nacional da Sustentabilidade, empresas portuguesas, reconhecidas internacionalmente pelo seu desempenho ESG, indicam ao ECO/Capital Verde quais os ganhos que têm colhido deste investimento.

As empresas que são consideradas “campeãs” da sustentabilidade em Portugal apontam, neste Dia Nacional da Sustentabilidade, vários dos benefícios que têm colhido das suas práticas de sustentabilidade. Redução de custos, resiliência e gestão de riscos de forma a criar valor a longo prazo são alguns dos benefícios mais destacados, a par dos ganhos de reputação junto das partes interessadas e de condições de financiamento melhoradas.

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O ECO/Capital Verde questionou as empresas portuguesas que foram distinguidas em 2025 pelo Carbon Disclosure Project (CDP), uma entidade independente que avalia o desempenho das empresas em relação ao Clima, Florestas e Água. Só 5% das 20.000 empresas avaliadas no ano passado tiveram direito à classificação A, a mais alta. No que diz respeito ao clima, 10 empresas portuguesas chegaram a este patamar – Altri, BA Glass, CTT, EDP, Jerónimo Martins, Nos, REN, Sonae e Sonae MC e, finalmente, The Navigator Company.

A primeira conclusão a retirar dos depoimentos destas empresas é que consideram que integrar práticas de sustentabilidade nos seus negócios traz benefícios palpáveis.

“Num momento em que a sustentabilidade parece perder espaço no discurso e a sua relevância é por vezes questionada, os desafios que procura responder tornam-se cada vez mais centrais para as empresas”, considera o diretor de sustentabilidade da Sonae, Martim Santos. A EDP alinha-se nesta visão, considerando que “a sustentabilidade continua a ser um componente essencial da gestão empresarial e um fator diferenciador”, apesar do contexto económico e geopolítico “desafiante”.

"A sustentabilidade continua a ser um componente essencial da gestão empresarial e um fator diferenciador.”

EDP

Fonte oficial

Fonte oficial da EDP aponta “benefícios concretos” que vão da gestão de riscos e antecipação de tendências até ao reforço da resiliência do negócio e, finalmente, à confiança cultivada junto de investidores e clientes.

A diretora de sustentabilidade dos CTT, Maria Rebelo, é perentória: “Ser uma empresa sustentável compensa” e, nesta ‘casa’, o principal impacto tem sido o reforço da credibilidade da empresa junto do mercado, embora também faça referência ao aumento da resiliência do negócio, facilitando a adaptação a novas tendências, realidades e riscos. A REN destaca, igualmente, o “reconhecimento externo” como um ganho, e considera que uma estratégia consistente de sustentabilidade permite antecipar riscos, aumentar a eficiência, reduzir custos, reforçar a confiança das partes interessadas e melhorar o acesso a financiamento. “A sustentabilidade é hoje um fator central de competitividade, resiliência e desempenho a longo prazo”, resume a gestora das redes energéticas nacionais.

Para a Sonae, a sustentabilidade acarreta “cada vez mais” um “valor concreto”, sendo que esse valor está nos ganhos de eficiência e nas poupanças resultantes de uma utilização mais inteligente dos recursos, assim como no acesso a novos mercados e na resposta às expectativas de clientes e parceiros. “A sustentabilidade é também uma fonte de inovação e de novas propostas de valor”, acrescenta o responsável da Sonae, para dar depois um exemplo: em 2025, o volume de negócios associado a produtos e serviços circulares atingiu 259 milhões de euros, representando um crescimento de 36%.

"A sustentabilidade é hoje um fator central de competitividade, resiliência e desempenho a longo prazo.”

REN

Fonte oficial

Além da resiliência, competitividade e valor de longo prazo, a Nos destaca como ganhos de sustentabilidade as poupanças “mensuráveis” em energia, materiais e recursos, novamente a confiança dos stakeholders e acrescenta ainda o reforço da capacidade de reter talento.

"A sustentabilidade é também uma fonte de inovação e de novas propostas de valor.”

Martim Santos

Diretor de Sustentabilidade da Sonae

A Navigator frisa que a sustentabilidade é “determinante” para o futuro da sua atividade, a qual está especialmente dependente de valores naturais como a água, floresta e biodiversidade. Esta já não é, então, apenas uma questão de compliance ou de reputação, mas sim “um fator de competitividade, gestão de risco e criação de valor a longo prazo”. A diretora de sustentabilidade da papeleira, Paula Guimarães, vai mais longe: “Se não compensasse a uma empresa ser “sustentável”, era a razão de ser da empresa que estava verdadeiramente em causa”.

"Se não compensasse a uma empresa ser “sustentável”, era a razão de ser da empresa que estava verdadeiramente em causa.”

Paula Guimarães

diretora de Sustentabilidade da The Navigator Company

“Empresas mais sustentáveis são empresas mais eficientes, mais resilientes e mais preparadas, e, consequentemente, empresas com mais futuro”, remata a Chief Communication & Corporate Responsibility Officer do Grupo Jerónimo Martins, Sara Miranda.

Financiamento verde chama condições competitivas e mais investidores

A The Navigator Company afirma-se como pioneira por, em 2019, ter avançado o primeiro programa de Papel Comercial Green em Portugal, no valor de 65 milhões de euros. “O aspeto mais inovador desta operação foi o facto de as condições de financiamento estarem associadas à classificação ESG da Navigator atribuída pela Sustainalytics, sujeita a revisão anual”, descreve Paula Guimarães. A avaliação positiva dos indicadores de sustentabilidade tem permitido aumentar, ao longo dos anos, o peso da dívida associada a critérios ESG na empresa. Em 2025, cerca de 90% do financiamento contratado pela papeleira, tanto nesse ano como em termos acumulados, foi financiamento ESG.

