Seguradoras investem milhões na televisão, mas novos canais despertam
Poucas companhias investem fortemente em publicidade para comunicar com os segurados, mas se o fazem apostam forte. Também os mediadores de seguros aproveitam a notoriedade para vender mais.
As seguradoras continuam a concentrar a maior parte do investimento publicitário na televisão, mas os dados dos últimos três anos revelam uma utilização cada vez mais diferenciada dos restantes meios. Entre 2024 e 2026, as dez maiores marcas seguradoras analisadas pela Dentsu/Mediamonitor concentraram 92,4% dos 755,7 milhões de euros de investimento publicitário registado pelo setor.
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Os valores apresentados neste estudo consideram preços de tabela apresentados pelos meios, mas valores bem distintos são pagos pelos anunciantes, uma vez que há grandes descontos relacionados com a negociação e de acordo com o volume de investimentos realizados. Servem, no entanto, de referência.

Por exemplo, enquanto o estudo aponta para 60,9 milhões de euros de investimento publicitário em 2025, a rubrica do “publicidade e propaganda” no relatório e contas da Fidelidade indica despesa de 34 milhões de euros. E esta rubrica inclui muito mais despesas do que apenas o investimento publicitário em meios de comunicação. Nas mesmas condições, na Generali Tranquilidade a rubrica “publicidade e marketing” indica 16 milhões de euros de despesas em 2025 enquanto o estudo aponta para 52 milhões.
De qualquer forma, Fidelidade e Generali Tranquilidade lideram de forma destacada (a preços de tabela), com 151,8 milhões e 138,3 milhões de euros, respetivamente, representando em conjunto 38,4% do investimento das 10 maiores. A Allianz surge em terceiro lugar, com 88 milhões, enquanto Ageas Seguros, Zurich e OK! Seguros formam o grupo seguinte.
O investimento atingiu 305,7 milhões em 2025 ( a preços de tabela), depois de 257,9 milhões em 2024. Em 2026 os números indicam 192 milhões, embora esta última comparação deva ser lida tendo em conta o período efetivamente abrangido pelos dados desse ano, apenas de janeiro a julho, quando 2024 e 2025 respeitam anos completos.
Mais do que uma migração da televisão para o digital, os números revelam uma realidade diferente: a TV continua a ser o grande eixo da publicidade seguradora, com várias marcas a canalizarem mais de 90% do orçamento para este meio. Fidelidade, OK! Seguros, Multicare, Logo, Ageas e Allianz enquadram-se neste modelo de televisão dominante, assente sobretudo em alcance e notoriedade. Ao lado deste grupo, Generali Tranquilidade, Zurich e Médis mantêm uma forte presença televisiva, mas combinam-na com investimentos mais relevantes em cinema, Internet Display, rádio ou Outdoor. A Zurich é o caso mais evidente desta diversificação: em 2026, a televisão representa 47,1% do seu orçamento, enquanto a internet chega a 30,3%, o rádio a 11,5% e a outdoor a 10,5%.
Os dados identificam ainda um comportamento marcado por alterações muito acentuadas ou campanhas específicas. A Seguro Directo destinou 38,9% do seu investimento à internet em 2025. Os CTT, por seu lado, tiveram em 2025 apenas 62,3% do investimento concentrado em televisão, enquanto a Lusitania chega a canalizar 90% do orçamento para internet em 2026. São movimentos que não permitem falar de uma tendência uniforme no setor, mas mostram que determinadas marcas estão a testar combinações de meios muito diferentes da tradicional concentração televisiva.
Outra leitura relevante resulta da distinção entre o peso de um meio na carteira de cada anunciante e o peso desse anunciante dentro do investimento total nesse canal. Em 2026, por exemplo, a Generali Tranquilidade representa 25,7% do investimento em televisão do conjunto analisado, mas a TV corresponde a 88,8% da sua própria carteira. Na Internet , os 3,45 milhões de euros investidos pela seguradora representam cerca de 31% do investimento do conjunto considerado nesse meio. Isto permite identificar quais as marcas que estão a contribuir de forma mais significativa para cada canal: Generali Tranquilidade e Fidelidade na televisão; Zurich e Allianz no rádio; Generali Tranquilidade, Zurich, Logo e MEDIS no Internet Display; e Generali Tranquilidade e Zurich no cinema em 2024 e 2025 com o Seguro Directo a constituir um caso particularmente expressivo na internet em 2025.