“Empresas com histórico consistente e resultados demonstráveis nestas matérias ficam naturalmente melhor posicionadas para dialogar com financiadores e investidores”, considera a diretora de Sustentabilidade dos CTT. Nesta empresa, foi concluído recentemente o financiamento que estava associado a este tipo de instrumentos. “Estamos atualmente a avaliar a eventual conversão de linhas de financiamento existentes”, indica.

"Empresas com histórico consistente e resultados demonstráveis nestas matérias ficam naturalmente melhor posicionadas para dialogar com financiadores e investidores.”

Maria Rebelo

Diretora de Sustentabilidade nos CTT

Sejam obrigações, empréstimos ou outros instrumentos de financiamento verde, a REN destaca as condições diferenciadas que podem conseguir-se junto a uma base “mais diversificada” de investidores. “Naturalmente, as condições também dependem do risco de crédito, da maturidade, da situação dos mercados financeiros e das características de cada operação”, ressalva a REN.

As finanças sustentáveis, além de uma forma de “acelerar investimentos” em determinadas áreas, são utilizadas pela Jerónimo Martins para incentivar os fornecedores e as pequenas empresas com que a retalhista trabalha “a adotarem práticas mais sustentáveis e melhorarem o seu desempenho ambiental e social”. Isto, sendo que um dos principais desafios para a dona do Pingo Doce no que diz respeito a ser uma empresa sustentável é, precisamente, promover essas opções junto da cadeia de valor. “Destacamos os programas de financiamento, que desenvolvemos com várias instituições financeiras, destinados a reforçar a sustentabilidade nas nossas cadeias de abastecimento”, refere Sara Miranda.

"Destacamos os programas de financiamento, que desenvolvemos com várias instituições financeiras, destinados a reforçar a sustentabilidade nas nossas cadeias de abastecimento.”

Sara Miranda

Chief Communication & Corporate Responsibility Officer da Jerónimo Martins

Esta retalhista fechou 2025 com quatro categorias de instrumentos financeiros sustentáveis ativas: empréstimos verdes, acordos de financiamento da cadeia de abastecimento, linhas de crédito para emissão de garantias e linhas de financiamento sustentável (sustainability-linked loan). O montante de financiamento sustentável obtido totalizava cerca de 1.450 milhões de euros, mais 30% que em 2024, e representava também cerca de 30% do total mobilizado pelo grupo. “É nosso objetivo aumentar progressivamente a representatividade dos instrumentos financeiros contratados ao abrigo do nosso Quadro de Financiamento Sustentável no portefólio global”, informa a responsável de sustentabilidade.

Na Sonae, no final do primeiro semestre de 2026, cerca de 80% das linhas de financiamento de longo prazo do grupo encontravam-se associadas a critérios de sustentabilidade, representando um montante superior a dois mil milhões de euros. “Este percurso reflete uma estratégia consistente de integração de objetivos ESG na estrutura financeira do grupo e no relacionamento com bancos e investidores”, afirma Martim Santos.

O diretor de sustentabilidade da Sonae ressalva que o efeito das práticas de sustentabilidade nas condições de financiamento é “muito limitado financeiramente”, quando analisado isoladamente. Contudo, estes instrumentos contribuem para reforçar o interesse de bancos e investidores pelo grupo, ampliar o universo de fontes de financiamento disponíveis. O grupo conta continuar a recorrer a instrumentos ligados à sustentabilidade, tanto no refinanciamento de operações como na contratação de novo financiamento.

Na Nos, o custo da dívida está associado a metas de sustentabilidade desde 2021, quando lançou o primeiro Programa de Papel Comercial “sustainability-linked”, no valor de 90 milhões de euros. As respetivas condições financeiras ponderavam, entre outros fatores, a notação de rating ESG atribuída pela CDP à empresa de telecomunicações. “Desde então, temos vindo a expandir consistentemente este tipo de financiamento”, explica a diretora de Sustentabilidade da Nos, Luísa Jervell.

"[O desempenho de sustentabilidade] contribui diretamente para baixar o custo médio da dívida da Nos e para diversificar e alongar os seus instrumentos de financiamento.”

Luísa Jervell

Diretora de Sustentabilidade da Nos

No início de 2026, a empresa de telecomunicações contratou 260 milhões de euros em financiamentos bancários sustentáveis. Na sequência, cerca de 85% da dívida da Nos passou a estar indexada a indicadores e metas de sustentabilidade. Esta opção “contribui diretamente para baixar o custo médio da dívida da Nos e para diversificar e alongar os seus instrumentos de financiamento”, conclui a responsável pelo pelouro de Sustentabilidade.

A EDP fala de uma “procura significativa” por instrumentos financeiros sustentáveis, pelo que o posicionamento da EDP nesta área reforça a atratividade da empresa junto de investidores de longo prazo. Embora reconheça que é difícil isolar o impacto direto da sustentabilidade no custo da dívida, as instituições financeiras atestam que o desempenho de sustentabilidade da elétrica reforça a confiança dos financiadores e promove o acesso a capital em condições competitivas.

Desde 2018, o grupo contratou cerca de 28,5 mil milhões de euros em financiamento sustentável, incluindo aproximadamente 18,8 mil milhões de euros em obrigações verdes, 7,9 mil milhões de euros em empréstimos ligados à sustentabilidade e 1,8 mil milhões de euros em empréstimos verdes. No final de 2025, o financiamento sustentável representava cerca de 80% da dívida nominal do grupo EDP. “No futuro, pretendemos continuar a privilegiar instrumentos de financiamento sustentável”, atesta fonte oficial da empresa.

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