A leitura global é, por isso, menos a de uma substituição da televisão pelo digital e mais a de uma diversificação seletiva do mix publicitário. A televisão continua a absorver dezenas de milhões de euros e a ser o principal instrumento de alcance das grandes marcas seguradoras, mas Imprensa, Internet, rádio e Outdoor começam a assumir um papel mais relevante em determinadas estratégias e campanhas. A questão que os dados colocam não é, portanto, se a televisão perdeu a liderança — não perdeu —, mas quais as seguradoras que estão a diversificar, para que meios estão a deslocar investimento e se essas alterações correspondem a campanhas pontuais ou a mudanças mais duradouras na estratégia de comunicação.
Fidelidade mantém a televisão como eixo predominante do investimento
A Fidelidade apresenta a estratégia mais concentrada em televisão entre os grandes anunciantes do setor segurador. Em 2024 investiu 49,8 milhões em publicidade, dos quais 48,3 milhões foram destinados à TV, cerca de 97% do total. Em 2025, o investimento subiu para 60,9 milhões, com 59,6 milhões em televisão. Já em 2026, a seguradora surge em segundo lugar, com 41,1 milhões, dos quais 40,1 milhões foram aplicados em TV.
A redução do investimento total em 2026 não foi acompanhada por uma diversificação significativa dos meios. A televisão continua a representar cerca de 98% do orçamento, enquanto Imprensa recebeu 669 mil euros, Internet Display 134 mil e rádio 108 mil. Os números mostram uma estratégia assente essencialmente na televisão como meio de escala e notoriedade, ficando os restantes canais com uma função complementar.
Generali Tranquilidade reforça investimento e diversifica meios
A Generali Tranquilidade registou uma forte subida do investimento publicitário entre 2024 e 2025, passando de 36,9 milhões de euros para 52,3 milhões, um crescimento de cerca de 41,5%. A televisão continuou a absorver a maior parte do orçamento, com 49,2 milhões em 2025, equivalentes a 94,1% do total. Mas em 2026, apesar de manter o primeiro lugar entre os anunciantes, com 49,1 milhões, a TV passou a representar 88,8%.
A alteração mais significativa está no reforço dos restantes meios. Em 2026, a Generali Tranquilidade investiu 1,18 milhões em Outdoor, 451 mil em rádio e 419 mil em Imprensa.
Allianz reduz orçamento, mas mantém aposta dominante na televisão
A Allianz apresenta uma trajetória de redução continuada do investimento publicitário: 36,5 milhões de euros em 2024, 29,7 milhões em 2025 e 21,7 milhões em 2026. Apesar da diminuição de quase 15 milhões em três anos, a composição do orçamento manteve-se relativamente estável, com a televisão a representar 92,2% em 2024, 92,8% em 2025 e 93,6% em 2026.
A principal alteração ocorre no rádio, que ganhou peso dentro de um orçamento global menor. O investimento neste meio passou de 493 mil em 2024 para 1,12 milhões em 2025, recuando para 870 mil em 2026. Mesmo assim, o rádio representa apenas cerca de 4% do investimento total em 2026. Os dados apontam, assim, para uma redução da escala da campanha sem alteração estrutural da preferência da seguradora pela televisão.
Ageas Seguros reduz fortemente investimento e concentra ainda mais na TV
A Ageas passou de 22,45 milhões de investimento publicitário em 2024 para 23,47 milhões em 2025, antes de uma redução acentuada para 9,39 milhões nos primeiro sete meses de 2026. A diminuição do orçamento no último ano, superior a metade do valor de 2025, não foi acompanhada por uma alteração relevante no canal principal utilizado pela marca.
Pelo contrário, a televisão reforçou o seu peso relativo: representava 94,6% do investimento em 2025 e passou para 97,4% em 2026. A evolução distingue-se de estratégias como a da Zurich, que utilizou a redução do peso da televisão para aumentar significativamente a participação de outros meios. No caso da Ageas, a contração do orçamento publicitário traduziu-se sobretudo numa menor escala, mantendo-se a concentração na TV.
Zurich altera profundamente o mix e reduz dependência da televisão
A Zurich apresenta uma das alterações mais acentuadas na composição do investimento publicitário. Depois de 20,8 milhões em 2024 e 25 milhões em 2025, o orçamento caiu para 11,8 milhões em 2026. Mas a principal mudança não está apenas no montante, está na distribuição pelos meios. A televisão passou de 83,4% em 2024 para 67,2% em 2025 e apenas 47,1% em 2026.
A internet ganhou uma dimensão particularmente relevante, passando de ausência de investimento em 2024 para 4,38 milhões em 2025 e 3,59 milhões em 2026. Em 2026, representa 30,3% do orçamento, enquanto rádio e outdoor absorvem, respetivamente, 11,5% e 10,5%. A Zurich surge, assim, como um dos casos em que a redução do investimento total foi acompanhada por uma alteração estrutural do mix.
Seguro Directo com uma mudança radical em 2025
A Seguro Directo, seguradora digital do Grupo Ageas, protagonizou em 2025 uma das maiores alterações de estratégia publicitária entre as seguradoras analisadas. O investimento passou de 11,7 milhões em 2024 para 20,8 milhões em 2025, mas foi sobretudo a distribuição do orçamento que mudou. Em 2024, a televisão representava 93,7%, enquanto rádio, Outdoor, Internet e cinema tinham participações residuais.
Um ano depois, a TV passou a representar 59,2%, enquanto a internet absorveu 38,9% do investimento, equivalente a cerca de 8,1 milhões, contra apenas 50.950 no ano anterior. A alteração, contudo, não se manteve em 2026: o investimento total caiu para 4,5 milhões e a televisão voltou a representar 96,5%.
OK! Seguros e Multicare mantêm publicidade quase exclusivamente na televisão
Para duas marcas do grupo Fidelidade, a OK! Seguros mantém uma estratégia publicitária fortemente concentrada em televisão ao longo dos três anos. Em 2024 investiu 16,1 milhões, dos quais 98% foram destinados à TV. Em 2025, o investimento subiu para 25,1 milhões e a televisão representou 96,9%; em 2026, o orçamento recuou para 18,6 milhões, mantendo-se a TV nos 97,1%.
A Multicare apresenta uma concentração ainda maior. A televisão representou 98,8% do investimento em 2024 e 99,2% em 2025, enquanto os restantes meios assumiram uma dimensão residual. Os dados das duas marcas mostram uma utilização da televisão como principal, e praticamente exclusivo, veículo de comunicação publicitária.
Médis mantém TV dominante com presença digital relevante
A Médis, seguradora de saúde do Grupo Ageas Portugal, mantém uma estratégia predominantemente televisiva, embora com uma presença digital que a diferencia de alguns dos anunciantes mais concentrados em TV. Em 2024, a televisão representava 89,9% do investimento, percentagem que subiu para 95,3% em 2025 e voltou a cair para 90,4% em 2026.
A Outdoor recebeu 904 mil em 2024, 181 mil em 2025 e 465 mil em 2026. No último ano, este valor corresponde a cerca de 6,5% do investimento total. A evolução mostra que a TV continua a ser o principal canal da marca, mas o digital mantém uma dimensão suficientemente expressiva para não poder ser considerado apenas residual.
LOGO combina forte concentração na TV com aposta complementar no digital
A Logo, seguradora digital do grupo Generali Tranquilidade, apresenta uma estratégia igualmente concentrada na televisão, mas com uma componente digital mais visível. Em 2024, investiu 11,82 milhões em TV, equivalentes a 95,5% do orçamento, e 558 mil em Internet. Em 2025, a televisão aumentou para 97,2% do investimento, enquanto o outdoor representou 2,8%.
Em 2026, a concentração televisiva diminuiu. A TV absorveu 92,4%, o outdoor 650 mil, equivalentes a cerca de 4,5%, e a internet recebeu 408 mil, cerca de 2,8%. A estrutura continua, portanto, claramente dominada pela televisão, mas os números revelam uma utilização crescente de outros canais.
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